segunda-feira, 26 de novembro de 2012

A COZINHA CAIPIRA, de Almeida Júnior





                                      A PRIMEIRA VEZ
 


A primeira vez que eu vi uma pintura,
quase caí para trás com tanta luz.
Foi na Av. Rodrigues Alves,
numa exposição ao lado da Catedral,
lá por 1967.
Era a “Cozinha Caipira”, de Almeida Júnior,
não era uma pintura moderna –
e eu estava aprendendo (na faculdade
e na vida) que só valia
o que tinha a chancela do moderno.            
Aprendi de repente que arte é outra história.
Não importa a idade, não importam as regras
ou a falta de regras.
O que importa é a luz, mais nada.
Arte é iluminação.



José Carlos Brandão








sábado, 24 de novembro de 2012

A CIGARRA TRANSLÚCIDA







A CIGARRA


A cigarra canta com o sol a pino,
a cigarra morre cantando.
É tanto o sol
que nem percebe.

(Translúcida
jaz
sobre as pedras do caminho.)







quarta-feira, 21 de novembro de 2012

A TRILHA




A TRILHA


Eu andava numa trilha no meio do mato
entre pedras cobertas de limo
eu tinha a beleza nos olhos
nos raios do sol filtrados pelas folhas das árvores.



                   José Carlos Brandão





quinta-feira, 15 de novembro de 2012

SOMBRAS DE OUTUBRO (poemas breves)

                                                                                                     Na estrada (sul de Minas)

                                                                                                    Na estrada (sul de Minas)

                                                                                       Ao lado da Pousada Maria da Fé

                                                                                        Pousada Maria da Fé, em Maria da Fé, MG



 
1.      SOB AS CINZAS

Na noite fria da montanha
sob as cinzas da lareira
uma brasa escondida.

Espera um sopro apenas.


2.      QUEIMEI AS PALAVRAS

Queimei as minhas palavras até não restarem
mais que cinzas.
Veio o vento e as cinzas se iluminaram.


3.      O PESO DO MUNDO

Eu tenho uma pedra na mão, o peso
do mundo nessa pedra.
Imagino um pássaro voando dessa pedra.
É meu o peso do mundo.


4.      O HORIZONTE

O horizonte é sempre possível,
o horizonte é sempre impossível.
Depende do incêndio do sol,
depende do desejo.


5.      MISSÃO CUMPRIDA

Tenho fogo nas mãos
tenho fogo nos olhos
tenho fogo na língua.

Iluminei com o meu fogo a floresta
iluminei com o meu fogo a cidade dos homens.

Agora posso morrer.


6.      NOITE PRÓXIMA

A noite se aproximava.
Eu pressentia o estrépito de uma manada de búfalos ou elefantes.
Logo todas as luzes estavam apagadas.
O rio do tempo a defluir, com as sombras.


7.  ALFOMBRA

O vento passa como uma sombra
sobre a face da lua.
O mármore da noite flutua.
Uma aranha tece a alfombra
do esquecimento.






terça-feira, 13 de novembro de 2012

O PÁSSARO E O TEMPO





O pássaro e o tempo


O pássaro preto do brejo
de atalaia sobre o mourão,
sob o sol do meio-dia,
olha a face seca do tempo.

Um sino longe plange – o esquecimento.










segunda-feira, 12 de novembro de 2012

O PÁSSARO E A LUA






O PÁSSARO E A LUA


O pássaro pousado na antena
com a lua no bico.
Eu bem vejo: o pássaro é um bem-te-vi
iluminado pela lua.
A antena no alto da casa em Maria da Fé, MG,
com um bem-te-vi contra o céu azul
e a lua branca.
Não abra o bico, bem-te-vi,
senão a lua cai.
Não abra o bico, bem-te-vi,
encantado pela lua.
Não abra o bico para o grito, bem-te-vi,
senão se acaba o encanto
e a lua cai.