domingo, 19 de agosto de 2012
quarta-feira, 15 de agosto de 2012
OS TUCANOS E A VOZ DA EXPERIÊNCIA
A VOZ DA
EXPERIÊNCIA
Num restaurante
à beira da estrada, em Caconde, SP, a garçonete me explica:
– Aqui tem
muito tucano, sim senhor. E eles são muito bonitos. Mas, fora isso, não têm
serventia nenhuma. Tucano só come os filhotes dos outros pássaros. Tem bico grande e faz muito barulho. Destrói tudo
que vê. Tucano não presta pra nada, não senhor.
sábado, 11 de agosto de 2012
terça-feira, 7 de agosto de 2012
domingo, 5 de agosto de 2012
sábado, 4 de agosto de 2012
FURO! ENTREVISTA COM RUBEM FONSECA
Rubem Fonseca recebendo o prêmio Correntes d"Escritas 2012 Póvoa de Varzim - Portugal
FURO! ENTREVISTA COM RUBEM FONSECA
“Para cada Central Nuclear é preciso uma porção de poetas e artistas, do
contrário estamos fudidos antes mesmo da bomba explodir.”
São palavras de Rubem Fonseca em “Intestino Grosso”, a entrevista com que
ele nos brinda sob a persona de um escritor pernóstico, exagerado à caricatura.
“Intestino Grosso” é o último conto do livro “Feliz Ano Novo”. Rubem
Fonseca já não dava entrevista, resolveu dar em forma de um conto, mas um
censor conseguiu a proeza de ler até o fim, onde estava a condenação: “Ao
atribuir à arte a função moralizante, ou, no mínimo, entretenedora, essa gente
acaba justificando o poder coativo da censura sob alegações de segurança ou
bem-estar público.”
Condenou a censura, que obviamente o condenou.
Eu comprei o meu exemplar de “Feliz Ano Novo” em Dois Córregos, SP, onde
eu era professor, em 1975, mal chegou à banca. No dia seguinte estava recolhido
pelos guardiões dos Bons Costumes e Boas Maneiras à mesa e à cama.
Essa frase, que fala da função moralizante da arte, não lhes parece feita
sob medida para os nossos tempos politicamente corretos?
Um dos modelos criticados pelo escritor pernóstico do conto (que honra
ser pernóstico!) é a literatura infantil. Hoje está mais que feita a
psicanálise dos contos de fadas, revelando toda a perversidade subentendida sob
os bons modos, boas palavras e bons sentimentos.
Era a época do boom da literatura latino-americana. Pois o nosso escritor
não só nega a existência dessa literatura como da própria literatura
brasileira. Guimarães Rosa estava no auge, era endeusado. Pois o cara era tão
pernóstico, só vendo a miséria à porta, que não podia achar que fazia sentido
uma literatura brasileira ou latino-americana. Se o brasileiro é tão
pornográfico que nem dentes tem na boca, como teria sentido a existência de
Diadorim?
(“Desdentados” é a imagem que a persona pernóstica de Rubem Fonseca usa
para falar da miséria que se tenta embelezar pintando de cor de rosa as palavras,
que são chamadas de palavrões quando se referem a sexo ou a excreções, coisas
que todos nós fazemos.)
_______________________________________________________________
Quem, com razão, não ficou safisfeito com a minha crônica (afinal, diz pouco sobre uma possível entrevista de Rubem Fonseca) pode ver e ouvir o show do autor em Póvoa do Varzim, Portugal:
sexta-feira, 3 de agosto de 2012
quinta-feira, 2 de agosto de 2012
quarta-feira, 1 de agosto de 2012
terça-feira, 31 de julho de 2012
segunda-feira, 30 de julho de 2012
domingo, 29 de julho de 2012
sábado, 28 de julho de 2012
sexta-feira, 27 de julho de 2012
quinta-feira, 26 de julho de 2012
quarta-feira, 25 de julho de 2012
terça-feira, 24 de julho de 2012
MAPA - MURILO MENDES
MAPA
Me colaram no tempo, me puseram
uma alma viva e um corpo desconjuntado. Estou
limitado ao norte pelos sentidos, ao sul pelo medo,
a leste pelo Apóstolo São Paulo, a oeste pela minha educação.
Me vejo numa nebulosa, rodando sou um fluído,
depois chego à consciência da terra, ando como os outros,
me pregaram numa cruz, numa única vida.
Colégio. Indignado, me chamam pelo número, detesto a hierarquia.
Me puseram o rótulo de homem, vou rindo, vou andando, aos solavancos.
Danço. Rio e choro, estou aqui, estou ali, desarticulado,
gosto de todos, não gosto de ninguém, batalho com os espíritos do ar,
alguém da terra me faz sinais, não sei mais o que é o bem
nem o mal.
Minha cabeça voou acima da baía, estou suspenso, angustiado, no éter,
tonto de vidas, de cheiros, de movimentos, de pensamento,
não acredito em nenhuma técnica.
Estou com os meus antepassados, me balanço em arenas espanholas,
é por isso que saio às vezes pra rua combatendo personagens imaginários,
depois estou com os meus tios doidos, às gargalhadas,
na fazenda do interior, olhando os girassóis do jardim
Estou no outro lado do mundo, daqui a cem anos, levantando populações...
Me desespero porque não posso estar presente a todos os atos da vida.
Onde esconder minha cara? O mundo samba na minha cabeça.
Triângulos, estrelas, noite, mulheres andando,
presságios brotando no ar, diversos pesos e movimentos me chamam a atenção
o mundo vai mudar a cara,
a morte revelará o sentido verdadeiro das coisas.
Andarei no ar.
Estarei em todos os nascimentos e em todas as agonias,
me aninharei nos recantos do corpo da noiva,
na cabeça dos artistas doentes, dos revolucionários.
Tudo transparecerá:
vulcões de ódio, explosões de amor, outras caras aparecerão na terra,
o vento que vem da eternidade suspenderá os passos
dançarei na luz dos relâmpagos, beijarei sete mulheres
vibrarei nos cangerês do mar, abraçarei as almas no ar
me insinuarei nos quatro cantos do mundo.
Almas desesperadas eu vos amo. Almas insatisfeitas, ardentes.
Detesto os que se tapeiam,
os que brincam de cabra-cega com a vida, os homens "práticos". ..
Viva São Francisco e vários suicidas e amantes suicidas,
os soldados que perderam a batalha, as mães bem mães,
as fêmeas bem fêmeas, os doidos bem doidos.
Vivam os transfigurados, ou porque eram perfeitos ou porque jejuavam muito.
viva eu, que inauguro no mundo o estado de bagunça transcendente.
Sou a presa do homem que fui há vinte anos passados,
dos amores raros que tive,
vida de planos ardentes, desertos vibrando sob os dedos do amor,
tudo é ritmo do cérebro do poeta. Não me inscrevo em nenhuma teoria,
estou no ar,
na alma dos criminosos, dos amantes desesperados,
no meu quarto modesto da praia de Botafogo,
no pensamento dos homens que movem o mundo,
nem triste nem alegre, chama com dois olhos andando,
sempre em transformação.
Me colaram no tempo, me puseram
uma alma viva e um corpo desconjuntado. Estou
limitado ao norte pelos sentidos, ao sul pelo medo,
a leste pelo Apóstolo São Paulo, a oeste pela minha educação.
Me vejo numa nebulosa, rodando sou um fluído,
depois chego à consciência da terra, ando como os outros,
me pregaram numa cruz, numa única vida.
Colégio. Indignado, me chamam pelo número, detesto a hierarquia.
Me puseram o rótulo de homem, vou rindo, vou andando, aos solavancos.
Danço. Rio e choro, estou aqui, estou ali, desarticulado,
gosto de todos, não gosto de ninguém, batalho com os espíritos do ar,
alguém da terra me faz sinais, não sei mais o que é o bem
nem o mal.
Minha cabeça voou acima da baía, estou suspenso, angustiado, no éter,
tonto de vidas, de cheiros, de movimentos, de pensamento,
não acredito em nenhuma técnica.
Estou com os meus antepassados, me balanço em arenas espanholas,
é por isso que saio às vezes pra rua combatendo personagens imaginários,
depois estou com os meus tios doidos, às gargalhadas,
na fazenda do interior, olhando os girassóis do jardim
Estou no outro lado do mundo, daqui a cem anos, levantando populações...
Me desespero porque não posso estar presente a todos os atos da vida.
Onde esconder minha cara? O mundo samba na minha cabeça.
Triângulos, estrelas, noite, mulheres andando,
presságios brotando no ar, diversos pesos e movimentos me chamam a atenção
o mundo vai mudar a cara,
a morte revelará o sentido verdadeiro das coisas.
Andarei no ar.
Estarei em todos os nascimentos e em todas as agonias,
me aninharei nos recantos do corpo da noiva,
na cabeça dos artistas doentes, dos revolucionários.
Tudo transparecerá:
vulcões de ódio, explosões de amor, outras caras aparecerão na terra,
o vento que vem da eternidade suspenderá os passos
dançarei na luz dos relâmpagos, beijarei sete mulheres
vibrarei nos cangerês do mar, abraçarei as almas no ar
me insinuarei nos quatro cantos do mundo.
Almas desesperadas eu vos amo. Almas insatisfeitas, ardentes.
Detesto os que se tapeiam,
os que brincam de cabra-cega com a vida, os homens "práticos". ..
Viva São Francisco e vários suicidas e amantes suicidas,
os soldados que perderam a batalha, as mães bem mães,
as fêmeas bem fêmeas, os doidos bem doidos.
Vivam os transfigurados, ou porque eram perfeitos ou porque jejuavam muito.
viva eu, que inauguro no mundo o estado de bagunça transcendente.
Sou a presa do homem que fui há vinte anos passados,
dos amores raros que tive,
vida de planos ardentes, desertos vibrando sob os dedos do amor,
tudo é ritmo do cérebro do poeta. Não me inscrevo em nenhuma teoria,
estou no ar,
na alma dos criminosos, dos amantes desesperados,
no meu quarto modesto da praia de Botafogo,
no pensamento dos homens que movem o mundo,
nem triste nem alegre, chama com dois olhos andando,
sempre em transformação.
Murilo
Mendes
_____________
Leio este poema como se eu o tivesse escrito. Penso, até, em emendar aqui ou ali. Em lugar de Colégio, escreveria Seminário. Girassóis? Por que não hortênsias? O quarto modesto de Botafogo seria o quarto da pensãozinha de Duartina, onde escrevi os três primeiros poemas do meu primeiro livro, O Emparedado. Viva são Francisco, mas onde estão os poetas suicidas?
Brincadeira à parte, este poema tem
muito da minha biografia espiritual, intelectual, artística.
domingo, 22 de julho de 2012
quinta-feira, 19 de julho de 2012
CAIM
Caim
Carrego o
sangue do meu irmão para toda a eternidade.
Eu sou o meu
irmão morto com uma pedra na cabeça.
Aprendo o que é
morrer, o que é acabar.
A morte é o
silêncio de uma pedra.
Os lábios de
Abel não dirão mais nenhuma palavra.
É isto a morte:
este silêncio, este sangue sobre a terra.
Que farei com
Abel?
Que é que se
faz com um morto?
Que farei
comigo? Eu, que inventei a morte?
Nos olhos do
meu irmão vejo o universo refletido.
No corpo morto
eu conheço o meu tamanho de homem.
O sangue do meu
irmão não clama por vingança:
É um espelho.
É a essência do
que sou.
É a marca do
homem, seu direito e avesso.
O sangue do meu
irmão morto me alimenta.
segunda-feira, 16 de julho de 2012
A QUEDA DE ÍCARO
A QUEDA DE ÍCARO
A Queda de
Ícaro, de Bruegel, foi tema
de W. H. Auden e Williams Carlos
Williams.
Não me sobra
nada
a dizer.
A vida
continua.
A Queda de
Ícaro não tem importância nenhuma.
Mas eu fico
pensando
no que o pastor
vê no céu vazio
e nos peixes
que o pescador
pesca
e voltam ao
mar.
Se Ícaro não
caísse não haveria o mar, os navios,
os peixes, o pescador,
o pastor e o
lavrador com o seu arado.
Acabamos
olhando, com o pastor, para lugar nenhum.
sábado, 14 de julho de 2012
A FIGUEIRA DA MINHA INFÂNCIA
A figueira do Matão da minha infância (antes do raio que a mutilou)
A FIGUEIRA
Escrevi num poema que na escolinha de sítio da minha infância, entre o quadro-negro e as carteiras fazia falta uma árvore. Fazia falta uma árvore, sempre faz falta uma árvore na vida de um homem.
Mas era mentira. A cinquenta metros da escolinha (e a cinquenta metros da minha casa) a presença da figueira dominava. A figueira era maior do que o mundo. E estava entre o quadro-negro e os meus olhos e os meus dedos desajeitados. A sua sombra verde e dourada me acariciava sensualmente.
Os seus galhos se estendiam para o infinito, num convite à viagem, ao sonho. O seu tronco era enorme, impossível um homem sozinho abraçá-lo. E vários homens? As raízes não deixariam: erguendo-se a um metro, a um metro e meio acima da terra, impediam que a gente se aproximasse do tronco.
Galinhas se escondiam ali, naquelas raízes, e cachorros e bezerros e ouriços. E a cascavel que me deixou os guizos de presente grudados na resina de uma casca ferida. Eu me escondia ali, naquelas raízes, entre folhas velhas, penas, minhocas e o húmus quente.
Uma égua vinha se coçar naquelas raízes, me bafejava a cara trêmula, eu encantado com aquele corpo animal tão próximo e com medo de um coice ou de uma mijada. Muitas vezes me deitei junto a montes de estrume verde e quente, cheio de vida.
Num outro poema escrevi que meu pai plantou uma árvore, essa figueira, e como um personagem de Gabriel García Márquez ficou sessenta anos sentado numa pedra amarela vendo-a crescer.
Era verdade. Mas hoje meu pai está morto e a figueira continua lá, no Matão da minha infância. E a figueira continua a crescer dentro de mim, a crescer sem medida.
O que eu sou como homem é do tamanho dessa figueira, as folhas verdes e as folhas de ouro, os galhos viajando para o infinito do sonho, e o tronco grande, grosso, nodoso, escorrendo a seiva forte da vida, e as raízes erguendo-se acima da terra, mais alto do que a minha altura de menino.
Saí analfabeto da escolinha da minha infância, mas trouxe uma árvore, essa figueira, dentro de mim.
E por isso tenho o corpo como um tronco nodoso escorrendo seiva, e tenho um jeito animal na sensibilidade, e braços como galhos que perderam as folhas verdes e as folhas de ouro.
E pássaros se aninham na minha cabeça, como se fosse a copa que ainda sonha com a altura, o longe, a miragem.
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