quarta-feira, 21 de maio de 2014

MEU OFÍCIO É QUEBRAR RELÓGIOS



 

 


Meu ofício é quebrar relógios


Meu ofício é quebrar relógios
Entrei em guerra contra o tempo
À espera da Eternidade.
Já bebi todo o fel do abismo
Já me sufoquei com o perfume do caos
Eu não quero o nada
Eu espero a Eternidade.
Que os céus se abram
Que o mar se abra
É o fim do mundo.
A Eternidade me acena no meio do caminho.

 


 

 

 

quarta-feira, 30 de abril de 2014

terça-feira, 22 de abril de 2014

domingo, 9 de março de 2014

PIETÀ - Miguel Torga

   



               Pietà


Vejo-te ainda, Mãe, de olhar parado,
Da pedra e da tristeza, no teu canto,
Comigo ao colo, morto e nu, gelado,
Embrulhado nas dobras do teu manto.

Sobre o golpe sem fundo do meu lado
Ia caindo o rio do teu pranto;
E o meu corpo pasmava, amortalhado,
De um rio amargo que adoçava tanto.

Depois, a noite de uma outra vida
Veio descendo lenta, apetecida
Pela terra-polar de que me fiz;

Mas o teu pranto, pela noite além,
Seiva do mundo, ia caindo, Mãe,
Na sepultura fria da raiz.

          
            Miguel Torga




Em suas tristes memórias A Criação do Mundo, Miguel Torga narra como compôs esse poema: na prisão de Salazar, incomunicável, angustiado com a pátria e com os seu destino de escritor, médico e homem. Retrata a sua angústia nesse soneto, forma que não lhe era usual, mas que lhe deu a necessária contenção que a sua dor pedia.