sexta-feira, 22 de junho de 2012

Era um cavalo todo feito em lavas - Jorge de Lima


Era um cavalo todo feito em lavas
recoberto de brasas e de espinhos.
Pelas tardes amenas ele vinha
e lia o mesmo livro que eu folheava.

Depois lambia a página, e apagava
a memória dos versos mais doridos;
então a escuridão cobria o livro,
e o cavalo de fogo se encantava.

Bem se sabia que ele ainda ardia
na salsugem do livro subsistido
e transformado em vagas sublevadas.

Bem se sabia: o livro que ele lia
era a loucura do homem agoniado
em que o íncubo cavalo se nutria.


                                               Jorge de Lima - "Invenção de Orfeu"


                                

 

quarta-feira, 20 de junho de 2012

RELÓGIO - Cassiano Ricardo



Diante de coisa tão doída
conservemo-nos serenos.

Cada minuto de vida
nunca é mais, é sempre menos.

Ser é apenas uma face
do não ser, e não do ser.

Desde o instante em que se nasce
já se começa a morrer.

                                       Cassiano Ricardo



terça-feira, 19 de junho de 2012

CONFISSÃO - Carlos Drummond de Andrade

 


Não amei bastante meu semelhante,
não catei o verme nem curei a sarna.
Só proferi algumas palavras,
melodiosas, tarde, ao voltar da festa.

Dei sem dar e beijei sem beijo.
(Cego é talvez quem esconde os olhos
embaixo do catre.) E na meia-luz
tesouros fanam-se, os mais excelentes.

Do que restou, como compor um homem
e tudo o que ele implica de suave,
de concordâncias vegetais, murmúrios
de riso, entrega, amor e piedade?

Não amei bastante sequer a mim mesmo,
contudo próximo. Não amei ninguém.
Salvo aquele pássaro – vinha azul e doido –
que se esfacelou na asa do avião.

                                        Carlos Drummond de Andrade

domingo, 17 de junho de 2012

A MORTE ABSOLUTA



                                     Ninguém escreverá
                                     a minha elegia
                                     quando eu me for.




sábado, 16 de junho de 2012

A LARANJA


 
Uma laranja rola
no meio do rio

rola
entre os peixes
e a água.

O sol brilha no alto.

A laranja rola
sem destino.




quinta-feira, 14 de junho de 2012

A ÓTICA DO TEMPO



Por que o futuro está à nossa frente
e o passado atrás?
Não poderia ser o contrário?

Não poderia haver a um objeto à nossa frente
que vimos no passado?
Ou alguém no futuro
não poderia estar bem atrás de nós?

E porque não poderia estar o passado embaixo
e o futuro acima?
O passado no fundo de um vale
e o futuro nas altas montanhas?

O futuro é misterioso para nossos sentidos,
para a nossa visão. Está atrás,
onde não o vemos. O passado,
que conhecemos, está à frente.

Como podemos ter memória
do tempo passado,
se ele estiver à nossa frente?
Ele seria quase o nosso presente.

Por que vamos querer o passado atrás
e o futuro à frente?
Por que queremos prever o futuro
se ele pode estar atrás?

O tempo não é mais
que uma questão de ótica.



terça-feira, 12 de junho de 2012

Poema para o dia dos namorados




CORPO


Eu te amo, te amo, te amo.
Três vezes bati na rocha:
jorrou sangue e amor.
O nome de Deus é o verbo,
o nome do amor é um corpo.
Nomeio o meu cavalo
como nomeio o amor: corpo.
Nomeio a vida
com o nome do amor: corpo.
Nomeio a beleza
com o nome do meu amor: corpo.
Corpo, corpo, corpo: amor.
Sangue que jorra da rocha: corpo.
Amor natural como o êxtase do corpo
no corpo.


- poema do meu livro Poemas de Amor, 1999.


segunda-feira, 11 de junho de 2012

O SILÊNCIO DA PEDRA





O SILÊNCIO DA PEDRA


A pedra fez silêncio.
A árvore deixou cair uma folha, uma fruta, um pássaro.
A folha pairava no ar, voava.
A fruta se esborrachou na pedra.

O pássaro pousou ao lado para comer a fruta.
Bicava o silêncio.
Canto fica para depois.
Agora a fruta, o chão verde, com poças d’água.

A água é vermelha e uma libélula beija.
Um menino caminha sozinho e chora uma lágrima quieta.
A pedra faz silêncio para ouvir a lágrima do menino.

O menino ergue o braço, o dedinho.
O pássaro vem sentar no dedinho, abre o bico,
mas faz silêncio, aprendeu com a pedra.






sexta-feira, 8 de junho de 2012

O ACASO E O SOL


 

Acabou-se o tempo das rosas
e das flores azuis.

A roseira secou,
acabou-se o seu templo de vida.

Sinto um sabor de chuva
e um cheiro de terra no ar.

Olho a libélula e fico feliz com o sol
iluminando o espaço aqui e agora.



quarta-feira, 6 de junho de 2012

A POESIA E O DENTISTA



“A poesia serve para tudo: substitui a anestesia
no dentista e não tem efeitos secundários”, diz o poeta
David Turkéltaub
e eu me lembro do meu poema em prosa A Árvore e a Cruz
imaginado na
cadeira do dentista
– no canal 4, em Santos.
Eu ouvia a broca monstruosa prestes a entrar
na minha boca
como um trator gigantesco esmagando pedras e árvores
e olhava pela janela a árvore frágil
mas teimosa
resistindo
junto ao canal.
Aquela árvore não morria afrontando o sol assustador
com seus dois braços abertos em cruz
(como Jesus).
Não era o deserto, não era a solidão
– nenhuma devastação,
mas eu via a imagem da solidão, da devastação.
Eu me imaginava com os braços abertos
naquela árvore,
agonizando
com o delírio da poesia nos olhos perplexos.



quarta-feira, 30 de maio de 2012

CANTO DE CISNE




     CANTO DE CISNE

1
Como um cisne, canto para morrer. Quanto escrevi, quanto falei é nada. O meu canto apodrece os jardins. Canto grave, com entonação esconsa.
Não fui o guardião da beleza. As rosas incendiaram-se. Deitei ao mar o meu trabalho. As coisas fulguram um instante, sublime, porque último. O sol ruirá com estrondo ensurdecedor.
Ninguém ouve o sol. Ninguém ouvirá mais nada.
O mar continuará o seu trabalho. Polir, esculpir conchas e pedras in eternum. Eu abandono as minhas pérolas. Abandono o meu cinzel.
Os meus olhos luzem no escuro. Estou falando da solidão. O universo fulgura, só. Quando eu morro. O silêncio da flor quando eu morro. Os pássaros pendem das árvores como frutos. Como estrelas. Terrivelmente silenciosos.
O cisne se apaga no lago.

2
Os olhos do peixe não olham. Paralisados no ar seco. Laterais como a vida. O silêncio dos olhos, ridículos, parados em solidão e beleza. Como o mármore.
Não temos mais nenhuma palavra. As palavras recolheram-se ao dicionário, sem poesia. Sangue nenhum.

3
Uma barata resplandece sobre a mesa enquanto escrevo. Ratos voam. Morcegos. Um relâmpago fende a treva. A minha treva.
Continuo, cabisbaixo, cantando.
Difícil fabricar a morte. Uma elaboração do frio. Aceitar o nada. As coisas de ar.
Deus se afasta com a luz do eterno. Somos somente solidão quando morremos.




sábado, 26 de maio de 2012

O MORTO DE GIACOMETTI

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
O MORTO DE GIACOMETTI


Largado em sua cama,
a pele amarelo marfim,
recolhido em si mesmo e já estranhamente distante,
os membros de uma magreza esquelética, projetados, esparramados,
abandonados
longe do corpo,
uma imensa barriga inchada, a cabeça
jogada para trás,
a boca aberta como um objeto, uma pequena caixa, mensurável,
insignificante. 
Então uma mosca aproximou-se do buraco negro de sua boca
e vagarosamente desapareceu dentro dela.
 


terça-feira, 22 de maio de 2012

O MENINO NA PONTE






























O MENINO NA PONTE


O menino atravessava a ponte correndo, correndo.
No meio da ponte o menino gritou: O meu pai morreu
e continuou a correr desabalado para o outro lado da ponte
tão longe
era como se não chegasse nunca.
A ponte era um horizonte sem fim para o menino sem
horizonte.






segunda-feira, 21 de maio de 2012

SOMOS SETE BILHÕES




 SOMOS SETE BILHÕES

Somos sete bilhões de habitantes
e estamos morrendo
muito antes da hora
de fome
e sede
asfixiados
envenenados
num planeta agonizante. 




domingo, 20 de maio de 2012

NOTA BREVE - MIREN AGUR MEABE





NOTA BREVE
 

Ontem queimei um lençol,
com o ferro,
fiz isso sozinha,
gravei-lhe um colorido triângulo torrado
graças à televisão.
Tenho sempre a televisão pequena na cozinha
enquanto passo a ferro:
uma criança negra numa guerra
mamava ao peito de sua mãe morta.
Senti que tinha engolido uma bola de pêlo.
Não irei esquecer isso:
o leite gotejou para dentro do meu peito.

MIREN AGUR MEABE





sexta-feira, 18 de maio de 2012

A BALEIA



 
      A BALEIA


A maldição de Acab não tem fim.
Preso ao ventre da baleia branca,
é preciso matá-la. Por que tanta
miséria, tanto mal? Grita de dor

como possesso. Com o inferno em vida,
convoca a marujada para o périplo.
Fustigamos os mares cor de bronze
em busca da baleia amaldiçoada.

Olha. A baleia é bela como o mal.
Carregamos o belo nas entranhas.
Carregamos o mal nas costas largas.
Disparo o meu arpão contra a desgraça

de viver, talvez de morrer. Não tenho
salvação. O demônio da baleia
me persegue e destrói o meu navio.
Não serei salvo nem com a sua morte. 





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quinta-feira, 17 de maio de 2012

MONTE BRANCO (JASNA GORA)








Monte Branco


Um anjo de palha adormece em meus braços
e sorri como um cão numa gravura antiga.

Longe das ameaçadoras falanges,
eu me deito no húmus quente, entre as folhas úmidas,

e sonho o alto carvalho que sobe ao céu.


terça-feira, 15 de maio de 2012

O LOBO GUARÁ























                                                                                                    Foto: http://serradacanastra.info/page1.aspx




   O LOBO GUARÁ


O lobo guará me olha de soslaio,
disfarça, com os olhos afogueados.
Estranha o medo humano em minha face
e se embrenha entre as pedras da Canastra.

O lobo marcha, alerta, no cerrado.
É senhor deste mundo, uiva, anuncia.
É sua a solidão da noite escura
marcada por seu cheiro e por seu uivo.

Quem vê o lobo fica sem palavras
pelo inaudito viso: tanta força,
beleza e astúcia nele conjugadas.
Saem chispas de fogo de seus olhos.

Quem sou ou serei para que me enfrente?
Por que enfrentar uma fraqueza de homem?
Quem tem, como ele, o dorso de um cavalo?
Quem tem, como ele, a força do leão?






segunda-feira, 14 de maio de 2012

A USINA DE BELO MONTE





 
A USINA DE BELO MONTE


A lei federal nº 2889, em seu art. 1º, qualifica como crime de genocídio:


“Quem,
com a intenção de destruir,
no todo ou em parte,
grupo nacional, étnico, racial ou religioso,

como tal:
a) matar membros do grupo; 
b) causar lesão grave à integridade física ou mental de membros do grupo; 
c) submeter intencionalmente o grupo a condições de existência capazes
de ocasionar-lhe a destruição física total ou parcial; 
d) adotar medidas destinadas a impedir os nascimentos no seio do grupo; 
e) efetuar a transferência forçada de crianças do grupo para outro grupo.” 

O poeta não deve ser legislador, o poeta não deve ser legislador, o poeta não deve 
ser legislador.

O poeta não deveria nem conhecer as leis.




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domingo, 13 de maio de 2012

Às mães (O coração do menino)




                       O CORAÇÃO DO MENINO


O menino está na barriga da mãe como um tesouro que ela guarda escondido.

O seu coraçãozinho bate junto do coração da mãe, ansioso, maravilhado.

Aproximei a minha cabeça para ouvi-lo e fiquei apalermado: tanta energia, tanta vontade de viver.

O seu coraçãozinho não batia: galopava. O que eu ouvi foi um galope firme dentro da ventania.

A placenta fazia um barulho como uma ventania, e lá o menino galopava, preparando-se para as ventanias da vida.

Eu não sei o que lhe dizer. Há momentos em que as palavras são vazias, inúteis como flores murchas.

O menino tem três meses, um tamanhinho de nada, e uma bruta disposição para viver.

Ele domina o mundo, com a certeza de que a vida compensa, de que a vida é um milagre.

Eu ouvi o menino bradar, num som de galope, que a vida é bela e que ele caminha para ela, a toda brida, querendo viver.

Eu compreendi que o menino tem asas e voa para além das tempestades, até lá onde mora a origem de todas as coisas.

Eu compreendi a mensagem do menino, nova como a primeira palavra que, vinda do infinito, faz o mundo nascer.

O menino existe para dar luz à escuridão mais fechada.
A sua visão traz a sabedoria essencial do universo.

O poeta é um anjo trôpego batendo numa pedra com seu bordão de andarilho, à espera de uma impossível resposta.

O menino é essa resposta.





sexta-feira, 11 de maio de 2012

O GAVIÃO CARCARÁ

                                                                                                            httpexitintoselvagem.blogspot.com





  O GAVIÃO CARCARÁ


O gavião carcará voa, sobrevoa
os campos amarelos da Canastra.
Tem a face vermelha ao sol, as penas
negras brilham, rebrilham com a luz.

Reina imponente, do alto, com a crista
negra até ao pescoço grosso e branco.
O gavião voa e pousa nas montanhas
solitárias, nas pedras nuas, secas.

Vejo o abismo nos olhos do gavião
e o olhar de Deus, de longe e perto e dentro.
Sinto o medo, o êxtase, o mistério e a morte
nos olhos e nas garras do gavião.

De horizonte a horizonte a luz dos olhos,
além do que a memória e a vista alcançam.
Guardião em repouso ou em voo límpido,
o gavião carcará amplia o mundo.








quinta-feira, 10 de maio de 2012

O GALITO






























O GALITO


O galito é um pássaro minúsculo,
quase invisível contra o céu azul.
Amarelo e cinzento sobre o branco,
se esconde entre os espinhos do cerrado.

Pousado sobre um galho fino de árvore,
ele move o rabinho vertical
como se fosse um leme de avião
e não deitado como em outros pássaros.

Um pássaro raríssimo no dia,
o galito feliz manobra o leme
da cauda, para a esquerda ou a direita,
contra o azul do céu e a mata rala.

Navega como nave preciosa
e que mais se imagina, diminuta,
do que se vê, na luz de um enigma.
A beleza revela-se no mínimo.



"Livro dos bichos", prêmio "Jorge de Lima" da U.B.E. Rio, 2011

             O autor da foto foi o guia que me apresentou o galito, na Serra da Canastra. Obrigado mais uma vez, Zé Maria.