quinta-feira, 20 de setembro de 2012

AMÉM






AMÉM


Ó Deus, quando me criaste um vulcão explodiu.
Os lagos se fizeram lavas e voaram como cisnes rubros.
Eu me julguei um cavalo voando além da terra e do céu.
Eu pensei que sabia todas as respostas.

Pensei que podia inundar o deserto com minhas ondas.
O meu mar de soberba era insaciável
Continua insaciável o meu abismo de soberba e molície.
A tua Mãe me pisou a cabeça, eu era a serpente.

A tua e minha Mãe me carregou no colo, eu era a criança desprotegida.
Eu era um verme do pó, indigno do perdão, indigno do Pão da tua carne.
O teu Verbo me salva contra qualquer expectativa.
O teu Verbo se ergue contra a minha insignificância e a luz é feita.

A tua Luz, ó meu Senhor, o teu Espírito desce contra as trevas da minha alma.
A tua língua de fogo se eleva e a minha alma será salva.
Ó Deus, amém.

Espero a condenação com a certeza dos pérfidos.
Espero a condenação: o meu prêmio, o labéu da minha infâmia.  
Se queres salvar-me, amém. Ó Deus, amém.





segunda-feira, 10 de setembro de 2012

LÁPIDE





LÁPIDE


Não sei o que escrever sobre a lápide do meu túmulo –

que a tristeza era enorme,
que a vida não vale a pena ser vivida,
que a morte é só uma face da solidão.

Eu me vejo na minha lápide como num espelho.





sábado, 8 de setembro de 2012

REFLEXÃO 1965





REFLEXÃO 1965


Existimos e não existimos
o bem e o mal são uma e a mesma coisa
amor e ódio dão-se as mãos
paz e guerra no homem coexistem
e tudo flui incessante
o tempo badala
plúmbeas plumas
oscilação perpétua
para cima para baixo
o homem é Deus e é o Nada
moto perpétuo
o mundo devir
para o caos caminha.



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MEMÓRIA.

Eu já tive 18 anos de idade e fui aprendiz de poesia (ainda sou). E o meu mestre era Murilo Mendes. Para fazer esse poema (é preciso confessar?) eu me inspirei na Reflexão nº 1 de Murilo. Como é feio falar em inspiração, vai com todas as letras (embora fique mais feio): chupei esse poema de Murilo. Para azar, do poema que tem uma das passagens mais fortes dele: 
             "Ainda não estamos acostumados com o mundo
              Nascer é muito comprido."



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sexta-feira, 7 de setembro de 2012

COMEMORANDO 100 MIL VISITAS




Poesia


No termo
dum ermo
raso,

e como
num vaso,

ao acaso

um gomo
do ocaso

do monte
defronte

a fronte
pendeu,

com tristeza,
sem firmeza,

e desa-
              pareceu.


1964


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O meu agradecimento a todos que passaram por aqui - mais de 100 mil vezes. Soprem as velinhas comigo. Eu brindo a data oferecendo-lhes o meu mais antigo poema que tenho guardado (salvo engano, bem possível). Foram 813 postagens, desde agosto de 2007. Salve!

 


quinta-feira, 6 de setembro de 2012

AUSCHWITZ




AUSCHWITZ


A fumaça se erguia das chaminés.
Tinha a forma de um homem, de uma mulher
dissolvendo-se no ar.
Escrevia no céu, entre as nuvens, a poesia
das cinzas.