quinta-feira, 23 de agosto de 2012

HOMENAGEM A NELSON RODRIGUES NO DIA DO SEU CENTENÁRIO





A VIDA COMO ELA É


Um beijo no asfalto chocou o mundo.
Fosse uma flor rompendo o asfalto e o tédio,
mas não o escândalo de um beijo.
A falecida está viva,
o vestido de noiva está rasgado.
a sociedade está morta e rasgada.
Todos os álbuns de família estão rasgados.
Tudo por causa de uma flor de obsessão.






quarta-feira, 22 de agosto de 2012

O ESPELHO DE BRONZE





O ESPELHO DE BRONZE


A luz entrou no quarto
surpreendeu a flor
e o sangue.

Busco a catarse
mas sou inteiramente
carne.

O abismo dos peixes
é muito diferente do abismo
dos náufragos.

No espelho de bronze
a imagem imperfeita
simulacro de ninguém.





domingo, 19 de agosto de 2012

O SOL NEGRO





O SOL NEGRO


O sol negro derrete o asfalto da avenida.
A mendiga remexe o lixo à procura de comida,
os seus olhos estão secos, a língua está seca, as mãos estão secas.
Sou uma sombra entre os blocos de cimento.
Bebi nos bares, nas delegacias, nos hospitais, nas ruas barulhentas
o silêncio de Deus.




quarta-feira, 15 de agosto de 2012

OS TUCANOS E A VOZ DA EXPERIÊNCIA





A VOZ DA EXPERIÊNCIA



            Num restaurante à beira da estrada, em Caconde, SP, a garçonete me explica:
            – Aqui tem muito tucano, sim senhor. E eles são muito bonitos. Mas, fora isso, não têm serventia nenhuma. Tucano só come os filhotes dos outros pássaros. Tem bico grande e faz muito barulho. Destrói tudo que vê. Tucano não presta pra nada, não senhor.




sábado, 11 de agosto de 2012

terça-feira, 7 de agosto de 2012

domingo, 5 de agosto de 2012

sábado, 4 de agosto de 2012

FURO! ENTREVISTA COM RUBEM FONSECA

                      Rubem Fonseca recebendo o prêmio Correntes d"Escritas 2012 Póvoa de Varzim - Portugal



FURO! ENTREVISTA COM RUBEM FONSECA


“Para cada Central Nuclear é preciso uma porção de poetas e artistas, do contrário estamos fudidos antes mesmo da bomba explodir.”
São palavras de Rubem Fonseca em “Intestino Grosso”, a entrevista com que ele nos brinda sob a persona de um escritor pernóstico, exagerado à caricatura.
“Intestino Grosso” é o último conto do livro “Feliz Ano Novo”. Rubem Fonseca já não dava entrevista, resolveu dar em forma de um conto, mas um censor conseguiu a proeza de ler até o fim, onde estava a condenação: “Ao atribuir à arte a função moralizante, ou, no mínimo, entretenedora, essa gente acaba justificando o poder coativo da censura sob alegações de segurança ou bem-estar público.”
Condenou a censura, que obviamente o condenou.
Eu comprei o meu exemplar de “Feliz Ano Novo” em Dois Córregos, SP, onde eu era professor, em 1975, mal chegou à banca. No dia seguinte estava recolhido pelos guardiões dos Bons Costumes e Boas Maneiras à mesa e à cama.
Essa frase, que fala da função moralizante da arte, não lhes parece feita sob medida para os nossos tempos politicamente corretos?
Um dos modelos criticados pelo escritor pernóstico do conto (que honra ser pernóstico!) é a literatura infantil. Hoje está mais que feita a psicanálise dos contos de fadas, revelando toda a perversidade subentendida sob os bons modos, boas palavras e bons sentimentos.
Era a época do boom da literatura latino-americana. Pois o nosso escritor não só nega a existência dessa literatura como da própria literatura brasileira. Guimarães Rosa estava no auge, era endeusado. Pois o cara era tão pernóstico, só vendo a miséria à porta, que não podia achar que fazia sentido uma literatura brasileira ou latino-americana. Se o brasileiro é tão pornográfico que nem dentes tem na boca, como teria sentido a existência de Diadorim?
(“Desdentados” é a imagem que a persona pernóstica de Rubem Fonseca usa para falar da miséria que se tenta embelezar pintando de cor de rosa as palavras, que são chamadas de palavrões quando se referem a sexo ou a excreções, coisas que todos nós fazemos.)

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Quem, com razão, não ficou safisfeito com a minha crônica (afinal, diz pouco sobre uma possível entrevista de Rubem Fonseca) pode ver e ouvir o show do autor em Póvoa do Varzim, Portugal:




sexta-feira, 3 de agosto de 2012

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

GÊNESE





GÊNESE

A água brota da pedra,
do peixe brota o homem
e a sua cidade.


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A Bauru no seu 116º aniversário.



 

terça-feira, 31 de julho de 2012

O ARADO E A ESTRELA





                                    O ARADO E A ESTRELA


Não atrelo o arado e sigo a minha estrela,
como queria Emerson.
A estrela segue o meu arado.




sábado, 28 de julho de 2012

A FERRUGEM E O OURO






A FERRUGEM E O OURO


A ferrugem nas chaves, nas fechaduras
e no gonzo das portas.
Refulge em silêncio o ouro das palavras.




quinta-feira, 26 de julho de 2012

quarta-feira, 25 de julho de 2012

ÊXTASE

                                                                                                                Ouro Preto, 2007




Êxtase


Quando voltou, a mulher
estava transformada em pedra.

E sorria, não com os lábios
nem com os olhos, mas com a alma

que se elevava do seu corpo
de pedra.

Um sino de ouro tocava. 





terça-feira, 24 de julho de 2012

MAPA - MURILO MENDES




MAPA


Me colaram no tempo, me puseram
uma alma viva e um corpo desconjuntado. Estou
limitado ao norte pelos sentidos, ao sul pelo medo,
a leste pelo Apóstolo São Paulo, a oeste pela minha educação.
Me vejo numa nebulosa, rodando sou um fluído,
depois chego à consciência da terra, ando como os outros,
me pregaram numa cruz, numa única vida.
Colégio. Indignado, me chamam pelo número, detesto a hierarquia.
Me puseram o rótulo de homem, vou rindo, vou andando, aos solavancos.
Danço. Rio e choro, estou aqui, estou ali, desarticulado,
gosto de todos, não gosto de ninguém, batalho com os espíritos do ar,
alguém da terra me faz sinais, não sei mais o que é o bem
nem o mal.
Minha cabeça voou acima da baía, estou suspenso, angustiado, no éter,
tonto de vidas, de cheiros, de movimentos, de pensamento,
não acredito em nenhuma técnica.
Estou com os meus antepassados, me balanço em arenas espanholas,
é por isso que saio às vezes pra rua combatendo personagens imaginários,
depois estou com os meus tios doidos, às gargalhadas,
na fazenda do interior, olhando os girassóis do jardim
Estou no outro lado do mundo, daqui a cem anos, levantando populações...
Me desespero porque não posso estar presente a todos os atos da vida.
Onde esconder minha cara? O mundo samba na minha cabeça.
Triângulos, estrelas, noite, mulheres andando,
presságios brotando no ar, diversos pesos e movimentos me chamam a atenção
o mundo vai mudar a cara,
a morte revelará o sentido verdadeiro das coisas.

Andarei no ar.
Estarei em todos os nascimentos e em todas as agonias,
me aninharei nos recantos do corpo da noiva,
na cabeça dos artistas doentes, dos revolucionários.
Tudo transparecerá:
vulcões de ódio, explosões de amor, outras caras aparecerão na terra,
o vento que vem da eternidade suspenderá os passos
dançarei na luz dos relâmpagos, beijarei sete mulheres
vibrarei nos cangerês do mar, abraçarei as almas no ar
me insinuarei nos quatro cantos do mundo.


Almas desesperadas eu vos amo. Almas insatisfeitas, ardentes.
Detesto os que se tapeiam,
os que brincam de cabra-cega com a vida, os homens "práticos". ..
Viva São Francisco e vários suicidas e amantes suicidas,
os soldados que perderam a batalha, as mães bem mães,
as fêmeas bem fêmeas, os doidos bem doidos.
Vivam os transfigurados, ou porque eram perfeitos ou porque jejuavam muito.
viva eu, que inauguro no mundo o estado de bagunça transcendente.
Sou a presa do homem que fui há vinte anos passados,
dos amores raros que tive,
vida de planos ardentes, desertos vibrando sob os dedos do amor,
tudo é ritmo do cérebro do poeta. Não me inscrevo em nenhuma teoria,
estou no ar,
na alma dos criminosos, dos amantes desesperados,
no meu quarto modesto da praia de Botafogo,
no pensamento dos homens que movem o mundo,
nem triste nem alegre, chama com dois olhos andando,
sempre em transformação.

Murilo Mendes

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Leio este poema como se eu o tivesse escrito. Penso, até, em emendar aqui ou ali. Em lugar de Colégio, escreveria Seminário. Girassóis? Por que não hortênsias? O quarto modesto de Botafogo seria o quarto da pensãozinha de Duartina, onde escrevi os três primeiros poemas do meu primeiro livro, O Emparedado. Viva são Francisco, mas onde estão os poetas suicidas?
Brincadeira à parte, este poema tem muito da minha biografia espiritual, intelectual, artística.  

domingo, 22 de julho de 2012

CAVALGADA


                                  

CAVALGADA

O poema é o meu cavalo.
Por que decifrá-lo?




quinta-feira, 19 de julho de 2012

CAIM




   
          Caim


Carrego o sangue do meu irmão para toda a eternidade.
Eu sou o meu irmão morto com uma pedra na cabeça.
Aprendo o que é morrer, o que é acabar.
A morte é o silêncio de uma pedra.

Os lábios de Abel não dirão mais nenhuma palavra.
É isto a morte: este silêncio, este sangue sobre a terra.
Que farei com Abel?
Que é que se faz com um morto?
Que farei comigo? Eu, que inventei a morte?

Nos olhos do meu irmão vejo o universo refletido.
No corpo morto eu conheço o meu tamanho de homem.
O sangue do meu irmão não clama por vingança:
É um espelho.
É a essência do que sou.
É a marca do homem, seu direito e avesso.
O sangue do meu irmão morto me alimenta.


                                    J. C. M. Brandão, in O silêncio de Deus, 2009.


 

segunda-feira, 16 de julho de 2012

A QUEDA DE ÍCARO





A QUEDA DE ÍCARO


A Queda de Ícaro, de Bruegel, foi tema
de W. H. Auden e Williams Carlos Williams.
Não me sobra
nada
a dizer.
A vida continua.
A Queda de Ícaro não tem importância nenhuma.
Mas eu fico pensando
no que o pastor vê no céu vazio
e nos peixes
que o pescador
pesca
e voltam ao mar.
Se Ícaro não caísse não haveria o mar, os navios,
os peixes, o pescador,
o pastor e o lavrador com o seu arado.
Acabamos olhando, com o pastor, para lugar nenhum.