domingo, 6 de julho de 2014

LIÇÕES DE ABISMO









 LIÇÕES DE ABISMO



A gente se abraçava
encostados numa árvore 
                  pendida sobre o abismo.
Amor é isso. Um abraço
                                  muito largo
à sombra de uma árvore,
os dois corpos, a inocência
                                 pendidos sobre o abismo.
Na beira da estrada,
nos vãos das grandes pedras da serra,
minava água, minava amor.
O sol era vermelho, a tarde era verde.
Nós jogávamos pedras no abismo.
Nós bebíamos água das pedras.
Nós recebíamos lições de abismo
sem o saber.
O horizonte era um livro,
os pássaros liam, cantavam toda a melodia.
Nós ouvíamos amor.
As pedras faziam eco no abismo,
nós ouvíamos a resposta de lugar nenhum.
A vida é agora.
Passarinhos cantavam amor.







                                           

sexta-feira, 4 de julho de 2014

O TÚMULO BRANCO

                                               autorretrato de Borges quando já estava cego





O TÚMULO BRANCO


Uma flor branca sobre o túmulo
Uma flor murcha sobre o túmulo

Uma flor seca sobre o túmulo
O pó de uma flor sobre o túmulo

O túmulo branco na tarde cinza
O túmulo sem nada escrito por cima








quinta-feira, 3 de julho de 2014

SONETO DO MERGULHO NO ABISMO






SONETO DO MERGULHO NO ABISMO


Mergulhar no abismo com um grito de dor
Mergulhar no abismo morrendo à míngua
Mergulhar no abismo com Deus na língua
Mergulhar no abismo com estupor

Mergulhar no abismo com um frio na espinha
Mergulhar no abismo com os olhos abertos
Mergulhar no abismo do caos do universo
Mergulhar no abismo com o nada por companhia

Mergulhar no abismo da solidão
Mergulhar no abismo como quem sofre
Mergulhar no abismo da multidão

Mergulhar no abismo da própria face
Mergulhar no abismo como quem morre
Mergulhar no abismo como quem nasce





segunda-feira, 30 de junho de 2014

NO MEIO DA RUA







NO MEIO DA RUA


Tinha uma flor no meio da rua
Tinha um pássaro morto no meio da rua
Tinha uma borboleta sobre a flor no meio da rua
Tinha um carreiro de formigas devorando o pássaro no meio da rua
Tinha uma abelha disputando a flor com a borboleta no meio da rua
Tinha uma menina olhando o pássaro morto e a flor no meio da rua
Tinha um velho olhando a menina e o pássaro e a flor no meio da rua
Tinha uma mulher no meio da rua
Tinha um besouro azul no meio da rua
Tinha uma mosca azul no meio da rua
Tinha uma libélula azul no meio da rua
Tinha uma barata morta no meio da rua
Tinha um homem distraído no meio da rua
Tinha um poeta e suas memórias distraídas no meio da rua