domingo, 27 de abril de 2014
terça-feira, 22 de abril de 2014
domingo, 9 de março de 2014
PIETÀ - Miguel Torga
Pietà
Vejo-te ainda, Mãe, de olhar
parado,
Da pedra e da tristeza, no teu canto,
Comigo ao colo, morto e nu, gelado,
Embrulhado nas dobras do teu manto.
Sobre o golpe sem fundo do meu lado
Ia caindo o rio do teu pranto;
E o meu corpo pasmava, amortalhado,
De um rio amargo que adoçava tanto.
Depois, a noite de uma outra vida
Veio descendo lenta, apetecida
Pela terra-polar de que me fiz;
Mas o teu pranto, pela noite além,
Seiva do mundo, ia caindo, Mãe,
Na sepultura fria da raiz.
Da pedra e da tristeza, no teu canto,
Comigo ao colo, morto e nu, gelado,
Embrulhado nas dobras do teu manto.
Sobre o golpe sem fundo do meu lado
Ia caindo o rio do teu pranto;
E o meu corpo pasmava, amortalhado,
De um rio amargo que adoçava tanto.
Depois, a noite de uma outra vida
Veio descendo lenta, apetecida
Pela terra-polar de que me fiz;
Mas o teu pranto, pela noite além,
Seiva do mundo, ia caindo, Mãe,
Na sepultura fria da raiz.
Miguel Torga
Em suas
tristes memórias A Criação do Mundo, Miguel Torga narra como compôs esse poema:
na prisão de Salazar, incomunicável, angustiado com a pátria e com os seu
destino de escritor, médico e homem. Retrata a sua angústia nesse soneto, forma
que não lhe era usual, mas que lhe deu a necessária contenção que a sua dor
pedia.
segunda-feira, 3 de março de 2014
quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014
quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014
quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014
sexta-feira, 31 de janeiro de 2014
Eu sou (o morto)
EU SOU
A voz do morto
A mudez do morto
A nudez do morto
Os olhos do morto
O silêncio do morto
A dor do morto
O corpo do morto
O nariz do morto
Os ouvidos do morto
A língua do morto
A inquieta língua do morto
A angústia do morto
A palidez do morto
A perplexidade do morto
O poema do morto
O prodigioso poema do morto
sexta-feira, 24 de janeiro de 2014
O MORTO
O MORTO
É
incompreensível a profecia dos vagões ferroviários
Desfio a minha
história bíblica nos dormentes do inverno
Na minha
infância eu brincava com ossos do Paleolítico
O tempo eram
gotas de chumbo pingando do telhado
Na escuridão
não sei se ouço a voz do meu pai ou a minha
quarta-feira, 15 de janeiro de 2014
SERENIDADE
SERENIDADE
Aprenda a olhar a sua imagem no espelho
Como olhamos para as coisas alheias
Você é apenas uma coisa entre as coisas
Essa é a aprendizagem que cura o coração de todos os males
Use a si mesmo como usamos as coisas
Com a serenidade que só as coisas têm
Como as panelas que brilham na cozinha
E as estrelas já apagadas no céu distante
sexta-feira, 10 de janeiro de 2014
À BEIRA DO BURACO NEGRO
Elin Danielson-GambogiA Girl by the Oven 1894
À BEIRA DO BURACO NEGRO
No deserto
estou rodeado de homens
Na multidão
estou só
No espelho não
me vejo
Com os olhos
vazados verei a mim mesmo
E aos outros
homens
Se estou vivo
nada sei da morte
Se morrer?
Somente com a morte me libertarei
Do outro
Quebrei
relógios como quebrei espelhos
Serei sempre o
afogado à beira do buraco negro
quarta-feira, 8 de janeiro de 2014
O SILÊNCIO DE MUNCH
A PONTE DO SILÊNCIO
Um quadro de
Munch uma boca esquálida as ondas concêntricas
Sobre a ponte
e o título Silêncio
Uma lâmpada
paira bruxuleia entre os vãos da ponte
O dia é
amarelo e sujo e doente nos vidros da janela
O silêncio me
penetra como um dardo envenenado
A ponte
balança
A ponte
balança
A ponte
balança
A ponte
balança sobre o caos sob as nuvens do céu amarelo
domingo, 5 de janeiro de 2014
sábado, 4 de janeiro de 2014
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