quarta-feira, 24 de julho de 2013

A BORBOLETA VERDE (e outros poemínimos)









A BORBOLETA VERDE

A borboleta verde
entre as pedras, o mato verde
e o arame farpado.


A NÉVOA

A névoa cobre o vale
e a tua imagem perdida
no lago.


O MENINO

O menino foge
dos marimbondos no mato
e do touro no pasto.


VERDE

Eu tenho nos olhos
o orvalho verde da infância
­– a terra me espera.


CORUJA

Na minha janela
uma coruja dormindo
me faz companhia.


ANDORINHA

A andorinha pia
sob a sombra do crepúsculo
suave, sobre o lago.






segunda-feira, 22 de julho de 2013

O PICA-PAU e outros poemínimos







O PICA-PAU

O pica-pau no poste
telegrafa a sua mensagem
para o universo.


A VACA

A vaca espanta as moscas
com o rabo, com as patas
sob o perfume do estrume.


O OVO

O ovo fechado
como uma pedra
– e a vida dentro.


A LAGARTA

A lagarta sonha
as cores da borboleta
(e devora o tempo).


A MENINA

A menina chora
a boneca quebrada
– sonha a nuvem, a névoa.





sexta-feira, 19 de julho de 2013

Poesia mínima




POESIA MÍNIMA

Quero a poesia mínima
das ranhuras sem forma nenhuma
de uma pedra.


A LAGARTA

A lagarta preta e vermelha
tão humana
devora a folha verde da roseira.


O MENINO

O menino sorri em silêncio
com o cachorrinho morto
no colo.


A NÉVOA

A névoa fria
cobre os teus olhos
na montanha.


O GATO

A menina corre
atrás do gato, na chuva,
como se dançasse.


INFÂNCIA

Eu tinha a terra vermelha
nos pés e nas mãos
e na alma.


PINTASSILGO

Na minha janela
canta o mesmo pintassilgo
há cinquenta anos.


A ANDORINHA

A andorinha no fio
encolhida de tristeza
quando o sol se põe.


NO BOSQUE

Na trilha do bosque
uma borboleta azul
me acompanha.


O PERFUME

As pétalas caem
no caminho da montanha.
Fica o perfume no ar.


O ESQUELETO

Na casa em ruínas
um esqueleto gargalha
abraçado a uma pedra.


O CUCO
O cuco no escuro
canta com desespero
o tempo que cai.


A TATURANA

O menino grita
com o braço queimado
pela taturana.


SONHO
Pousada na parede
a borboleta mexe as asas
como se sonhasse.


O VAGA-LUME
O menino abre a mão,
o vaga-lume salta
com sua luz azul.


A PAINEIRA

Eu quero essa lua
e a minha infância sangrando
nos espinhos da paineira.


Foto: Sônia Brandão






sábado, 13 de julho de 2013

POESIA E TRANSCENDÊNCIA

     


       Acho que dois ou três pontos desta entrevista ao site Curta Bauru merecem ser considerados:


             
                 http://curtabauru.com.br/2013/07/09/jose-brandao/









segunda-feira, 8 de julho de 2013

PÊNDULO






 PÊNDULO


o pêndulo vai
o pêndulo vem

as horas vêm
as horas vão

vêm e vão
vão e vêm

não em vão?
as horas não

o pêndulo vem
o pêndulo vai

o pêndulo insiste
o pêndulo triste

quando se vê
o dia acabou

quando se vê
a vida acabou

as horas vão
as horas não





domingo, 30 de junho de 2013

ARS POETICA - Archibald Macleish



ARS POETICA 


Um poema devia ser palpável e mudo
Como um fruto polpudo

Surdo
Como velhos medalhões de chumbo

Silencioso como a pedra gasta pelo uso
No peitoril das janelas onde cresce o musgo –

Um poema devia ser sem palavras
Como o voo das aves

Um poema devia restar imóvel no tempo
Enquanto a lua ascende

Deixando, enquanto a lua liberta
ramo a ramo o arvoredo noturno-emaranhado

Deixando, como a lua detrás das folhas invernais,
Lembrança por lembrança, a mente –

Um poema devia ser imóvel no tempo
Enquanto a lua ascende

Um poema devia ser igual a:
Não real

Por toda a história da dor
Um portal vazio e uma simples flor

Para o amor
A relva inclinada e duas luzes sobre o mar

Um poema não devia significar
Mas ser
 

Archibald Macleish
(1926)
 
(Tradução: Luiz Roberto Guedes)


 


segunda-feira, 24 de junho de 2013

O VERBO LIVRE






O VERBO LIVRE


“Um poema deveria ser sem palavras
como o vôo dos pássaros.” (Ars Poetica –
Archibald MacLeish)



a imagem sempre
da paisagem verde

a paisagem simples
da imagem livre

livre como o pássaro
simples como o lápis

que escreve
diáfano

o verbo vivo
como o fazer-se

do vôo do pássaro
verbo antes

não depois
de vôo ou pássaro

além de o
antes

não depois
de ser o

esteve está
na palavra

azul amarela
do silêncio

quando o


“Um poema não deveria significar
mas ser.”  (Ars Poetica – Archibald MacLeish)









segunda-feira, 27 de maio de 2013

A MORTE É UMA IDEIA




A morte é uma idéia


A morte é uma idéia
leve, que de outrem, nunca
a nossa, concebemos.

No sonho de ser, dúbios,
tateamos o espelho
à procura da nossa

imagem, ilusória.
Serenos, uma ordem
previmos que, exercida,

luz no abismo, na mágica
dos dias, e nenhuma
serpente nos ofusca.

A rosa existe e basta.
O tempo, labirinto
de sonos, subjugamos.