sábado, 8 de setembro de 2012

REFLEXÃO 1965





REFLEXÃO 1965


Existimos e não existimos
o bem e o mal são uma e a mesma coisa
amor e ódio dão-se as mãos
paz e guerra no homem coexistem
e tudo flui incessante
o tempo badala
plúmbeas plumas
oscilação perpétua
para cima para baixo
o homem é Deus e é o Nada
moto perpétuo
o mundo devir
para o caos caminha.



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MEMÓRIA.

Eu já tive 18 anos de idade e fui aprendiz de poesia (ainda sou). E o meu mestre era Murilo Mendes. Para fazer esse poema (é preciso confessar?) eu me inspirei na Reflexão nº 1 de Murilo. Como é feio falar em inspiração, vai com todas as letras (embora fique mais feio): chupei esse poema de Murilo. Para azar, do poema que tem uma das passagens mais fortes dele: 
             "Ainda não estamos acostumados com o mundo
              Nascer é muito comprido."



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sexta-feira, 7 de setembro de 2012

COMEMORANDO 100 MIL VISITAS




Poesia


No termo
dum ermo
raso,

e como
num vaso,

ao acaso

um gomo
do ocaso

do monte
defronte

a fronte
pendeu,

com tristeza,
sem firmeza,

e desa-
              pareceu.


1964


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O meu agradecimento a todos que passaram por aqui - mais de 100 mil vezes. Soprem as velinhas comigo. Eu brindo a data oferecendo-lhes o meu mais antigo poema que tenho guardado (salvo engano, bem possível). Foram 813 postagens, desde agosto de 2007. Salve!

 


quinta-feira, 6 de setembro de 2012

AUSCHWITZ




AUSCHWITZ


A fumaça se erguia das chaminés.
Tinha a forma de um homem, de uma mulher
dissolvendo-se no ar.
Escrevia no céu, entre as nuvens, a poesia
das cinzas.





terça-feira, 4 de setembro de 2012

CANÇÃOZINHA DA LUA





CANÇÃOZINHA DA LUA


Me perdi na noite,
mas a lua é minha.

Perdi minha estrela,
mas a lua é minha.

Quanta solidão,
mas a lua é minha.

Sofro a foice da dor,
mas a lua é minha.

Que noite tão noite,
mas a lua é minha.

A flor se apagou,
mas a lua é minha.




sábado, 1 de setembro de 2012

MEMÓRIA, ONDE ANDAS? POR ONDE ANDASTE?

Onde eu estava há meio século?
Há exatamente 50 anos eu estava neste lugar maravilhoso:

http://www.youtube.com/watch?v=XHthkSDQkeQ&feature=youtube_gdata_player

A igreja era enorme ("Era monstruosa", de tão grande, escrevi em algum lugar), o seminário era enorme... Tudo muito velho, antigo, antiquíssimo. Eu imaginava que era coisa lá do tempo da guerra - e era, começou a ser construído em 1943... Mas quando cheguei lá uma das alas ainda estava em construção, quase construída. Hoje parece tudo novo. Até a natureza parece nova. Parece, só parece. A natureza não tem idade. Era belíssima, deslumbrante. E o seu lado primitivo mais deslumbrava - as casas de madeira, construídas sobre estacas para fugir das enchentes anuais, as estradas de pedra e terra vermelha (de barro, na linguagem do lugar), as pessoas primitivas, como se pertencessem a um outro século (o XIX, talvez o XVIII), nas vestes, nos costumes, na linguagem - muitos nem falavam o português. Tive muitos colegas que foram aprender português quando entraram no seminário. Alguns falavam italiano (de Trento), outros alemão, outros ainda polonês. Era um outro mundo.

Foi em 1962 e 1963. Eu tinha 15 e 16 anos de idade. Que pena que a nossa memória seja tão pobre! Muito do que eu sou hoje começou a ser formado lá, naquele lugar fantástico. Até a minha vontade de ser poeta nasceu lá, quando eu li, entre tantos livros velhos da biblioteca do seminário, o livro Os Simples, de Guerra Junqueiro, e vi que gente simples, lugares simples, que as coisas que eu vivi e que eu conhecia podiam ser matéria de poesia. Já me disseram que isso não importa, eu seria poeta de qualquer maneira. Pode ser, mas foi assim que aconteceu. Foi entre aquelas paredes enormes que escrevi o meu primeiro poema, que era justamente sobre a figueira que havia em frente à casa da minha infância - havia e há, ainda está lá, mutilada por um raio, mas ainda grande e vigorosa.

Mas agora o assunto é Rio do Oeste, que eu conheci como uma cidadezinha de uma única rua de terra, à beira do rio Itajaí. A igreja lá em cima do morro, dominando tudo, como um castelo, talvez, como uma fortificação, ou como o santuário belíssimo que era, embora não branquinho como agora, brilhando, como se acabasse de ter sido construído. Atrás ficava o seminário, também grande, também pesado, mais pesado, escuro, medonho... A minha lembrança era de uma construção medonha, quase eu me esquecia da beleza estranha, absorvente, estranhamente pura, que o envolvia.

Veja: quando eu cheguei lá a cidade tinha apenas três anos de vida. Rio do Oeste foi elevada à categoria de cidade em 1959. Mas o seminário, como eu já disse, começou a ser construído em 1943. Tempos difíceis. Tempo da guerra, eu pensava, sem saber que tinha razão. Lugar de gente muito pobre, que mal tinha o suficiente para se manter. Gente de coração grande, que dava até o que não tinha.

Eu o convido a viajar comigo. No tempo e no espaço. Na memória - que guarda tão pouco do que os olhos viram, do que o corpo e a alma viveu. Trago um pouco, ainda que muito pouco, desse lugar comigo. Viva a vida!

José Carlos Mendes Brandão