segunda-feira, 24 de setembro de 2012

MEU PAI POETA

                                                                           Meu pai (à direita) e um primo





MEU PAI POETA


Hoje (depois de vinte e tantos anos)
descobri que meu pai dizia um poema

quando repetia, sim, repetia e a graça estava
nessa repetição infindável... A graça ou a poesia?

Imagine os dois personagens e o diálogo repetido,
repetido na voz do meu pai ou deles mesmos:

– Vais pescar?
– Não, vou pescar.
– Ah, pensava que ias pescar.


 


   
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             Ah, veja a elegância - o terno, as botinas, o chapéu (a bengala, parte da indumentária, não aparece porque estavam sentados, fazendo pose para a foto). Isso foi em 1922. Meu pai tinha 16 anos de idade.




domingo, 23 de setembro de 2012

EPIGRAMA Nº 1






          EPIGRAMA Nº 1


Uma égua me amou – quem era? Chamava-se Argentina.
Uma vaca me alimentou. Chamava-se Moela.
Um bezerro cresceu comigo. Chamava-se Bito.
Todos nascemos para o esquecimento.




 

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

O DEGOLADO

O DEGOLADO
(lendo Camus)

O homem nem sentiu quando o barbeiro

enlouqueceu e lhe cortou o pescoço
de um lado ao outro com a navalha.

Quando percebeu, estava no meio da rua

com a cabeça cada vez mais para trás,
e o sangue jorrando aos borbotões, ao sol.


 
 

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

AMÉM






AMÉM


Ó Deus, quando me criaste um vulcão explodiu.
Os lagos se fizeram lavas e voaram como cisnes rubros.
Eu me julguei um cavalo voando além da terra e do céu.
Eu pensei que sabia todas as respostas.

Pensei que podia inundar o deserto com minhas ondas.
O meu mar de soberba era insaciável
Continua insaciável o meu abismo de soberba e molície.
A tua Mãe me pisou a cabeça, eu era a serpente.

A tua e minha Mãe me carregou no colo, eu era a criança desprotegida.
Eu era um verme do pó, indigno do perdão, indigno do Pão da tua carne.
O teu Verbo me salva contra qualquer expectativa.
O teu Verbo se ergue contra a minha insignificância e a luz é feita.

A tua Luz, ó meu Senhor, o teu Espírito desce contra as trevas da minha alma.
A tua língua de fogo se eleva e a minha alma será salva.
Ó Deus, amém.

Espero a condenação com a certeza dos pérfidos.
Espero a condenação: o meu prêmio, o labéu da minha infâmia.  
Se queres salvar-me, amém. Ó Deus, amém.