sábado, 23 de novembro de 2013
quarta-feira, 20 de novembro de 2013
ESPELHO ESPELHO MEU
ESPELHO ESPELHO MEU
Espelho espelho meu dizei-me ó
dizei-me
Existe acaso imagem mais bela
que esta
Existe paisagem mais bela que as
nuvens brancas
Com a montanha no céu azul no
cristal da água?
*
As nuvens refletidas no cristal
O espelho d’água como um cristal
líquido
As nuvens dançam com a montanha
A brancura das nuvens no céu
azul no lago azul
domingo, 17 de novembro de 2013
A ESTRELA PAIRAVA SOBRE OS AMANTES
A ESTRELA PAIRAVA SOBRE OS AMANTES
A estrela
pairava sobre os amantes, sem ruído.
Era como um
vidro do espelho quebrado.
Eu lia um
livro de areia,
as letras se
desfaziam nas minhas mãos.
O tempo se
escapava entre meus dedos.
A marca das
minhas mãos na borda do poço.
A ampulheta
quebrada,
saía fumaça da
cinza das horas.
A água alagava
o barco,
as palavras
batiam no casco furado.
Os olhos
vazados boiavam na água
como peixes
mortos.
As palavras
desfiavam a história da água,
as pálpebras
caídas entre as pedras do caminho.
As pétalas
doíam na areia,
as imagens
nítidas no cristal das lágrimas.
J. C. Brandão
sexta-feira, 15 de novembro de 2013
Albert Camus, o trágico
ALBERT CAMUS, O
HOMEM TRÁGICO
Estamos comemorando o centenário de Albert Camus, que faleceu em 1960,
num acidente de carro. Numa viagem que nem deveria ter feito: ele e o grande
poeta surrealista René Char já haviam comprado passagens de trem, mas seu editor
Michel Gallimard insistiu e ele cedeu. Cedeu para morrer. O carro em que iam
espatifou-se contra uma árvore. Morreu na hora, tragicamente.
Camus foi um dos mais jovens ganhadores do Prêmio Nobel de Literatura,
que geralmente é dado quase “in extremis”, um troféu de consolação. Camus
estava no auge da criatividade, tinha 44 anos de idade e a vida inteira pela
frente. Infelizmente, três anos depois, tinha também uma árvore pela frente.
Numa maleta estavam os originais de “O primeiro homem”, seu quarto romance.
Numa nota, dizia que esse romance deveria permanecer incompleto. Às vezes o
destino ajuda a arte, colabora maldosamente com a vontade do escritor.
Camus viveu numa época em que o absurdo era a visão do mundo mais
coerente. O absurdo foi tema de vários ensaios dele, o homem absurdo no beco
sem saída do mundo. É o tema de seu primeiro romance, “O estrangeiro”. Gestos
gratuitos regem a vida do personagem Mersault. Por fim mata um homem e culpa o
sol, como se fosse um agente do destino absurdo a comandar seus atos. Absurdo e
trágico.
“A peste” é uma alegoria da guerra, que sitiava a humanidade como uma
peste inexplicável sitiava a cidade fictícia de Oran, na Argélia. Quer coisa
mais absurda que a guerra? E trágica.
Muitos consideram “A peste” o seu grande romance. Outros preferem “O
estrangeiro”, com sua linguagem elíptica, frases curtas, diretas, rápidas,
lembrando o estilo de Hemingway, mas seria um Hemingway amadurecido
filosoficamente. Esse “filosoficamente”
é o que dará o tom a “A queda”, seu terceiro grande romance, uma prestação de
contas das ideias de sua geração. É a tabula
rasa do existencialismo. Fatal, trágico.
“O primeiro homem” é mais despretensioso. Tem a despretensão das grandes
obras. É a viagem para Ítaca de Camus, a volta às suas origens. A primeira
parte é a busca do pai, e a segunda, do “primeiro homem”, o menino que deu
origem a Jacques Cormery, ou ao homem Albert Camus.
Costumo lembrar uma passagem casual desse livro. Parece estar ali por
acaso – mas o acaso não quererá dizer muito no pensamento de Camus? Um barbeiro
enfurecido passa a navalha na garganta de um cliente. O infeliz sai gritando
para o meio da rua, sem perceber a garganta cortada até cair morto. Não é a
ética do absurdo? Poderia ser uma visão da ética do nosso tempo, trágica e
inconsciente de sua tragicidade.
José Carlos Brandão
segunda-feira, 11 de novembro de 2013
OS TORTURADOS
OS TORTURADOS
As
imagens de febres insaciáveis
paridas
no escorbuto não germinam
os
ossos escorchados e produz
marcas
fecais o fluxo dessa fonte
de
águas alucinadas. Um lamento
é
absorvido pelas frias larvas
que
corroem o musgo dos olhares.
As
algemas cruéis são ostentadas
em
uma bruma de iras esquecidas.
É a elegia dos inertes como
balido interminável de uma ovelha
manchada
no veneno da faca ácida,
na entrega sufocante sob o orvalho
da
manhã. Quando tudo é consumado.
(197...)
sexta-feira, 8 de novembro de 2013
sábado, 2 de novembro de 2013
E A MORTE PERDERÁ O SEU DOMÍNIO - Dylan Thomas
E a morte perderá o seu domínio.
Nus os homens mortos irão confundir-se
com o homem no vento e na lua do poente;
quando, descarnados e limpos, desaparecerem os ossos
hão-de nos seus braços e pés brilhar as estrelas.
Mesmo que se tornem loucos permanecerá o espírito lúcido;
mesmo que sejam submersos pelo mar, eles hão-de ressurgir;
mesmo que os amantes se percam, continuará o amor;
e a morte perderá o seu domínio.
E a morte perderá o seu domínio.
Aqueles que há muito repousam sobre as ondas do mar
não morrerão com a chegada do vento;
ainda que, na roda da tortura, comecem
os tendões a ceder, jamais se partirão;
entre as suas mãos será destruída a fé
e, como unicórnios, virá atravessá-los o sofrimento;
embora sejam divididos eles manterão a sua unidade;
e a morte perderá o seu domínio.
E a morte perderá o seu domínio.
Não hão-de gritar mais as gaivotas aos seus ouvidos
nem as vagas romper tumultuosamente nas praias;
onde se abriu uma flor não poderá nenhuma flor
erguer a sua corola em direção à força das chuvas;
ainda que estejam mortas e loucas, hão-de descer
como pregos as suas cabeças pelas margaridas;
é no sol que irrompem até que o sol se extinga,
e a morte perderá o seu domínio.
(Dylan Thomas, tradução de Fernando Guimarães, em http://www.culturapara.art.br/opoema/dylanthomas/dylanthomas.htm)
sábado, 12 de outubro de 2013
PALAVRAS (d'après Marianne Moore)
(meu pai e meu avô)
PALAVRAS
D’après Marianne Moore
Meu pai costumava dizer:
“Visita dá duas alegrias: quando
chega e quando vai embora.”
Não que não gostasse de visitas:
era o modelo do anfitrião,
Sempre um cavalheiro, orgulhoso
de servir ao outro.
Não citava autores importantes,
filósofos ou poetas
- embora conhecesse um ou
outro poeta.
Para ele a poesia e a sabedoria
– a mesma coisa, afinal –
Vinham da terra, da vida, dos
homens convivendo com outros homens.
Supérfluo o conhecimento que vem
dos livros,
Palavras que ficam, sem sangue,
sem a presença do homem.
Meu pai nunca escreveria um
poema: palavras vazias,
Numa folha de papel, no bronze,
no vago espelho do tempo.
O poema era o seu grito apartando
as vacas, os bezerros
No final do dia, cansado e
orgulhoso de existir.
E as visitas? Estamos na terra
de visita
À espera da alegria da partida.
Tudo é alegria, diria.
(Metamorfoses de Ofídio –
Paráfrases e paródias)
quinta-feira, 26 de setembro de 2013
Desaparecimento de Amarildo sem Porto
Foto: Tânia Rêgo Agência Brasil
Somem tantas pessoas anualmente
Pela última vez e em nome de Deus
DESAPARECIMENTO DE
AMARILDO SEM PORTO
D’Après
Carlos Drummond de Andrade
“O
tempo ainda é de fezes, maus poemas, alucinações e espera.”
Pede-se
a quem souber
do
paradeiro de Amarildo
avise
sua residência,
um
barraco na Rocinha
com
a mulher e seis filhos
órfãos
antes do tempo,
agora
sem tempo nem para chorar
e
outras atividades básicas
da
pobreza quase indigência.
Pede-se a quem avistar
Pede-se a quem avistar
Amarildo
de Souza, de 42 anos,
que
nunca ultrapassou a linha da pobreza,
vivendo
num lugar chamado Pocinho,
área
dominada pelo tráfico
com
esgoto a céu aberto
e
muitos casos de tuberculose,
pede-se
que dê notícias
–
porque um homem desaparecido
é
pior do que um homem morto.
Roga-se
ao bom povo desta cidade
que
tome em consideração o caso desta família
digno
de simpatia especial.
Amarildo
era um homem bom.
Saiu
para trazer comida,
tinha
sete bocas em casa para alimentar.
Saiu.
Não voltou.
Levava
pouco dinheiro no bolso,
talvez
nem levasse dinheiro.
(Procurem
Amarildo.)
Não
costumava demorar.
(Procurem
Amarildo.)
Só
pensava na família.
(Procurem.
Procurem.)
Faz
uma falta dos diabos.
Se,
todavia, não o encontrarem
nem
por isso deixem de procurar
com
obstinação e confiança que Deus sempre recompensa
e
talvez encontrem.
A
mulher não perde a esperança,
os
filhos não perdem a esperança.
Os
seus amigos ou conhecidos não sabem notícia nenhuma,
limitando-se
a responder: Não sei.
O
que não deixa de ser esquisito.
Somem tantas pessoas anualmente
numa
cidade como o Rio de janeiro
que
talvez Amarildo jamais seja encontrado.
Foi
levado pela polícia
para
um simples interrogatório,
no dia 14 de julho
deste ano,
dia da Revolução
Francesa,
mas ele não sabia
disso,
ele não sabia quase
nada,
ele que nunca fez
nada,
ele que fazia tão
pouco,
era só um ajudante
de pedreiro
e ganhava só uns
300 reais por mês
insuficientes para
alimentar a mulher e os seis filhos.
Afirma a polícia
que foi solto,
de pronto,
mas nunca chegou em
casa
e Elisabete e os
seis filhos choram a orfandade
– o pai com destino
incerto e não sabido.
Onde está Amarildo?
clama a nação, mas
não tem resposta não.
A vida é cheia de
enigmas,
Amarildo é apenas
mais um.
Apenas, mas quantas
penas.
Pela última vez e em nome de Deus
todo-poderoso
e cheio de misericórdia
procurem
Amarildo, procurem
esse
homem jovem e pobre de nome tão original
e
de pobreza sem nenhuma originalidade.
Esqueçam
a luta política, o mensalão e os mensalinhos,
ponham
de lado preocupações comerciais,
percam
um pouco de tempo indagando,
inquirindo,
remexendo.
Não
se arrependerão. Não
há
gratificação maior do que o sorriso de Elisabete,
a
mãe em festa com os seis filhos nas costas,
e
a paz intima
consequente
às boas e desinteressadas ações,
puro
orvalho da alma.
Não me venham dizer que Amarildo suicidou-se,
Não me venham dizer que Amarildo suicidou-se,
fugiu com outra
mulher,
foi morto pelos
bandidos do tráfico,
caiu no esgoto do
Pocinho onde mora
(ou morava, que
agora Amarildo é pura hipótese).
Ele não se matou.
Procurem-no.
Tampouco foi vítima
de desastre
que a polícia
ignora
e os jornais não
deram.
Está vivo para
consolo de uma esposa infeliz
e
triunfo geral do amor dos filhos
e
dos irmãos infelizes. (Somos todos irmãos na dor.)
A qualquer hora do
dia ou da noite
quem o encontrar
avise no Pocinho da Rocinha.
Talvez Elisabete
nem esteja mais lá,
expulsa pelo medo e
pela miséria.
Mas o recado se
espalhará como fogo na palha seca
e alguém tomará
providências.
Mas
se acharem que a sorte
dos povos é mais importante
e que não devemos
atentar nas dores individuais,
se fecharem ouvidos
a este apelo de campainha,
não faz mal,
insultem a mulher de Amarildo,
virem a página:
Deus terá compaixão
da abandonada e do ausente.
Deus dirá a
Elisabete:
Vai,
abraça o teu marido,
beija-o e fecha-o para sempre em teu coração.
Ou talvez não seja
preciso esse favor divino.
A mulher de
Amarildo (somos pecadores)
sabe-se indigna de
tamanha graça.
E resta a espera, que
sempre é um dom.
Sim, os extraviados
um dia regressam
— ou nunca, ou pode
ser, ou ontem.
E de pensar realizamos.
Quer apenas seu
homem
com quem se casou
numa tarde remota
e para quem agora
só oferece uma lágrima já seca.
Já não interessa a
descrição do corpo,
nenhuma fotografia
é suficiente,
disfarces de
realidade mais intensa
e que anúncio algum
proverá.
Cessem pesquisas,
rádios, calai-vos·
Calma de flores
abrindo
no canteiro azul
onde desabrocha a
vida infeliz de Amarildo
intata nos tempos.
E de sentir
compreendemos.
Já não adianta
procurar
o seu homem
Amarildo
que a vida, a política,
a polícia, o tráfico ou Deus
inapelavelmente
levaram.
José Carlos Brandão
De
Metamorfoses de Ofídio – paráfrases e paródias extemporâneas
Paráfrase
de “Desaparecimento de Luísa Porto”, de Drummond editado pela 1ª vez em “Poesia
até agora”, de 1948.
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