quarta-feira, 20 de novembro de 2013

ESPELHO ESPELHO MEU






ESPELHO ESPELHO MEU

 

 

Espelho espelho meu dizei-me ó dizei-me

Existe acaso imagem mais bela que esta

Existe paisagem mais bela que as nuvens brancas

Com a montanha no céu azul no cristal da água?

 

                       *

 

As nuvens refletidas no cristal

O espelho d’água como um cristal líquido

As nuvens dançam com a montanha

A brancura das nuvens no céu azul no lago azul

 

 

 

domingo, 17 de novembro de 2013

A ESTRELA PAIRAVA SOBRE OS AMANTES



 
 
 
A ESTRELA PAIRAVA SOBRE OS AMANTES

 


A estrela pairava sobre os amantes, sem ruído.

Era como um vidro do espelho quebrado.

Eu lia um livro de areia,

as letras se desfaziam nas minhas mãos.

 

O tempo se escapava entre meus dedos.        

A marca das minhas mãos na borda do poço.

A ampulheta quebrada, 

saía fumaça da cinza das horas.

 

A água alagava o barco,

as palavras batiam no casco furado.

Os olhos vazados boiavam na água

como peixes mortos.

 

As palavras desfiavam a história da água,

as pálpebras caídas entre as pedras do caminho.

As pétalas doíam na areia,

as imagens nítidas no cristal das lágrimas.

 

J. C. Brandão

 

 

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Albert Camus, o trágico





ALBERT CAMUS, O HOMEM TRÁGICO

Estamos comemorando o centenário de Albert Camus, que faleceu em 1960, num acidente de carro. Numa viagem que nem deveria ter feito: ele e o grande poeta surrealista René Char já haviam comprado passagens de trem, mas seu editor Michel Gallimard insistiu e ele cedeu. Cedeu para morrer. O carro em que iam espatifou-se contra uma árvore. Morreu na hora, tragicamente.
Camus foi um dos mais jovens ganhadores do Prêmio Nobel de Literatura, que geralmente é dado quase “in extremis”, um troféu de consolação. Camus estava no auge da criatividade, tinha 44 anos de idade e a vida inteira pela frente. Infelizmente, três anos depois, tinha também uma árvore pela frente.
Numa maleta estavam os originais de “O primeiro homem”, seu quarto romance. Numa nota, dizia que esse romance deveria permanecer incompleto. Às vezes o destino ajuda a arte, colabora maldosamente com a vontade do escritor.
Camus viveu numa época em que o absurdo era a visão do mundo mais coerente. O absurdo foi tema de vários ensaios dele, o homem absurdo no beco sem saída do mundo. É o tema de seu primeiro romance, “O estrangeiro”. Gestos gratuitos regem a vida do personagem Mersault. Por fim mata um homem e culpa o sol, como se fosse um agente do destino absurdo a comandar seus atos. Absurdo e trágico.
“A peste” é uma alegoria da guerra, que sitiava a humanidade como uma peste inexplicável sitiava a cidade fictícia de Oran, na Argélia. Quer coisa mais absurda que a guerra? E trágica.
Muitos consideram “A peste” o seu grande romance. Outros preferem “O estrangeiro”, com sua linguagem elíptica, frases curtas, diretas, rápidas, lembrando o estilo de Hemingway, mas seria um Hemingway amadurecido filosoficamente.  Esse “filosoficamente” é o que dará o tom a “A queda”, seu terceiro grande romance, uma prestação de contas das ideias de sua geração. É a tabula rasa do existencialismo. Fatal, trágico.
“O primeiro homem” é mais despretensioso. Tem a despretensão das grandes obras. É a viagem para Ítaca de Camus, a volta às suas origens. A primeira parte é a busca do pai, e a segunda, do “primeiro homem”, o menino que deu origem a Jacques Cormery, ou ao homem Albert Camus.
Costumo lembrar uma passagem casual desse livro. Parece estar ali por acaso – mas o acaso não quererá dizer muito no pensamento de Camus? Um barbeiro enfurecido passa a navalha na garganta de um cliente. O infeliz sai gritando para o meio da rua, sem perceber a garganta cortada até cair morto. Não é a ética do absurdo? Poderia ser uma visão da ética do nosso tempo, trágica e inconsciente de sua tragicidade.

José Carlos Brandão




segunda-feira, 11 de novembro de 2013

OS TORTURADOS






OS TORTURADOS


As imagens de febres insaciáveis
paridas no escorbuto não germinam
os ossos escorchados e produz
marcas fecais o fluxo dessa fonte

de águas alucinadas. Um lamento
é absorvido pelas frias larvas
que corroem o musgo dos olhares.
As algemas cruéis são ostentadas

em uma bruma de iras esquecidas.
É a elegia dos inertes como
balido interminável de uma ovelha

manchada no veneno da faca ácida,
na entrega sufocante sob o orvalho
da manhã. Quando tudo é consumado.

                                            (197...)






sábado, 2 de novembro de 2013

E A MORTE PERDERÁ O SEU DOMÍNIO - Dylan Thomas


E a morte perderá o seu domínio.
Nus os homens mortos irão confundir-se
com o homem no vento e na lua do poente;
quando, descarnados e limpos, desaparecerem os ossos
hão-de nos seus braços e pés brilhar as estrelas.
Mesmo que se tornem loucos permanecerá o espírito lúcido;
mesmo que sejam submersos pelo mar, eles hão-de ressurgir;
mesmo que os amantes se percam, continuará o amor;
e a morte perderá o seu domínio.

E a morte perderá o seu domínio.
Aqueles que há muito repousam sobre as ondas do mar
não morrerão com a chegada do vento;
ainda que, na roda da tortura, comecem
os tendões a ceder, jamais se partirão;
entre as suas mãos será destruída a fé
e, como unicórnios, virá atravessá-los o sofrimento;
embora sejam divididos eles manterão a sua unidade;
e a morte perderá o seu domínio.

E a morte perderá o seu domínio.
Não hão-de gritar mais as gaivotas aos seus ouvidos
nem as vagas romper tumultuosamente nas praias;
onde se abriu uma flor não poderá nenhuma flor
erguer a sua corola em direção à força das chuvas;
ainda que estejam mortas e loucas, hão-de descer
como pregos as suas cabeças pelas margaridas;
é no sol que irrompem até que o sol se extinga,
e a morte perderá o seu domínio.







(Dylan Thomas, tradução de Fernando Guimarães, em http://www.culturapara.art.br/opoema/dylanthomas/dylanthomas.htm)



sábado, 12 de outubro de 2013

PALAVRAS (d'après Marianne Moore)

                                                                                                            (meu pai e meu avô)




PALAVRAS

D’après  Marianne Moore


Meu pai costumava dizer:
“Visita dá duas alegrias: quando chega e quando vai embora.”
Não que não gostasse de visitas: era o modelo do anfitrião,
Sempre um cavalheiro, orgulhoso de servir ao outro.
Não citava autores importantes, filósofos ou poetas
­­- embora conhecesse um ou outro poeta.
Para ele a poesia e a sabedoria – a mesma coisa, afinal –
Vinham da terra, da vida, dos homens convivendo com outros homens.
Supérfluo o conhecimento que vem dos livros,
Palavras que ficam, sem sangue, sem a presença do homem.
Meu pai nunca escreveria um poema: palavras vazias,
Numa folha de papel, no bronze, no vago espelho do tempo.
O poema era o seu grito apartando as vacas, os bezerros
No final do dia, cansado e orgulhoso de existir.
E as visitas? Estamos na terra de visita
À espera da alegria da partida. Tudo é alegria, diria.


(Metamorfoses de Ofídio – Paráfrases e paródias)








quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Desaparecimento de Amarildo sem Porto

                                                                                                              Foto:  Tânia Rêgo Agência Brasil



DESAPARECIMENTO DE AMARILDO SEM PORTO
         D’Après Carlos Drummond de Andrade

“O tempo ainda é de fezes, maus poemas, alucinações e espera.”

Pede-se a quem souber
do paradeiro de Amarildo
avise sua residência,
um barraco na Rocinha
com a mulher e seis filhos
órfãos antes do tempo,
agora sem tempo nem para chorar
e outras atividades básicas
da pobreza quase indigência.

Pede-se a quem avistar
Amarildo de Souza, de 42 anos,
que nunca ultrapassou a linha da pobreza,
vivendo num lugar chamado Pocinho,
área dominada pelo tráfico
com esgoto a céu aberto
e muitos casos de tuberculose,
pede-se que dê notícias
– porque um homem desaparecido
é pior do que um homem morto.

Roga-se ao bom povo desta cidade
que tome em consideração o caso desta família
digno de simpatia especial.
Amarildo era um homem bom.
Saiu para trazer comida,
tinha sete bocas em casa para alimentar.
Saiu. Não voltou.

Levava pouco dinheiro no bolso,
talvez nem levasse dinheiro.
(Procurem Amarildo.)
Não costumava demorar.
(Procurem Amarildo.)
Só pensava na família.
(Procurem. Procurem.)
Faz uma falta dos diabos.

Se, todavia, não o encontrarem
nem por isso deixem de procurar
com obstinação e confiança que Deus sempre recompensa
e talvez encontrem.
A mulher não perde a esperança,
os filhos não perdem a esperança.
Os seus amigos ou conhecidos não sabem notícia nenhuma,
limitando-se a responder: Não sei.
O que não deixa de ser esquisito.

Somem tantas pessoas anualmente
numa cidade como o Rio de janeiro
que talvez Amarildo jamais seja encontrado.
Foi levado pela polícia
para um simples interrogatório,
no dia 14 de julho deste ano,
dia da Revolução Francesa,
mas ele não sabia disso,
ele não sabia quase nada,
ele que nunca fez nada,
ele que fazia tão pouco,
era só um ajudante de pedreiro
e ganhava só uns 300 reais por mês
insuficientes para alimentar a mulher e os seis filhos.
Afirma a polícia que foi solto,
de pronto,
mas nunca chegou em casa
e Elisabete e os seis filhos choram a orfandade
– o pai com destino incerto e não sabido.

Onde está Amarildo?
clama a nação, mas não tem resposta não.
A vida é cheia de enigmas,
Amarildo é apenas mais um.
Apenas, mas quantas penas.

Pela última vez e em nome de Deus
todo-poderoso e cheio de misericórdia
procurem Amarildo, procurem
esse homem jovem e pobre de nome tão original
e de pobreza sem nenhuma originalidade.
Esqueçam a luta política, o mensalão e os mensalinhos,
ponham de lado preocupações comerciais,
percam um pouco de tempo indagando,
inquirindo, remexendo.
Não se arrependerão. Não
há gratificação maior do que o sorriso de Elisabete,
a mãe em festa com os seis filhos nas costas,
e a paz intima
consequente às boas e desinteressadas ações,
puro orvalho da alma.

Não me venham dizer que Amarildo suicidou-se,
fugiu com outra mulher,
foi morto pelos bandidos do tráfico,
caiu no esgoto do Pocinho onde mora
(ou morava, que agora Amarildo é pura hipótese).

Ele não se matou.
Procurem-no.
Tampouco foi vítima de desastre
que a polícia ignora
e os jornais não deram.
Está vivo para consolo de uma esposa infeliz
e triunfo geral do amor dos filhos
e dos irmãos infelizes. (Somos todos irmãos na dor.)

A qualquer hora do dia ou da noite
quem o encontrar avise no Pocinho da Rocinha.
Talvez Elisabete nem esteja mais lá,
expulsa pelo medo e pela miséria.
Mas o recado se espalhará como fogo na palha seca
e alguém tomará providências.

Mas
se acharem que a sorte dos povos é mais importante
e que não devemos atentar nas dores individuais,
se fecharem ouvidos a este apelo de campainha,
não faz mal, insultem a mulher de Amarildo,
virem a página:
Deus terá compaixão da abandonada e do ausente.
Deus dirá a Elisabete:
Vai,
abraça o teu marido, beija-o e fecha-o para sempre em teu coração.

Ou talvez não seja preciso esse favor divino.
A mulher de Amarildo (somos pecadores)
sabe-se indigna de tamanha graça.
E resta a espera, que sempre é um dom.
Sim, os extraviados um dia regressam
— ou nunca, ou pode ser, ou ontem.
E de pensar realizamos.
Quer apenas seu homem
com quem se casou numa tarde remota
e para quem agora só oferece uma lágrima já seca.
Já não interessa a descrição do corpo,
nenhuma fotografia é suficiente,
disfarces de realidade mais intensa
e que anúncio algum proverá.
Cessem pesquisas, rádios, calai-vos·
Calma de flores abrindo
no canteiro azul
onde desabrocha a vida infeliz de Amarildo
intata nos tempos.
E de sentir compreendemos.
Já não adianta procurar
o seu homem Amarildo
que a vida, a política, a polícia, o tráfico ou Deus
inapelavelmente levaram.



José Carlos Brandão


De Metamorfoses de Ofídio – paráfrases e paródias extemporâneas

Paráfrase de “Desaparecimento de Luísa Porto”, de Drummond editado pela 1ª vez em “Poesia até agora”, de 1948.