domingo, 22 de julho de 2012
quinta-feira, 19 de julho de 2012
CAIM
Caim
Carrego o
sangue do meu irmão para toda a eternidade.
Eu sou o meu
irmão morto com uma pedra na cabeça.
Aprendo o que é
morrer, o que é acabar.
A morte é o
silêncio de uma pedra.
Os lábios de
Abel não dirão mais nenhuma palavra.
É isto a morte:
este silêncio, este sangue sobre a terra.
Que farei com
Abel?
Que é que se
faz com um morto?
Que farei
comigo? Eu, que inventei a morte?
Nos olhos do
meu irmão vejo o universo refletido.
No corpo morto
eu conheço o meu tamanho de homem.
O sangue do meu
irmão não clama por vingança:
É um espelho.
É a essência do
que sou.
É a marca do
homem, seu direito e avesso.
O sangue do meu
irmão morto me alimenta.
segunda-feira, 16 de julho de 2012
A QUEDA DE ÍCARO
A QUEDA DE ÍCARO
A Queda de
Ícaro, de Bruegel, foi tema
de W. H. Auden e Williams Carlos
Williams.
Não me sobra
nada
a dizer.
A vida
continua.
A Queda de
Ícaro não tem importância nenhuma.
Mas eu fico
pensando
no que o pastor
vê no céu vazio
e nos peixes
que o pescador
pesca
e voltam ao
mar.
Se Ícaro não
caísse não haveria o mar, os navios,
os peixes, o pescador,
o pastor e o
lavrador com o seu arado.
Acabamos
olhando, com o pastor, para lugar nenhum.
sábado, 14 de julho de 2012
A FIGUEIRA DA MINHA INFÂNCIA
A figueira do Matão da minha infância (antes do raio que a mutilou)
A FIGUEIRA
Escrevi num poema que na escolinha de sítio da minha infância, entre o quadro-negro e as carteiras fazia falta uma árvore. Fazia falta uma árvore, sempre faz falta uma árvore na vida de um homem.
Mas era mentira. A cinquenta metros da escolinha (e a cinquenta metros da minha casa) a presença da figueira dominava. A figueira era maior do que o mundo. E estava entre o quadro-negro e os meus olhos e os meus dedos desajeitados. A sua sombra verde e dourada me acariciava sensualmente.
Os seus galhos se estendiam para o infinito, num convite à viagem, ao sonho. O seu tronco era enorme, impossível um homem sozinho abraçá-lo. E vários homens? As raízes não deixariam: erguendo-se a um metro, a um metro e meio acima da terra, impediam que a gente se aproximasse do tronco.
Galinhas se escondiam ali, naquelas raízes, e cachorros e bezerros e ouriços. E a cascavel que me deixou os guizos de presente grudados na resina de uma casca ferida. Eu me escondia ali, naquelas raízes, entre folhas velhas, penas, minhocas e o húmus quente.
Uma égua vinha se coçar naquelas raízes, me bafejava a cara trêmula, eu encantado com aquele corpo animal tão próximo e com medo de um coice ou de uma mijada. Muitas vezes me deitei junto a montes de estrume verde e quente, cheio de vida.
Num outro poema escrevi que meu pai plantou uma árvore, essa figueira, e como um personagem de Gabriel García Márquez ficou sessenta anos sentado numa pedra amarela vendo-a crescer.
Era verdade. Mas hoje meu pai está morto e a figueira continua lá, no Matão da minha infância. E a figueira continua a crescer dentro de mim, a crescer sem medida.
O que eu sou como homem é do tamanho dessa figueira, as folhas verdes e as folhas de ouro, os galhos viajando para o infinito do sonho, e o tronco grande, grosso, nodoso, escorrendo a seiva forte da vida, e as raízes erguendo-se acima da terra, mais alto do que a minha altura de menino.
Saí analfabeto da escolinha da minha infância, mas trouxe uma árvore, essa figueira, dentro de mim.
E por isso tenho o corpo como um tronco nodoso escorrendo seiva, e tenho um jeito animal na sensibilidade, e braços como galhos que perderam as folhas verdes e as folhas de ouro.
E pássaros se aninham na minha cabeça, como se fosse a copa que ainda sonha com a altura, o longe, a miragem.
terça-feira, 10 de julho de 2012
Poema-orelha (dos Poemas de Amor, 1999)
POEMA-ORELHA
O amor é o amor
é o amor.
É a forma que,
concreta,
se condensa no
que, ser,
só é ser quando
se funde
na rosa da sua
vulva.
É o corpo que se
entrega
a outro corpo,
que, completo,
se lhe oferece,
a ele, corpo.
O corpo ao corpo
se doa
e de tal modo
perfeito
que a essência
da doação
é o próprio
corpo primo
que noutro corpo
se coa.
Eu disse: o amor
é o amor,
o mais são
palavras gastas.
Mais não se pode
dizer
do amor, senão
que é o corpo.
Maior beleza não
há,
nenhuma maior
delícia
que o corpo
quando entra em êxtase,
que o corpo
quando se encontra
com outro corpo,
no coito.
Repito: o êxtase
do corpo
define o amor,
inefável.
Nada existe além
do coito,
nada existe além
do corpo.
Amar é êxtase:
corpo
dentro do corpo,
além-corpo.
Existir é tão
doído
que só a brasa
do amor,
só o amor,
brasão, suporta.
Eu quero tocar
os guizos
da alegria: eu
sou feliz,
eu conheço o
amor, o corpo
suando estrelas,
a mó
moendo, doce, o
universo.
Aprendo as
lições do abismo,
lições que só o
amor ensina.
O amor é o amor
é o amor.
_____
Poema-orelha feito para o meu livro Poemas de Amor, 1999. Na época, achei que não condizia com o livro e não o publiquei.
domingo, 8 de julho de 2012
Por causa de Jandira - Murilo Mendes
Murilo Mendes por Guignard
Por causa de Jandira
O mundo começava nos seios de Jandira.
Depois surgiram outras peças da criação:
Surgiram os cabelos para cobrir o corpo,
(Às vezes o braço esquerdo desaparecia no caos.)
E surgiram os olhos para vigiar o resto do corpo.
E surgiram sereias da garganta de Jandira:
O ar inteirinho ficou rodeado de sons
Mais palpáveis do que pássaros.
E as antenas das mãos de Jandira
Captavam objetos animados, inanimados.
Dominavam a rosa, o peixe, a máquina.
E os mortos acordavam nos caminhos visíveis do ar
Quando Jandira penteava a cabeleira...
Depois o mundo desvendou-se completamente,
Foi-se levantando, armado de anúncios luminosos.
E Jandira apareceu inteiriça,
Da cabeça aos pés,
Todas as partes do mecanismo tinham importância.
E a moça apareceu com o cortejo do seu pai,
De sua mãe, de seus irmãos.
Eles é que obedeciam aos sinais de Jandira
Crescendo na vida em graça, beleza, violência.
Os namorados passavam, cheiravam os seios de Jandira
E eram precipitados nas delícias do inferno.
Eles jogavam por causa de Jandira,
Deixavam noivas, esposas, mães, irmãs
Por causa de Jandira.
E Jandira não tinha pedido coisa alguma.
E vieram retratos no jornal
E apareceram cadáveres boiando por causa de Jandira.
Certos namorados viviam e morriam
Por causa de um detalhe de Jandira.
Um deles suicidou-se por causa da boca de Jandira
Outro, por causa de uma pinta na face esquerda de Jandira.
E seus cabelos cresciam furiosamente com a força
[ das máquinas;
Não caía nem um fio,
Nem ela os aparava.
E sua boca era um disco vermelho
Tal qual um sol mirim.
Em roda do cheiro de Jandira
A família andava tonta.
As visitas tropeçavam nas conversações
Por causa de Jandira.
E um padre na missa
Esqueceu de fazer o sinal-da-cruz por causa de Jandira.
E Jandira se casou
E seu corpo inaugurou uma vida nova.
Apareceram ritmos que estavam de reserva.
Combinações de movimento entre as ancas e os seios.
À sombra do seu corpo nasceram quatro meninas que repetem
As formas e os sestros de Jandira desde o princípio do tempo.
E o marido de Jandira
Morreu na epidemia de gripe espanhola.
E Jandira cobriu a sepultura com os cabelos dela.
Desde o terceiro dia o marido
Fez um grande esforço para ressuscitar:
Não se conforma, no quarto escuro onde está,
Que Jandira viva sozinha,
Que os seios, a cabeleira dela transtornem a cidade
E que ele fique ali à toa.
E as filhas de Jandira
Inda parecem mais velhas do que ela.
E Jandira não morre,
Espera que os clarins do juízo final
Venham chamar seu corpo,
Mas eles não vêm.
E mesmo que venham, o corpo de Jandira
Ressuscitará inda mais belo, mais ágil e transparente.
_________
Da minha série Celebrações.
Por causa de Jandira, por causa de Murilo Mendes, eu sou o poeta que sou.
O mundo começava nos seios de Jandira.
Depois surgiram outras peças da criação:
Surgiram os cabelos para cobrir o corpo,
(Às vezes o braço esquerdo desaparecia no caos.)
E surgiram os olhos para vigiar o resto do corpo.
E surgiram sereias da garganta de Jandira:
O ar inteirinho ficou rodeado de sons
Mais palpáveis do que pássaros.
E as antenas das mãos de Jandira
Captavam objetos animados, inanimados.
Dominavam a rosa, o peixe, a máquina.
E os mortos acordavam nos caminhos visíveis do ar
Quando Jandira penteava a cabeleira...
Depois o mundo desvendou-se completamente,
Foi-se levantando, armado de anúncios luminosos.
E Jandira apareceu inteiriça,
Da cabeça aos pés,
Todas as partes do mecanismo tinham importância.
E a moça apareceu com o cortejo do seu pai,
De sua mãe, de seus irmãos.
Eles é que obedeciam aos sinais de Jandira
Crescendo na vida em graça, beleza, violência.
Os namorados passavam, cheiravam os seios de Jandira
E eram precipitados nas delícias do inferno.
Eles jogavam por causa de Jandira,
Deixavam noivas, esposas, mães, irmãs
Por causa de Jandira.
E Jandira não tinha pedido coisa alguma.
E vieram retratos no jornal
E apareceram cadáveres boiando por causa de Jandira.
Certos namorados viviam e morriam
Por causa de um detalhe de Jandira.
Um deles suicidou-se por causa da boca de Jandira
Outro, por causa de uma pinta na face esquerda de Jandira.
E seus cabelos cresciam furiosamente com a força
[ das máquinas;
Não caía nem um fio,
Nem ela os aparava.
E sua boca era um disco vermelho
Tal qual um sol mirim.
Em roda do cheiro de Jandira
A família andava tonta.
As visitas tropeçavam nas conversações
Por causa de Jandira.
E um padre na missa
Esqueceu de fazer o sinal-da-cruz por causa de Jandira.
E Jandira se casou
E seu corpo inaugurou uma vida nova.
Apareceram ritmos que estavam de reserva.
Combinações de movimento entre as ancas e os seios.
À sombra do seu corpo nasceram quatro meninas que repetem
As formas e os sestros de Jandira desde o princípio do tempo.
E o marido de Jandira
Morreu na epidemia de gripe espanhola.
E Jandira cobriu a sepultura com os cabelos dela.
Desde o terceiro dia o marido
Fez um grande esforço para ressuscitar:
Não se conforma, no quarto escuro onde está,
Que Jandira viva sozinha,
Que os seios, a cabeleira dela transtornem a cidade
E que ele fique ali à toa.
E as filhas de Jandira
Inda parecem mais velhas do que ela.
E Jandira não morre,
Espera que os clarins do juízo final
Venham chamar seu corpo,
Mas eles não vêm.
E mesmo que venham, o corpo de Jandira
Ressuscitará inda mais belo, mais ágil e transparente.
_________
Da minha série Celebrações.
Por causa de Jandira, por causa de Murilo Mendes, eu sou o poeta que sou.
sexta-feira, 6 de julho de 2012
quarta-feira, 27 de junho de 2012
ANUNCIAÇÃO - Cecília Meireles
Cecília Meireles – ANUNCIAÇÃO
Toca essa musica de seda, frouxa e trêmula
que apenas embala a noite e balança as estrelas noutro mar.
Do fundo da escuridão nascem vagos navios de ouro,
com as mãos de esquecidos corpos quase desmanchados no vento.
E o vento bate nas cordas, e estremecem as velas opacas,
e a água derrete um brilho fino, que em si mesmo logo se perde.
Toca essa musica de seda, entre areias e nuvens e espumas.
Os remos pararão no meio da onda, entre os peixes suspensos;
e as cordas partidas andarão pelos ares dançando à toa.
Cessará essa musica de sombra, que apenas indica valores de ar.
Não haverá mais nossa vida, talvez não haja nem o pó que fomos.
E a memória de tudo desmanchará sua dunas desertas,
e em navios novos homens eternos navegarão.
_______________
in “Viagem”, 1930
Viagem foi o primeiro livro de poesia moderna premiado pela Academia
Brasileira de Letras.
Brasileira de Letras.
Anunciação foi o primeiro poema de Cecília Meireles que eu li, ainda na minha
iniciação na poesia.
iniciação na poesia.
sábado, 23 de junho de 2012
Entrevista a Marcelo Novaes, no Cronópios
Já postei aqui o link para o blog do Marcelo há dois anos.
Quem não viu então, agora foi reeditada no solene PORTAL DE LITERATURA BRASILEIRA CRONÓPIOS.Goya - O idiota
sexta-feira, 22 de junho de 2012
Era um cavalo todo feito em lavas - Jorge de Lima
Era um cavalo todo feito em lavas
recoberto de brasas e de espinhos.
Pelas tardes amenas ele vinha
e lia o mesmo livro que eu folheava.
Depois lambia a página, e apagava
a memória dos versos mais doridos;
então a escuridão cobria o livro,
e o cavalo de fogo se encantava.
Bem se sabia que ele ainda ardia
na salsugem do livro subsistido
e transformado em vagas sublevadas.
Bem se sabia: o livro que ele lia
era a loucura do homem agoniado
em que o íncubo cavalo se nutria.
recoberto de brasas e de espinhos.
Pelas tardes amenas ele vinha
e lia o mesmo livro que eu folheava.
Depois lambia a página, e apagava
a memória dos versos mais doridos;
então a escuridão cobria o livro,
e o cavalo de fogo se encantava.
Bem se sabia que ele ainda ardia
na salsugem do livro subsistido
e transformado em vagas sublevadas.
Bem se sabia: o livro que ele lia
era a loucura do homem agoniado
em que o íncubo cavalo se nutria.
quinta-feira, 21 de junho de 2012
quarta-feira, 20 de junho de 2012
terça-feira, 19 de junho de 2012
CONFISSÃO - Carlos Drummond de Andrade
Não amei bastante meu semelhante,
não catei o
verme nem curei a sarna.
Só proferi
algumas palavras,
melodiosas,
tarde, ao voltar da festa.
Dei sem dar
e beijei sem beijo.
(Cego é
talvez quem esconde os olhos
embaixo do
catre.) E na meia-luz
tesouros
fanam-se, os mais excelentes.
Do que
restou, como compor um homem
e tudo o que
ele implica de suave,
de
concordâncias vegetais, murmúrios
de riso,
entrega, amor e piedade?
Não amei
bastante sequer a mim mesmo,
contudo
próximo. Não amei ninguém.
Salvo aquele
pássaro – vinha azul e doido –
que se
esfacelou na asa do avião.
domingo, 17 de junho de 2012
sábado, 16 de junho de 2012
quinta-feira, 14 de junho de 2012
A ÓTICA DO TEMPO
Por que o
futuro está à nossa frente
e o
passado atrás?
Não
poderia ser o contrário?
Não
poderia haver a um objeto à nossa frente
que vimos
no passado?
Ou alguém
no futuro
não
poderia estar bem atrás de nós?
E porque
não poderia estar o passado embaixo
e o
futuro acima?
O passado
no fundo de um vale
e o
futuro nas altas montanhas?
O futuro
é misterioso para nossos sentidos,
para a
nossa visão. Está atrás,
onde não o
vemos. O passado,
que
conhecemos, está à frente.
Como
podemos ter memória
do tempo
passado,
se ele
estiver à nossa frente?
Ele seria
quase o nosso presente.
Por que
vamos querer o passado atrás
e o
futuro à frente?
Por que
queremos prever o futuro
se ele
pode estar atrás?
O tempo não
é mais
que uma
questão de ótica.
terça-feira, 12 de junho de 2012
Poema para o dia dos namorados
CORPO
Eu te amo, te amo, te amo.
Três vezes bati na rocha:
jorrou sangue e amor.
O nome de Deus é o verbo,
o nome do amor é um corpo.
Nomeio o meu cavalo
como nomeio o amor: corpo.
Nomeio a vida
com o nome do amor: corpo.
Nomeio a beleza
com o nome do meu amor: corpo.
Corpo, corpo, corpo: amor.
Sangue que jorra da rocha: corpo.
Amor natural como o êxtase do corpo
no corpo.
- poema do meu livro Poemas de Amor, 1999.
Assinar:
Postagens (Atom)









