quarta-feira, 25 de setembro de 2013

MARINHA





MARINHA


Eu amo o mar com uma convulsão desesperada
as pombas fremem sobre os pinheiros ao vento
das pedras da montanha erguem-se tentáculos gigantescos
é a hora do meio-dia e o sol fustiga o mar

A paz das gaivotas desce sobre os rochedos brancos de espumas
o diamante purifica a palavra do vinagre e do sal
eu trabalho na altura suspenso sobre o abismo fatal
o sol rodopia como um caracol com um anzol na língua

Qual é a causa do dia e da noite com a sua volúpia azul?
as estrelas despencam do céu com gritos inaudíveis
eu olho o mar soberbo sob o céu coberto de presságios
o olhar cintila sobre as ondas como um navio incendiado

Impossível tamanha calma e espera queimando-se em silêncio
as estrelas espiralam-se angustiadas vezes sem conta
cintila a água cintila a terra cintila a dor com fúria infinita
o ventre se dissolve aberto à fome dos abutres deserdados

O sol canta e dança saboreando o naufrágio
os passos de sombra do sol ao compasso das ondas
as ondas vão e vêm como uma serpente devorando a si mesma
eu sou uma serpente de chumbo devorando a mim mesmo





sábado, 14 de setembro de 2013

AS RISADAS DAS CRIANÇAS






AS RISADAS DAS CRIANÇAS


As risadas das crianças
onde estão as crianças que riem e gargalham
na tempestade?
As ruas da cidade estão nuas e frias
onde estão as crianças que riem e gargalham
na noite fria?

As crianças riem tanto é um desespero
a risada das crianças ao sol e ao luar
mas onde estão as crianças que riem
e gargalham sem motivo nenhum?

É preciso calar a boca das crianças
é urgentemente preciso calar a boca das crianças
este é um mundo sério
este é um mundo de sofrimento
de angústias e desespero infinito

As crianças são uma praga neste mundo vil
é preciso calar a boca das crianças
Como suportar a dor do mundo com tanta felicidade
das crianças?
A dor existe para que os poetas possam cantar
disse Homero
mas as crianças querem acabar com a poesia

É preciso urgentemente acabar com as crianças
essa praga de contos de fadas.
Na marcha do mundo capitalista
disse Drummond
é preciso urgentemente dinamitar a ilha de Manhattan
das crianças.






quarta-feira, 4 de setembro de 2013

A GARÇA (haicais)




o rio flui
quase leva a paisagem
de verde e sombra

a garça à espreita
que o peixe do tempo passe
e ela nem veja

a garça e a garça
uma no barranco
outra pura imagem

a garça esbelta
bebe a sua imagem
refletida na água

a garça espera
na beira do barranco
que as águas passem






 



sábado, 24 de agosto de 2013

O SENTIDO DA VIDA (haicais)






o sentido da vida
não sei para onde vou
nem quem sou

não me esqueci de nada
não tenho lembranças
como um morto

poeira no relógio
sou feliz com o que tenho
mas envelheço

o tempo é triste
o sol a chuva caem
o vento insiste

não te contaram
que havia uma guerra
lá fora?

muitas vezes lá fora
no desabar das horas
é aqui dentro