quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

O CANTO E A LIÇA





                       O CANTO E A LIÇA



O canto e a liça. Infindo vai e vem.
O canto paira no ar. Gira. Regira.
Registra um tom abaixo e acima, bem
onde começa a liça. Gira e mira.

Há uma rosa nesse canto, além
do fogo que essa liça queima. Pira
que alimenta a memória. Para aquém
da consciência, entra música e ira.

O canto vence a liça. Embora a morte.
Olhares fixos, para a vida fixa
nesse canto como nessa liça.

E enquanto o ser decide a sua sorte,
sina entre canto e liça. Nesse entanto,
cante-se sobre essa liça esse canto.







       Poema publicado no Jornal da Cidade, de Bauru, dia 3-02-13, publicado pela primeira vez no meu livro O Emparedado, de 1975.













segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

OS CISNES NEGROS






OS CISNES NEGROS


Não é todo dia que passa
a sua frente
um casal de cisnes negros,
ela escreveu.

Passam andando na frente da gente
e são cisnes negros,
negros como a página à espreita
do poema branco.

Dizem que os cisnes brilham
na luz dourada do sol,
mas eram cisnes negros.
A surpresa da poesia iluminou a página negra.






                                      À minha sobrinha Ivana Lima, autora da foto e da primeira frase do poema.

                                      JCMBrandão

                                         



sábado, 12 de janeiro de 2013

A EXECUÇÃO DE WLADIMIR HERZOG





A EXECUÇÃO DE WLADIMIR HERZOG


Wladimir Herzog não tinha nada a dizer
a seus algozes.
Recebeu as pancadas uma a uma,
sentiu o seu corpo vergar de dor
até que uma nuvem lhe cobriu olhos
e não sentiu mais nada.
As pancadas continuaram ferozes
contra o seu corpo morto.
Quem teve a ideia de pendurá-lo
numa das barras de ferro da janela
como se tivesse se suicidado?
                                    – Um morto não se suicida. 








sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

A EUGÉNIO DE ANDRADE





 


A EUGÉNIO DE ANDRADE


Contemplo a minha imagem
na água clara do dia.
Eu sou a distância sem fim,
a minha sede é imensa.

Palavras, palavras
e um banho de espuma.
A água corre, se renova,
eu nunca sou o mesmo.

Inscrição na parede da caverna
primeira, virgem, única.
A palavra – relâmpago! –
instaura a luz.

Desenhos traçados na praia
pelas águas e algas do mar.
Poesia escrita na areia
para o vento apagar.