sábado, 1 de setembro de 2012

MEMÓRIA, ONDE ANDAS? POR ONDE ANDASTE?

Onde eu estava há meio século?
Há exatamente 50 anos eu estava neste lugar maravilhoso:

http://www.youtube.com/watch?v=XHthkSDQkeQ&feature=youtube_gdata_player

A igreja era enorme ("Era monstruosa", de tão grande, escrevi em algum lugar), o seminário era enorme... Tudo muito velho, antigo, antiquíssimo. Eu imaginava que era coisa lá do tempo da guerra - e era, começou a ser construído em 1943... Mas quando cheguei lá uma das alas ainda estava em construção, quase construída. Hoje parece tudo novo. Até a natureza parece nova. Parece, só parece. A natureza não tem idade. Era belíssima, deslumbrante. E o seu lado primitivo mais deslumbrava - as casas de madeira, construídas sobre estacas para fugir das enchentes anuais, as estradas de pedra e terra vermelha (de barro, na linguagem do lugar), as pessoas primitivas, como se pertencessem a um outro século (o XIX, talvez o XVIII), nas vestes, nos costumes, na linguagem - muitos nem falavam o português. Tive muitos colegas que foram aprender português quando entraram no seminário. Alguns falavam italiano (de Trento), outros alemão, outros ainda polonês. Era um outro mundo.

Foi em 1962 e 1963. Eu tinha 15 e 16 anos de idade. Que pena que a nossa memória seja tão pobre! Muito do que eu sou hoje começou a ser formado lá, naquele lugar fantástico. Até a minha vontade de ser poeta nasceu lá, quando eu li, entre tantos livros velhos da biblioteca do seminário, o livro Os Simples, de Guerra Junqueiro, e vi que gente simples, lugares simples, que as coisas que eu vivi e que eu conhecia podiam ser matéria de poesia. Já me disseram que isso não importa, eu seria poeta de qualquer maneira. Pode ser, mas foi assim que aconteceu. Foi entre aquelas paredes enormes que escrevi o meu primeiro poema, que era justamente sobre a figueira que havia em frente à casa da minha infância - havia e há, ainda está lá, mutilada por um raio, mas ainda grande e vigorosa.

Mas agora o assunto é Rio do Oeste, que eu conheci como uma cidadezinha de uma única rua de terra, à beira do rio Itajaí. A igreja lá em cima do morro, dominando tudo, como um castelo, talvez, como uma fortificação, ou como o santuário belíssimo que era, embora não branquinho como agora, brilhando, como se acabasse de ter sido construído. Atrás ficava o seminário, também grande, também pesado, mais pesado, escuro, medonho... A minha lembrança era de uma construção medonha, quase eu me esquecia da beleza estranha, absorvente, estranhamente pura, que o envolvia.

Veja: quando eu cheguei lá a cidade tinha apenas três anos de vida. Rio do Oeste foi elevada à categoria de cidade em 1959. Mas o seminário, como eu já disse, começou a ser construído em 1943. Tempos difíceis. Tempo da guerra, eu pensava, sem saber que tinha razão. Lugar de gente muito pobre, que mal tinha o suficiente para se manter. Gente de coração grande, que dava até o que não tinha.

Eu o convido a viajar comigo. No tempo e no espaço. Na memória - que guarda tão pouco do que os olhos viram, do que o corpo e a alma viveu. Trago um pouco, ainda que muito pouco, desse lugar comigo. Viva a vida!

José Carlos Mendes Brandão



quarta-feira, 29 de agosto de 2012

MATÉRIA DE POESIA





MATÉRIA DE POESIA


o mar
a flor selvagem

o prego enferrujado
o não

a minhoca
o osso seco

o papel higiênico
a palavra





sábado, 25 de agosto de 2012

A MORTE DE ZÉ PRETO






A MORTE DE ZÉ PRETO


Quando Zé Preto morreu
como a criançada sofreu!
O Zé Preto contava vantagem,
 era o herói da criançada.
Matava onça com a faca de picar fumo,
caçoava da polícia, se borrava de rir da polícia.

Um dia Zé Preto morreu.
Foi para o céu, disseram as crianças.
Não era um homem de muitas qualidades,
era um homem mau segundo a sociedade,
mas foi para o céu porque essa era a vontade das crianças
e a vontade das crianças é a vontade de Deus.





quinta-feira, 23 de agosto de 2012

HOMENAGEM A NELSON RODRIGUES NO DIA DO SEU CENTENÁRIO





A VIDA COMO ELA É


Um beijo no asfalto chocou o mundo.
Fosse uma flor rompendo o asfalto e o tédio,
mas não o escândalo de um beijo.
A falecida está viva,
o vestido de noiva está rasgado.
a sociedade está morta e rasgada.
Todos os álbuns de família estão rasgados.
Tudo por causa de uma flor de obsessão.






quarta-feira, 22 de agosto de 2012

O ESPELHO DE BRONZE





O ESPELHO DE BRONZE


A luz entrou no quarto
surpreendeu a flor
e o sangue.

Busco a catarse
mas sou inteiramente
carne.

O abismo dos peixes
é muito diferente do abismo
dos náufragos.

No espelho de bronze
a imagem imperfeita
simulacro de ninguém.





domingo, 19 de agosto de 2012

O SOL NEGRO





O SOL NEGRO


O sol negro derrete o asfalto da avenida.
A mendiga remexe o lixo à procura de comida,
os seus olhos estão secos, a língua está seca, as mãos estão secas.
Sou uma sombra entre os blocos de cimento.
Bebi nos bares, nas delegacias, nos hospitais, nas ruas barulhentas
o silêncio de Deus.




quarta-feira, 15 de agosto de 2012

OS TUCANOS E A VOZ DA EXPERIÊNCIA





A VOZ DA EXPERIÊNCIA



            Num restaurante à beira da estrada, em Caconde, SP, a garçonete me explica:
            – Aqui tem muito tucano, sim senhor. E eles são muito bonitos. Mas, fora isso, não têm serventia nenhuma. Tucano só come os filhotes dos outros pássaros. Tem bico grande e faz muito barulho. Destrói tudo que vê. Tucano não presta pra nada, não senhor.




sábado, 11 de agosto de 2012

terça-feira, 7 de agosto de 2012

domingo, 5 de agosto de 2012

sábado, 4 de agosto de 2012

FURO! ENTREVISTA COM RUBEM FONSECA

                      Rubem Fonseca recebendo o prêmio Correntes d"Escritas 2012 Póvoa de Varzim - Portugal



FURO! ENTREVISTA COM RUBEM FONSECA


“Para cada Central Nuclear é preciso uma porção de poetas e artistas, do contrário estamos fudidos antes mesmo da bomba explodir.”
São palavras de Rubem Fonseca em “Intestino Grosso”, a entrevista com que ele nos brinda sob a persona de um escritor pernóstico, exagerado à caricatura.
“Intestino Grosso” é o último conto do livro “Feliz Ano Novo”. Rubem Fonseca já não dava entrevista, resolveu dar em forma de um conto, mas um censor conseguiu a proeza de ler até o fim, onde estava a condenação: “Ao atribuir à arte a função moralizante, ou, no mínimo, entretenedora, essa gente acaba justificando o poder coativo da censura sob alegações de segurança ou bem-estar público.”
Condenou a censura, que obviamente o condenou.
Eu comprei o meu exemplar de “Feliz Ano Novo” em Dois Córregos, SP, onde eu era professor, em 1975, mal chegou à banca. No dia seguinte estava recolhido pelos guardiões dos Bons Costumes e Boas Maneiras à mesa e à cama.
Essa frase, que fala da função moralizante da arte, não lhes parece feita sob medida para os nossos tempos politicamente corretos?
Um dos modelos criticados pelo escritor pernóstico do conto (que honra ser pernóstico!) é a literatura infantil. Hoje está mais que feita a psicanálise dos contos de fadas, revelando toda a perversidade subentendida sob os bons modos, boas palavras e bons sentimentos.
Era a época do boom da literatura latino-americana. Pois o nosso escritor não só nega a existência dessa literatura como da própria literatura brasileira. Guimarães Rosa estava no auge, era endeusado. Pois o cara era tão pernóstico, só vendo a miséria à porta, que não podia achar que fazia sentido uma literatura brasileira ou latino-americana. Se o brasileiro é tão pornográfico que nem dentes tem na boca, como teria sentido a existência de Diadorim?
(“Desdentados” é a imagem que a persona pernóstica de Rubem Fonseca usa para falar da miséria que se tenta embelezar pintando de cor de rosa as palavras, que são chamadas de palavrões quando se referem a sexo ou a excreções, coisas que todos nós fazemos.)

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Quem, com razão, não ficou safisfeito com a minha crônica (afinal, diz pouco sobre uma possível entrevista de Rubem Fonseca) pode ver e ouvir o show do autor em Póvoa do Varzim, Portugal:




sexta-feira, 3 de agosto de 2012