quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

LEDO IVO (1924-2012)









RILKE VAI AO DENTISTA
 

Rilke vai ao dentista.
Nenhum dos seus anjos o acompanha.
Ou todos os anjos do mundo o acompanham.
É outono em Berlim. As folhas das tílias
caem como os pássaros silenciosos.
O homem não foi feito para as pequenas dores.
Protegido do frio por um espesso sobretudo
(presente da pincesa Maria von Thurn und Taxis)
Rilke se encaminha para o consultório do dr. Bodecker.
As ruas iguais aos mares sucessivos
o conduzem à vida, não à Morte.


                                    Ledo Ivo (O rumor da noite, 2010)









quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

FELIZ, FELIZ NATAL A TODOS OS MEUS AMIGOS

                                                                                             (Clique na foto para aumentar)








quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

O FOTÓGRAFO E O CONDENADO


O FOTÓGRAFO E O CONDENADO


Na estação de Times Square,
em Nova York,
um homem discute com um mendigo
na plataforma.

De repente o mendigo
empurra
o homem
para os trilhos.

O fotógrafo freelancer R. Umar Abbasi vê
o homem caído
e começa
a clicar.

O trem arfa e arfa
e vem.
A vítima tenta sair
inutilmente.

(A função do fotógrafo não é
salvar
vidas
mas registrar a notícia.

O tabloide New York Post publica
a foto
com a manchete: “CONDENADO”,
“Este homem está prestes a morrer”.)


José C. Brandão





segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

O CANIVETE DE PODAR PARREIRA





                                  
                        O CANIVETE DE PODAR PARREIRA
 
 
O meu pai tinha um canivete de podar parreira.
O cabo era preto e a lâmina curva na ponta como uma foice.
A lâmina era manchada de fumo: o canivete
tinha outros usos além de podar parreira.
 
Eu era um menino muito pequeno ainda
e ficava fascinado com aquele canivete diferente.
Uma vez eu o peguei escondido e saí
dando golpes no ar a torto e direito.
 
Ainda tenho uma cicatriz no dorso da mão esquerda
feita pela ponta em forma de foice do meu canivete encantado.
Um pouco de mim ficou nesse canivete perdido nos desvãos do tempo.
Trago comigo apenas uma pequena cicatriz como lembrança. 
 
 
 
 
                                    José C. Brandão
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

HERANÇA











     



       HERANÇA


Meu avô e meu pai, lado a lado, refletidos
um no outro, consumidos e continuados.
Quem sou, o meu ser-estar no mundo vem desses dois,
do seu olhar sobre a família, os cafezais, as plantações, o gado.

Imagino meu avô e meu pai como Abraão e Isaac.
O sacrifício de Isaac foi consumado
apesar da misericórdia de Deus, ou por isso mesmo.
Abraão se desdobra em Isaac (Marcílio, Luiz), em brasa.

A brasa que traziam já no nome, Brandão,
queimando sob a cinza, na noite do tempo
e além dela, na chama das noites e dos dias sofridos.
Sofreram, como ainda sofremos, altivos, os trabalhos dos dias.

Herdarão a terra, estava escrito. Depois perdemos a terra,
que trazemos na alma e para onde voltaremos como se volta ao lar.
Somos grandes, sabemos: os nossos maiores eram imensos.
Meu avô e meu pai, eu e meu filho caminhamos na nostalgia do sangue.