quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

O FOTÓGRAFO E O CONDENADO


O FOTÓGRAFO E O CONDENADO


Na estação de Times Square,
em Nova York,
um homem discute com um mendigo
na plataforma.

De repente o mendigo
empurra
o homem
para os trilhos.

O fotógrafo freelancer R. Umar Abbasi vê
o homem caído
e começa
a clicar.

O trem arfa e arfa
e vem.
A vítima tenta sair
inutilmente.

(A função do fotógrafo não é
salvar
vidas
mas registrar a notícia.

O tabloide New York Post publica
a foto
com a manchete: “CONDENADO”,
“Este homem está prestes a morrer”.)


José C. Brandão





segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

O CANIVETE DE PODAR PARREIRA





                                  
                        O CANIVETE DE PODAR PARREIRA
 
 
O meu pai tinha um canivete de podar parreira.
O cabo era preto e a lâmina curva na ponta como uma foice.
A lâmina era manchada de fumo: o canivete
tinha outros usos além de podar parreira.
 
Eu era um menino muito pequeno ainda
e ficava fascinado com aquele canivete diferente.
Uma vez eu o peguei escondido e saí
dando golpes no ar a torto e direito.
 
Ainda tenho uma cicatriz no dorso da mão esquerda
feita pela ponta em forma de foice do meu canivete encantado.
Um pouco de mim ficou nesse canivete perdido nos desvãos do tempo.
Trago comigo apenas uma pequena cicatriz como lembrança. 
 
 
 
 
                                    José C. Brandão
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

HERANÇA











     



       HERANÇA


Meu avô e meu pai, lado a lado, refletidos
um no outro, consumidos e continuados.
Quem sou, o meu ser-estar no mundo vem desses dois,
do seu olhar sobre a família, os cafezais, as plantações, o gado.

Imagino meu avô e meu pai como Abraão e Isaac.
O sacrifício de Isaac foi consumado
apesar da misericórdia de Deus, ou por isso mesmo.
Abraão se desdobra em Isaac (Marcílio, Luiz), em brasa.

A brasa que traziam já no nome, Brandão,
queimando sob a cinza, na noite do tempo
e além dela, na chama das noites e dos dias sofridos.
Sofreram, como ainda sofremos, altivos, os trabalhos dos dias.

Herdarão a terra, estava escrito. Depois perdemos a terra,
que trazemos na alma e para onde voltaremos como se volta ao lar.
Somos grandes, sabemos: os nossos maiores eram imensos.
Meu avô e meu pai, eu e meu filho caminhamos na nostalgia do sangue.





segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

PREPARATIVOS PARA O FIM DO MUNDO






PREPARATIVOS PARA O FIM DO MUNDO


1
Escrevo o meu poema na tua pele,
escrevo o meu poema no teu corpo.
Não preciso mais nada para morrer.

2
O sol rouba a cidade nos ombros.
A sombra cai sobre as ruínas.
As cruzes dos túmulos dominam a paisagem.

3
Alguns de meus amigos preferiram morrer,
outros perderam-se nas areias do tempo.
Eu contemplo a lua e as estrelas entre as nuvens.

4
Nas ruas da cidade os homens são como estátuas
em sua nudez de pedra, sem nome nem voz.

5                                
As vozes e as faces cadavéricas
escolhem a cara das ruas da cidade.

6
A pedra é fria e dura como uma pedra.
Serve para esmagar uma cabeça
ou acalentar um coração.

7
O meu relógio está quebrado.
Ficaram mais curtas as ruas.

8
O louco gritava para ouvir a própria voz.
O eco batia nos prédios e voltava
sempre como uma voz alheia.

9
Sobre as pedras da cidade
Arquejo como um animal extinto.

10
Não lhe vi a cara nem lhe sei o nome.
Ninguém lhe viu a cara ou sabe o nome.
Ele é ninguém, anônimo como um morto.

11
Os nascituros são jogados no lixo
antes de receberem um nome, antes sequer
de abrirem os olhos para este mundo que os despreza.

12
O ar está irrespirável
Quem sabe seja o fim do mundo.
Quem sabe eu não viva para saber.

13
Não deixar para amanhã o grito de hoje.
Pode não haver amanhã.

14
Bebo o cálice com o vinho da dor.
Nunca estarei saciado.











(Há um anos mais ou menos postei aqui um poema com o mesmo título deste, que também tem essa idade. Não sei explicar, não me lembro, fica como está.)