segunda-feira, 21 de maio de 2012
domingo, 20 de maio de 2012
NOTA BREVE - MIREN AGUR MEABE
NOTA BREVE
Ontem queimei um lençol,
com o ferro,
fiz isso sozinha,
gravei-lhe um colorido triângulo torrado
graças à televisão.
Tenho sempre a televisão pequena na cozinha
enquanto passo a ferro:
uma criança negra numa guerra
mamava ao peito de sua mãe morta.
Senti que tinha engolido uma bola de pêlo.
Não irei esquecer isso:
o leite gotejou para dentro do meu peito.
MIREN AGUR MEABE
sexta-feira, 18 de maio de 2012
A BALEIA
A BALEIA
A maldição de
Acab não tem fim.
Preso ao ventre
da baleia branca,
é preciso
matá-la. Por que tanta
miséria, tanto
mal? Grita de dor
como possesso.
Com o inferno em vida,
convoca a
marujada para o périplo.
Fustigamos os
mares cor de bronze
em busca da
baleia amaldiçoada.
Olha. A baleia é
bela como o mal.
Carregamos o
belo nas entranhas.
Carregamos o mal
nas costas largas.
Disparo o meu
arpão contra a desgraça
de viver, talvez
de morrer. Não tenho
salvação. O
demônio da baleia
me persegue e
destrói o meu navio.
Não serei salvo
nem com a sua morte.
_______________
quinta-feira, 17 de maio de 2012
terça-feira, 15 de maio de 2012
O LOBO GUARÁ
Foto: http://serradacanastra.info/page1.aspx
O
LOBO GUARÁ
O
lobo guará me olha de soslaio,
disfarça,
com os olhos afogueados.
Estranha
o medo humano em minha face
e
se embrenha entre as pedras da Canastra.
O
lobo marcha, alerta, no cerrado.
É
senhor deste mundo, uiva, anuncia.
É
sua a solidão da noite escura
marcada
por seu cheiro e por seu uivo.
Quem
vê o lobo fica sem palavras
pelo
inaudito viso: tanta força,
beleza
e astúcia nele conjugadas.
Saem
chispas de fogo de seus olhos.
Quem
sou ou serei para que me enfrente?
Por
que enfrentar uma fraqueza de homem?
Quem
tem, como ele, o dorso de um cavalo?
Quem
tem, como ele, a força do leão?
segunda-feira, 14 de maio de 2012
A USINA DE BELO MONTE
A USINA DE BELO MONTE
A lei federal nº 2889, em seu art. 1º, qualifica como crime de genocídio:
“Quem,
com a intenção de destruir,
no todo ou em parte,
grupo nacional, étnico, racial ou religioso,
como tal:
a) matar membros do grupo;
b) causar lesão grave à integridade física
ou mental de membros do grupo;
c) submeter intencionalmente o grupo a
condições de existência capazes
de ocasionar-lhe a destruição física total
ou parcial;
d) adotar medidas destinadas a impedir os
nascimentos no seio do grupo;
e) efetuar a transferência forçada de
crianças do grupo para outro grupo.”
O poeta não deve ser legislador, o poeta não deve ser legislador, o
poeta não deve
ser legislador.
O poeta não deveria nem conhecer as leis.
_______
domingo, 13 de maio de 2012
Às mães (O coração do menino)
O CORAÇÃO DO
MENINO
O menino está na barriga da mãe como um tesouro que ela
guarda escondido.
O seu coraçãozinho bate junto do coração da mãe, ansioso,
maravilhado.
Aproximei a minha cabeça para ouvi-lo e fiquei
apalermado: tanta energia, tanta vontade de viver.
O seu coraçãozinho não batia: galopava. O que eu ouvi foi
um galope firme dentro da ventania.
A placenta fazia um barulho como uma ventania, e lá o
menino galopava, preparando-se para as ventanias da vida.
Eu não sei o que lhe dizer. Há momentos em que as
palavras são vazias, inúteis como flores murchas.
O menino tem três meses, um tamanhinho de nada, e uma
bruta disposição para viver.
Ele domina o mundo, com a certeza de que a vida compensa,
de que a vida é um milagre.
Eu ouvi o menino bradar, num som de galope, que a vida é
bela e que ele caminha para ela, a toda brida, querendo viver.
Eu compreendi que o menino tem asas e voa para além das
tempestades, até lá onde mora a origem de todas as coisas.
Eu compreendi a mensagem do menino, nova como a primeira
palavra que, vinda do infinito, faz o mundo nascer.
O menino existe para dar luz à escuridão mais fechada.
A sua visão traz a sabedoria essencial do universo.
O poeta é um anjo trôpego batendo numa pedra com seu
bordão de andarilho, à espera de uma impossível resposta.
O menino é essa resposta.
sexta-feira, 11 de maio de 2012
O GAVIÃO CARCARÁ
httpexitintoselvagem.blogspot.com
O GAVIÃO CARCARÁ
O
gavião carcará voa, sobrevoa
os
campos amarelos da Canastra.
Tem
a face vermelha ao sol, as penas
negras
brilham, rebrilham com a luz.
Reina
imponente, do alto, com a crista
negra
até ao pescoço grosso e branco.
O
gavião voa e pousa nas montanhas
solitárias,
nas pedras nuas, secas.
Vejo
o abismo nos olhos do gavião
e
o olhar de Deus, de longe e perto e dentro.
Sinto
o medo, o êxtase, o mistério e a morte
nos
olhos e nas garras do gavião.
De
horizonte a horizonte a luz dos olhos,
além
do que a memória e a vista alcançam.
Guardião
em repouso ou em voo límpido,
o
gavião carcará amplia o mundo.
quinta-feira, 10 de maio de 2012
O GALITO
O GALITO
O galito é um pássaro minúsculo,
quase invisível contra o céu azul.
Amarelo e cinzento sobre o branco,
se esconde entre os espinhos do cerrado.
Pousado sobre um galho fino de árvore,
ele move o rabinho vertical
como se fosse um leme de avião
e não deitado como em outros pássaros.
Um pássaro raríssimo no dia,
o galito feliz manobra o leme
da cauda, para a esquerda ou a direita,
contra o azul do céu e a mata rala.
Navega como nave preciosa
e que mais se imagina, diminuta,
do que se vê, na luz de um enigma.
A beleza revela-se no mínimo.
"Livro dos bichos", prêmio "Jorge de Lima" da U.B.E. Rio, 2011
quarta-feira, 9 de maio de 2012
A ÉGUA ARGENTINA
A ÉGUA ARGENTINA
Cavalga a égua Argentina para o sonho
da infância esguaritada nos capões
e socavões escuros da memória.
A Argentina me traz menino para
agora. Sou o sol e o sal no lombo
molhado de suor, a passo grave
nas estradas vermelhas do Matão.
Ouça: a sombra cavalga ainda a noite,
a minha sombra de égua e menino.
O meu relincho cruza o tempo e a morte
e galopo nas trilhas orvalhadas
do passado. Sou a égua branca e preta,
sou a Argentina e sua estrela branca
na testa preta. Sou a égua e o menino
encantados. Bebemos a mesma água
e pastamos nas mesmas invernadas.
Um poema de Bernardo Atxaga
A morte e as zebras
Nós éramos 157 zebras
a galopar pela planície ressequida,
eu corria atrás das zebras 24,
25 e 26,
à frente da 61 e da 62
e de súbito fomos ultrapassadas com um salto
pela 118 e a 119,
ambas a gritar rio, rio,
e a 25, muito feliz, repetiu rio, rio,
e de súbito a 130 alcançou-nos
a correr e a gritar, muito feliz, rio, rio,
e a 25 deu uma guinada à esquerda
à frente da 24 e da 26
e de súbito eu vi o sol no rio cintilante
cheio de salpicos faíscantes
e a 8 e a 9 passaram por mim
a correr na direcção contrária
com as suas bocas cheias de água
e as pernas molhadas e os peitos molhados,
muito felizes, a gritar, vamos, vamos, vamos,
e eu de súbito colidi com a 5 e a 7
que também vinham a correr na direcção contrária
mas a gritar crocodilo, crocodilo,
e então a 6 e a 30 e a 14 passaram por nós
muito assustadas, a gritar, crocodilo, crocodilo, vamos, vamos, vamos,
e eu bebi água, bebi água cintilante
cheia de salpicos faíscantes e sol,
crocodilo, crocodilo, gritou a 25, muito assustada,
crocodilo, repeti eu, voltando para trás;
e correndo muito assustada na direcção contrária
colidi de súbito com a 149
e a 150 e a 151
que vinham a correr e a gritar, muito felizes, rio, rio,
crocodilos, crocodilos, gritei-lhes eu, muito assustada
com a minha boca cheia de água
e as pernas molhadas e o peito molhado.
Continuei a galopar pela planície ressequida
atrás da 24 e da 26
à frente da 60 e da 61
e de súbito vi, de súbito vi um espaço
entre a 24 e a 26, um espaço
e continuei a galopar pela planície ressequida
e de novo vi o espaço, de novo o espaço,
entre a 24 e a 26
e de súbito saltei e preenchi o espaço.
Nós éramos 149 zebras
a galopar pela planície ressequida,
e à minha frente estavam a 12, a 13
e a 14, e atrás de mim
a 43 e a 44.
Bernardo Atxaga (poeta basco que devíamos conhecer mais)
Tradução de Luís Filipe Parrado.
segunda-feira, 7 de maio de 2012
quinta-feira, 3 de maio de 2012
quarta-feira, 2 de maio de 2012
terça-feira, 1 de maio de 2012
TRABALHADORES DO BRASIL – Wander Piroli
O homem estava sentado num tamborete rústico, com os joelhos cruzados e a
cabeça baixa. À sua direita havia uma mesinha de desarmar, entulhada de lápis
de vários tipos e cores, folhas de papel em branco, borrachas, tesoura e um
pouco de estopa. Havia ainda uma tabuleta em cima da pequena mesa, apoiando-se
na pilastra onde estavam expostos seus trabalhos: fotografias coloridas de
grandes personalidades e caricaturas também de grandes personalidades.
Nem sequer a chegada do bonde fez o homem levantar a cabeça. Trabalhava variando de lápis calmamente, como se não tivesse nenhuma pressa ou mesmo não desejasse terminar o serviço. Getúlio na foto continuava sorrindo para o homem com um de seus melhores sorrisos.
Uma mulher esturrada, de alpargata e vestido muito largo, aproximou-se e parou à sua frente. O homem levantou a cabeça:
-- Você, Maria.
Ela moveu o rosto com dificuldade e fez o possível para sorrir, fixando atenta e profundamente a cara do homem.
-- Aconteceu alguma coisa?
-- Não – murmurou a mulher.
O homem pôs a fotografia e o lápis na mesa e esperou que a mulher falasse. Olhavam-se como duas pessoas de intensa convivência.
-- Não houve mesmo nada? – tornou o homem.
-- Claro que não, Zé. Eu vim à toa.
-- E os meninos?
-- Mamãe está com eles.
-- Como é que você arranjou para chegar até aqui?
-- Uai, eu vim.
-- A pé? Você não devia ter vindo, Maria. Estou achando que houve alguma coisa.
-- Não teve nada, não. Mamãe chegou lá em casa e então eu aproveitei para dar um pulo até aqui.
-- Ah – o homem sorriu. E uma onda de carinho, quase imperceptível, assomou-lhe o rosto lento e sofrido.
-- Fez alguma coisa hoje, Zé?
-- Fiz um – respondeu levantando-se. – Senta aqui. Você deve estar cansada.
A mulher sentou no tamborete, desajeitada.
-- Você não devia ter vindo, Maria – disse o homem.
-- Eu sei, mas me deu vontade. Mamãe ficou lá com os meninos.
-- Mas ela não estava doente?
-- Você sabe como mamãe é.
-- E o Tonhinho?
-- Está lá.
-- O carnegão saiu?
A mulher fez sim com a cabeça e em seguida olhou para o abrigo, onde havia pequenas lojas de frutas, café, pastelaria.
-- Espera um pouquinho aí – disse o homem, e caminhou na direção de uma das lojas.
A mulher permaneceu sentada no tamborete, observou por um momento o vendedor de agulhas, que continuava gritando, depois deteve a vista na foto de Getúlio Vargas sorrindo para os trabalhadores do Brasil. O homem reapareceu com um saquinho manchado de gordura.
-- Esses pastéis.
-- Oh, Zé, para que você fez isso?
-- Vamos, come um.
-- Você não devia ter comprado.
-- Vamos.
A mulher retirou um pastelzinho do saco e começou a mastigá-lo com muito prazer.
-- Come o outro, Zé.
-- Já comi uns dois hoje. Esse outro também é seu.
-- Então eu vou levar ele pros meninos.
-- É pior, Maria.
O homem ficou de pé, ao lado da mulher, observando-a comer o segundo pastel. A mulher acabou de comer, limpou a boca na manga do vestido e fez menção de levantar-se:
-- Fica aqui, Zé. Pode aparecer alguém.
-- Não, eu passei a manhã toda assentado.
A mulher sentada e o homem em pé conservaram-se silenciosos durante um breve e ao mesmo tempo longo momento, ora olhando um para o outro, ora cada um olhando as pessoas agora espalhadas no abrigo ou não olhando coisa nenhuma. A mulher se ergueu:
-- Acho que eu vou andando.
-- Já vai?
-- Mamãe não aguenta eles, você sabe.
-- Ah, é mesmo. Você não devia ter vindo.
O homem tirou uma nota de dentro do bolso do paletó e estendeu-a para a mulher.
-- Volta de bonde.
-- Não, Zé.
-- É muito longe, criatura.
-- Não.
-- Ora, minha nega
-- A mulher pegou o dinheiro com a mão indecisa.
-- Vou ver se levo.
O homem assentiu com a cabeça, abriu a boca mas não disse nada. A mulher desviou o rosto e piscou os olhos várias vezes.
-- Não chega tarde não, viu, Zé.
-- Chego não.
-- Você vai fazer.
-- Hoje eu sei que vai melhorar.
-- Vai sim, Zé. Eu seu que vai. Eu sei.
A mulher se afastou rapidamente, sem voltar o rosto. O homem empinou-se um pouco para vê-la atravessar a rua. Depois sentou no tamborete e pegou um lápis e o retrato.
Durante muito tempo o homem permaneceu com a cabeça baixa, imóvel dentro de sua ilha, curvado sobre a foto que mostrava o presidente morto com aquele sorriso de seus melhores dias.
Nem sequer a chegada do bonde fez o homem levantar a cabeça. Trabalhava variando de lápis calmamente, como se não tivesse nenhuma pressa ou mesmo não desejasse terminar o serviço. Getúlio na foto continuava sorrindo para o homem com um de seus melhores sorrisos.
Uma mulher esturrada, de alpargata e vestido muito largo, aproximou-se e parou à sua frente. O homem levantou a cabeça:
-- Você, Maria.
Ela moveu o rosto com dificuldade e fez o possível para sorrir, fixando atenta e profundamente a cara do homem.
-- Aconteceu alguma coisa?
-- Não – murmurou a mulher.
O homem pôs a fotografia e o lápis na mesa e esperou que a mulher falasse. Olhavam-se como duas pessoas de intensa convivência.
-- Não houve mesmo nada? – tornou o homem.
-- Claro que não, Zé. Eu vim à toa.
-- E os meninos?
-- Mamãe está com eles.
-- Como é que você arranjou para chegar até aqui?
-- Uai, eu vim.
-- A pé? Você não devia ter vindo, Maria. Estou achando que houve alguma coisa.
-- Não teve nada, não. Mamãe chegou lá em casa e então eu aproveitei para dar um pulo até aqui.
-- Ah – o homem sorriu. E uma onda de carinho, quase imperceptível, assomou-lhe o rosto lento e sofrido.
-- Fez alguma coisa hoje, Zé?
-- Fiz um – respondeu levantando-se. – Senta aqui. Você deve estar cansada.
A mulher sentou no tamborete, desajeitada.
-- Você não devia ter vindo, Maria – disse o homem.
-- Eu sei, mas me deu vontade. Mamãe ficou lá com os meninos.
-- Mas ela não estava doente?
-- Você sabe como mamãe é.
-- E o Tonhinho?
-- Está lá.
-- O carnegão saiu?
A mulher fez sim com a cabeça e em seguida olhou para o abrigo, onde havia pequenas lojas de frutas, café, pastelaria.
-- Espera um pouquinho aí – disse o homem, e caminhou na direção de uma das lojas.
A mulher permaneceu sentada no tamborete, observou por um momento o vendedor de agulhas, que continuava gritando, depois deteve a vista na foto de Getúlio Vargas sorrindo para os trabalhadores do Brasil. O homem reapareceu com um saquinho manchado de gordura.
-- Esses pastéis.
-- Oh, Zé, para que você fez isso?
-- Vamos, come um.
-- Você não devia ter comprado.
-- Vamos.
A mulher retirou um pastelzinho do saco e começou a mastigá-lo com muito prazer.
-- Come o outro, Zé.
-- Já comi uns dois hoje. Esse outro também é seu.
-- Então eu vou levar ele pros meninos.
-- É pior, Maria.
O homem ficou de pé, ao lado da mulher, observando-a comer o segundo pastel. A mulher acabou de comer, limpou a boca na manga do vestido e fez menção de levantar-se:
-- Fica aqui, Zé. Pode aparecer alguém.
-- Não, eu passei a manhã toda assentado.
A mulher sentada e o homem em pé conservaram-se silenciosos durante um breve e ao mesmo tempo longo momento, ora olhando um para o outro, ora cada um olhando as pessoas agora espalhadas no abrigo ou não olhando coisa nenhuma. A mulher se ergueu:
-- Acho que eu vou andando.
-- Já vai?
-- Mamãe não aguenta eles, você sabe.
-- Ah, é mesmo. Você não devia ter vindo.
O homem tirou uma nota de dentro do bolso do paletó e estendeu-a para a mulher.
-- Volta de bonde.
-- Não, Zé.
-- É muito longe, criatura.
-- Não.
-- Ora, minha nega
-- A mulher pegou o dinheiro com a mão indecisa.
-- Vou ver se levo.
O homem assentiu com a cabeça, abriu a boca mas não disse nada. A mulher desviou o rosto e piscou os olhos várias vezes.
-- Não chega tarde não, viu, Zé.
-- Chego não.
-- Você vai fazer.
-- Hoje eu sei que vai melhorar.
-- Vai sim, Zé. Eu seu que vai. Eu sei.
A mulher se afastou rapidamente, sem voltar o rosto. O homem empinou-se um pouco para vê-la atravessar a rua. Depois sentou no tamborete e pegou um lápis e o retrato.
Durante muito tempo o homem permaneceu com a cabeça baixa, imóvel dentro de sua ilha, curvado sobre a foto que mostrava o presidente morto com aquele sorriso de seus melhores dias.
Obras do
autor:
Adulto: A Mãe e o Filho da Mãe ( 1966)
A Máquina de Fazer Amor (1980)
Minha Bela Putana (1985)
Nem Pai Educa filho (1998)
Os Melhores Contos de Wander Piroli (1996)
Infantil: O Menino e o Pinto do Menino ( 1975)
Os Rios Morrem de Sede (1973)
Macacos Me Mordam ( 1978)
Os Dois Irmãos (1980)
É Proibido Comer Grama
Para Pegar Bagre de Dia...
Adulto: A Mãe e o Filho da Mãe ( 1966)
A Máquina de Fazer Amor (1980)
Minha Bela Putana (1985)
Nem Pai Educa filho (1998)
Os Melhores Contos de Wander Piroli (1996)
Infantil: O Menino e o Pinto do Menino ( 1975)
Os Rios Morrem de Sede (1973)
Macacos Me Mordam ( 1978)
Os Dois Irmãos (1980)
É Proibido Comer Grama
Para Pegar Bagre de Dia...
sábado, 28 de abril de 2012
A GRALHA
A GRALHA
Eu vi a gralha
no alto da araucária,
eu ouvi a
gralha contra o céu azul.
Eu ouvi os
catorze gritos nítidos
da gralha azul com
seus bandos e clãs.
Eu vi a gralha
construindo o ninho
sobre a coroa
no alto da araucária,
estocando os
pinhões nos troncos podres
ou
encravando-os nas raízes soltas.
A araucária
balança-se no vento
e voa e dança
com as nuvens brancas.
A gralha voou
de galho em galho
e riscou o seu
grito contra o céu.
A gralha azul
inventa o céu azul
e grita
anunciando o seu domínio.
A gralha é
absoluta na paisagem,
pousada no seu
trono na araucária.
quinta-feira, 26 de abril de 2012
O udu
O UDU
O udu-de-coroa-azul pousou
na árvore solitária à beira d’ água.
Saltita irrequieto de um galho a outro,
vigiando o seu ninho na areia.
Move a coroa negra na cabeça
sobre uma leve faixa roxa e azul.
Move o verde brilhante da plumagem,
o peito e o ventre são um sol dourado.
O udu na árvore canta grave: Udu!
Traz o nome no som do próprio canto.
É um mistério a sua presença verde.
O encanto da sua cor encanta a dor.
No silêncio da aurora ou do crepúsculo,
enquanto as águas correm sobre a areia,
mistura-se à folhagem a sua cor,
no êxtase da beleza de ouro puro.
quarta-feira, 25 de abril de 2012
OSTRAS AO VENTO - textos e desenhos de humor
Apresento o livro Ostras ao Vento no Portal Cronópios - Literatura Contemporânea:
http://www.cronopios.com.br/site/poesia.asp?id=5384


http://www.cronopios.com.br/site/poesia.asp?id=5384


terça-feira, 24 de abril de 2012
A DEUSA CAÍDA
A DEUSA CAÍDA
A deusa caída,
mais que
caída, despedaçada.
A deusa no
chão, à sombra do pé de jatobá,
sobre a grama
verde e as folhas secas.
A deusa caída,
e nada mais importa.
A deusa caiu,
que mais poderemos dizer?
O quanto havia
de vida?
O quanto a sua
existência, em si, prenunciava?
A deusa caiu,
com a vida.
Os cacos da
vida no chão, como os cacos da deusa.
O quanto de
nós são cacos,
o quanto de
nós ainda brilha como os cacos?
A indiferença
da deusa caída, despedaçada,
mas com o
braço erguido como quem não se importa
com nada (um
braço, o outro está quebrado – oh, quanto
de nós está
quebrado, no chão ou sob o chão, aos vermes).
O pedestal ao
lado da deusa, caído também.
Vivemos caindo
de nossos pedestais, que também caem.
Os cacos
brilham como estrelas na memória.
Nós
subsistimos, lutando contra o esquecimento.
Evoé!
segunda-feira, 23 de abril de 2012
DIA DO LIVRO
Minha homenagem (quase anti-homenagem,
desculpem) ao Dia do Livro:
O
LIVRO
A tarde era cinza, fria, seca; o Zé
olhava o sol-poente com lágrimas nos olhos.
– O que você fez da sua vida, Zé? – a Cida esbravejava.
A fogueira acesa no quintal; queimavam
os galhos da última árvore; folhas ainda verdes estralavam, no meio da fumaça.
O Zé segura nas mãos negras de carvão
um grosso volume de folhas já amareladas; conclui, por fim:
– Eu queimo o meu livro.
jcmb
sábado, 21 de abril de 2012
sexta-feira, 20 de abril de 2012
O PRÍNCIPE
O PRÍNCIPE
O príncipe é vermelho como
sangue,
ou como o fogo de um rubi ao
sol.
Chama-se príncipe ou verão, e
brilha
incendiando o dia em chama
rubra.
Traz uma capa negra sobre as
costas
e o vermelho no peito e na
cabeça.
Atrás dos olhos uma linha escura
para torná-lo de linhagem única.
Pousa nos galhos finos do
cerrado.
No cio voa como uma borboleta
e canta e dança para a sua fêmea.
O príncipe se torna mais
sanguíneo,
de uma luz ígnea, no êxtase do
amor.
Depois se apaga, sossegado,
no ar.quinta-feira, 19 de abril de 2012
O interrogatório de Rosa Luxemburgo
O interrogatório
De Rosa Luxemburgo
Durou apenas algumas horas. Ela sabia
Tão bem como os seus carcereiros
Que palavras ali já não existiam. Caída
Na batalha
Contra o nervo vital do Estado; banhada
Em sangue
E quase sem sentidos,
Rosa,
Frágil camarada,
Pediu aos caçadores seus assassinos
Agulha e linha. E, silenciosamente,
Com uma pistola apontada à têmpora,
Coseu a bainha da saia que se encontrava
Descosida. Pouco depois
O cadáver
Foi lançado à água.
Casimiro de Brito
quarta-feira, 18 de abril de 2012
RIDENDO CASTIGAT MORES
RIDENDO CASTIGAT MORES
Os falsos
sentimentos são comuns nos seres humanos,
disse o poeta
Joseph Brodsky.
A minha poesia
não deve ser humana,
os seus
sentimentos são tudo menos falsos.
Nada do que é
humano me é estranho,
já dizia o
romano Terêncio.
A minha poesia
é estranha para quem não é humano,
concluo,
mostrando os dentes e as garras.
terça-feira, 17 de abril de 2012
segunda-feira, 16 de abril de 2012
O OURIÇO
O ouriço
eriça-se no vão da cerca
acuado pelo cão, que late, rosna
e fuça e ataca. Aguça as hastes
finas dos seus espinhos, e as aponta
acuado pelo cão, que late, rosna
e fuça e ataca. Aguça as hastes
finas dos seus espinhos, e as aponta
contra o cão tão
cruel que avança e morde,
e fica com a boca cravejada
de farpas afiadas como arpão.
Chora de funda dor o cão ferido.
e fica com a boca cravejada
de farpas afiadas como arpão.
Chora de funda dor o cão ferido.
Os espinhos penetram, rasgam, matam
de dor. Nascemos
para a dor: doemos.
Nascemos para a
morte, mas queremos
a viagem sem fim:
a morte é de outrem.
O cão é
testemunha cega e vã,
sombra feroz à
porta do destino.
O ouriço crispa
e eriça seus espinhos
contra essa fúria desse cão-enigma.sexta-feira, 13 de abril de 2012
A CHUVA, ORAS
A CHUVA, ORAS
Chove lá
fora
como um cachorro.
O mundo não vai acabar
apesar do vulcão.
Quem nos salvará?, perguntamos
como um cachorro.
O mundo não vai acabar
apesar do vulcão.
Quem nos salvará?, perguntamos
e engolimos facas
e biscoitos do improvável.
Que poeira terrível,
que cinza densa me sufoca,
torna-se vidro
e tritura a minha alma?
Vontade de me jogar do alto de uma árvore
para dentro de um lago suave.
Meu barco está ancorado
porque não há timão que o governe
quando navega.
Verlaine,
onde Verlaine entra na história?
Ouço violinos e ciprestes
e pedras e cabras.
É João Cabral chamando-me à realidade?
É Rimbaud com suas aranhas
devorando violetas?
O vento me leva
e eu sei que a poesia
é água furando a pedra dura.
quarta-feira, 11 de abril de 2012
A ARQUITETURA DE UM POEMA
A ARQUITETURA DE UM POEMA
A arquitetura de um poema não é
a arquitetura de um edifício.
O edifício ergue-se no ar com
toda
improbabilidade,
como se fosse desmoronar.
O poema é feito de uma estrutura
concreta: ar e sangue
para, contra todas as probabilidades,
nunca desmoronar.
A arquitetura do edifício do
poema
implode e
levanta-se das próprias cinzas.
segunda-feira, 9 de abril de 2012
O SAPO
O SAPO
O sapo veio da água, como
a vida.
Como chegou do caos até
aqui?
Que misteriosas sendas
percorreu?
As estrelas explodem no
jardim,
o bicho anfíbio busca a
sua forma.
A luta pela vida
continua:
o sapo caça a mosca com a
língua,
a coruja contempla-o com
fascínio
e gula, sob a noite
iluminada.
O sapo foi, com a sua
feiura,
o primeiro dos bichos do
planeta.
Supérstite da Idade do
Carvão,
carrega em sua pele dura
a origem
da existência. Que Deus
conceberia,
do nada, tal horrenda
simetria?
Somos filhos de uma
ancestral vertigem?
quinta-feira, 5 de abril de 2012
terça-feira, 3 de abril de 2012
O CARDEAL
O CARDEAL
Acordo o dia e a vida com a cor
do meu canto. O vermelho contra o branco.
Sofro a dor de existir com a garganta
por um fio. Um espinho sangra a flor.
A manhã azul toda se ilumina.
O galo-da-campina numa orquestra
de pássaros. A música da luz.
No peito chama, clama e açoita a dor.
Amor e dor fulgindo na coroa
da beleza. Eis a vida em plenitude.
O vento me levou, resisti quanto
pude. Nada podemos, quase nada.
O rubro, o branco, o negro conjugados
são a cor da beleza, o brilho e a sombra.
Nós levamos da vida o que vivemos
na nossa luta contra a morte em flor.
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