sexta-feira, 18 de maio de 2012

A BALEIA



 
      A BALEIA


A maldição de Acab não tem fim.
Preso ao ventre da baleia branca,
é preciso matá-la. Por que tanta
miséria, tanto mal? Grita de dor

como possesso. Com o inferno em vida,
convoca a marujada para o périplo.
Fustigamos os mares cor de bronze
em busca da baleia amaldiçoada.

Olha. A baleia é bela como o mal.
Carregamos o belo nas entranhas.
Carregamos o mal nas costas largas.
Disparo o meu arpão contra a desgraça

de viver, talvez de morrer. Não tenho
salvação. O demônio da baleia
me persegue e destrói o meu navio.
Não serei salvo nem com a sua morte. 





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quinta-feira, 17 de maio de 2012

MONTE BRANCO (JASNA GORA)








Monte Branco


Um anjo de palha adormece em meus braços
e sorri como um cão numa gravura antiga.

Longe das ameaçadoras falanges,
eu me deito no húmus quente, entre as folhas úmidas,

e sonho o alto carvalho que sobe ao céu.


terça-feira, 15 de maio de 2012

O LOBO GUARÁ























                                                                                                    Foto: http://serradacanastra.info/page1.aspx




   O LOBO GUARÁ


O lobo guará me olha de soslaio,
disfarça, com os olhos afogueados.
Estranha o medo humano em minha face
e se embrenha entre as pedras da Canastra.

O lobo marcha, alerta, no cerrado.
É senhor deste mundo, uiva, anuncia.
É sua a solidão da noite escura
marcada por seu cheiro e por seu uivo.

Quem vê o lobo fica sem palavras
pelo inaudito viso: tanta força,
beleza e astúcia nele conjugadas.
Saem chispas de fogo de seus olhos.

Quem sou ou serei para que me enfrente?
Por que enfrentar uma fraqueza de homem?
Quem tem, como ele, o dorso de um cavalo?
Quem tem, como ele, a força do leão?






segunda-feira, 14 de maio de 2012

A USINA DE BELO MONTE





 
A USINA DE BELO MONTE


A lei federal nº 2889, em seu art. 1º, qualifica como crime de genocídio:


“Quem,
com a intenção de destruir,
no todo ou em parte,
grupo nacional, étnico, racial ou religioso,

como tal:
a) matar membros do grupo; 
b) causar lesão grave à integridade física ou mental de membros do grupo; 
c) submeter intencionalmente o grupo a condições de existência capazes
de ocasionar-lhe a destruição física total ou parcial; 
d) adotar medidas destinadas a impedir os nascimentos no seio do grupo; 
e) efetuar a transferência forçada de crianças do grupo para outro grupo.” 

O poeta não deve ser legislador, o poeta não deve ser legislador, o poeta não deve 
ser legislador.

O poeta não deveria nem conhecer as leis.




_______

domingo, 13 de maio de 2012

Às mães (O coração do menino)




                       O CORAÇÃO DO MENINO


O menino está na barriga da mãe como um tesouro que ela guarda escondido.

O seu coraçãozinho bate junto do coração da mãe, ansioso, maravilhado.

Aproximei a minha cabeça para ouvi-lo e fiquei apalermado: tanta energia, tanta vontade de viver.

O seu coraçãozinho não batia: galopava. O que eu ouvi foi um galope firme dentro da ventania.

A placenta fazia um barulho como uma ventania, e lá o menino galopava, preparando-se para as ventanias da vida.

Eu não sei o que lhe dizer. Há momentos em que as palavras são vazias, inúteis como flores murchas.

O menino tem três meses, um tamanhinho de nada, e uma bruta disposição para viver.

Ele domina o mundo, com a certeza de que a vida compensa, de que a vida é um milagre.

Eu ouvi o menino bradar, num som de galope, que a vida é bela e que ele caminha para ela, a toda brida, querendo viver.

Eu compreendi que o menino tem asas e voa para além das tempestades, até lá onde mora a origem de todas as coisas.

Eu compreendi a mensagem do menino, nova como a primeira palavra que, vinda do infinito, faz o mundo nascer.

O menino existe para dar luz à escuridão mais fechada.
A sua visão traz a sabedoria essencial do universo.

O poeta é um anjo trôpego batendo numa pedra com seu bordão de andarilho, à espera de uma impossível resposta.

O menino é essa resposta.





sexta-feira, 11 de maio de 2012

O GAVIÃO CARCARÁ

                                                                                                            httpexitintoselvagem.blogspot.com





  O GAVIÃO CARCARÁ


O gavião carcará voa, sobrevoa
os campos amarelos da Canastra.
Tem a face vermelha ao sol, as penas
negras brilham, rebrilham com a luz.

Reina imponente, do alto, com a crista
negra até ao pescoço grosso e branco.
O gavião voa e pousa nas montanhas
solitárias, nas pedras nuas, secas.

Vejo o abismo nos olhos do gavião
e o olhar de Deus, de longe e perto e dentro.
Sinto o medo, o êxtase, o mistério e a morte
nos olhos e nas garras do gavião.

De horizonte a horizonte a luz dos olhos,
além do que a memória e a vista alcançam.
Guardião em repouso ou em voo límpido,
o gavião carcará amplia o mundo.








quinta-feira, 10 de maio de 2012

O GALITO






























O GALITO


O galito é um pássaro minúsculo,
quase invisível contra o céu azul.
Amarelo e cinzento sobre o branco,
se esconde entre os espinhos do cerrado.

Pousado sobre um galho fino de árvore,
ele move o rabinho vertical
como se fosse um leme de avião
e não deitado como em outros pássaros.

Um pássaro raríssimo no dia,
o galito feliz manobra o leme
da cauda, para a esquerda ou a direita,
contra o azul do céu e a mata rala.

Navega como nave preciosa
e que mais se imagina, diminuta,
do que se vê, na luz de um enigma.
A beleza revela-se no mínimo.



"Livro dos bichos", prêmio "Jorge de Lima" da U.B.E. Rio, 2011

             O autor da foto foi o guia que me apresentou o galito, na Serra da Canastra. Obrigado mais uma vez, Zé Maria.




quarta-feira, 9 de maio de 2012

A ÉGUA ARGENTINA






























   A ÉGUA ARGENTINA


Cavalga a égua Argentina para o sonho
da infância esguaritada nos capões
e socavões escuros da memória.
A Argentina me traz menino para

agora. Sou o sol e o sal no lombo
molhado de suor, a passo grave
nas estradas vermelhas do Matão.
Ouça: a sombra cavalga ainda a noite,

a minha sombra de égua e menino.
O meu relincho cruza o tempo e a morte
e galopo nas trilhas orvalhadas
do passado. Sou a égua branca e preta,

sou a Argentina e sua estrela branca
na testa preta. Sou a égua e o menino
encantados. Bebemos a mesma água
e pastamos nas mesmas invernadas.





Um poema de Bernardo Atxaga




A morte e as zebras




Nós éramos 157 zebras
a galopar pela planície ressequida,
eu corria atrás das zebras 24,
25 e 26,
à frente da 61 e da 62
e de súbito fomos ultrapassadas com um salto
pela 118 e a 119,
ambas a gritar rio, rio,
e a 25, muito feliz, repetiu rio, rio,
e de súbito a 130 alcançou-nos
a correr e a gritar, muito feliz, rio, rio,
e a 25 deu uma guinada à esquerda
à frente da 24 e da 26
e de súbito eu vi o sol no rio cintilante
cheio de salpicos faíscantes
e a 8 e a 9 passaram por mim
a correr na direcção contrária
com as suas bocas cheias de água
e as pernas molhadas e os peitos molhados,
muito felizes, a gritar, vamos, vamos, vamos,
e eu de súbito colidi com a 5 e a 7
que também vinham a correr na direcção contrária
mas a gritar crocodilo, crocodilo,
e então a 6 e a 30 e a 14 passaram por nós
muito assustadas, a gritar, crocodilo, crocodilo, vamos, vamos, vamos,
e eu bebi água, bebi água cintilante
cheia de salpicos faíscantes e sol,
crocodilo, crocodilo, gritou a 25, muito assustada,
crocodilo, repeti eu, voltando para trás;
e correndo muito assustada na direcção contrária
colidi de súbito com a 149
e a 150 e a 151
que vinham a correr e a gritar, muito felizes, rio, rio,
crocodilos, crocodilos, gritei-lhes eu, muito assustada
com a minha boca cheia de água
e as pernas molhadas e o peito molhado.
Continuei a galopar pela planície ressequida
atrás da 24 e da 26
à frente da 60 e da 61
e de súbito vi, de súbito vi um espaço
entre a 24 e a 26, um espaço
e continuei a galopar pela planície ressequida
e de novo vi o espaço, de novo o espaço,
entre a 24 e a 26
e de súbito saltei e preenchi o espaço.


Nós éramos 149 zebras
a galopar pela planície ressequida,
e à minha frente estavam a 12, a 13
e a 14, e atrás de mim
a 43 e a 44.


Bernardo Atxaga (poeta basco que devíamos conhecer mais)
Tradução de Luís Filipe Parrado.




segunda-feira, 7 de maio de 2012

HAICAIS DO MAR AO PAVÃO




Ouvi o mar gargalhar
sob o céu de chumbo
e o vento abrupto.

Olho o peito e a bunda
da menina molhada
entro em êxtase.

O gato miava
para a lua branca e cinza
pensava que era uma gata?

As folhas caem
com o ouro do outono
nas penas do pavão.




quinta-feira, 3 de maio de 2012

MARINHA





























MARINHA


Súbito, o azul do céu e o azul do mar.
Uma gaivota passa
entre a areia da praia e o céu azul.
Um corpo boia na água, respira.

Um relâmpago ilumina a montanha.
O homem nada, flutua de leve.
Uma borboleta beija o chão.

Impossível não pensar na morte. 




quarta-feira, 2 de maio de 2012

O ROSEIRAL



























UM ROSEIRAL


A palavra é uma rosa encantada.
O poema é um roseiral.

A morte é uma lagarta
com fome e resignação.

As pétalas amam o fogo do sol,
as abelhas amam o ouro do néctar.

Tenho tanta sede, é preciso partir.
Uma formiga solitária me espera.





terça-feira, 1 de maio de 2012

TRABALHADORES DO BRASIL – Wander Piroli



     O homem estava sentado num tamborete rústico, com os joelhos cruzados e a cabeça baixa. À sua direita havia uma mesinha de desarmar, entulhada de lápis de vários tipos e cores, folhas de papel em branco, borrachas, tesoura e um pouco de estopa. Havia ainda uma tabuleta em cima da pequena mesa, apoiando-se na pilastra onde estavam expostos seus trabalhos: fotografias coloridas de grandes personalidades e caricaturas também de grandes personalidades.
     Nem sequer a chegada do bonde fez o homem levantar a cabeça. Trabalhava variando de lápis calmamente, como se não tivesse nenhuma pressa ou mesmo não desejasse terminar o serviço. Getúlio na foto continuava sorrindo para o homem com um de seus melhores sorrisos.
Uma mulher esturrada, de alpargata e vestido muito largo, aproximou-se e parou à sua frente. O homem levantou a cabeça:
-- Você, Maria.
    Ela moveu o rosto com dificuldade e fez o possível para sorrir, fixando atenta e profundamente a cara do homem.
-- Aconteceu alguma coisa?
-- Não – murmurou a mulher.
O homem pôs a fotografia e o lápis na mesa e esperou que a mulher falasse. Olhavam-se como duas pessoas de intensa convivência.
-- Não houve mesmo nada? – tornou o homem.
-- Claro que não, Zé. Eu vim à toa.
-- E os meninos?
-- Mamãe está com eles.
-- Como é que você arranjou para chegar até aqui?
-- Uai, eu vim.
-- A pé? Você não devia ter vindo, Maria. Estou achando que houve alguma coisa.
-- Não teve nada, não. Mamãe chegou lá em casa e então eu aproveitei para dar um pulo até aqui.
-- Ah – o homem sorriu. E uma onda de carinho, quase imperceptível, assomou-lhe o rosto lento e sofrido.
-- Fez alguma coisa hoje, Zé?
-- Fiz um – respondeu levantando-se. – Senta aqui. Você deve estar cansada.
A mulher sentou no tamborete, desajeitada.
-- Você não devia ter vindo, Maria – disse o homem.
-- Eu sei, mas me deu vontade. Mamãe ficou lá com os meninos.
-- Mas ela não estava doente?
-- Você sabe como mamãe é.
-- E o Tonhinho?
-- Está lá.
-- O carnegão saiu?
     A mulher fez sim com a cabeça e em seguida olhou para o abrigo, onde havia pequenas lojas de frutas, café, pastelaria.
-- Espera um pouquinho aí – disse o homem, e caminhou na direção de uma das lojas.
A mulher permaneceu sentada no tamborete, observou por um momento o vendedor de agulhas, que continuava gritando, depois deteve a vista na foto de Getúlio Vargas sorrindo para os trabalhadores do Brasil. O homem reapareceu com um saquinho manchado de gordura.
-- Esses pastéis.
-- Oh, Zé, para que você fez isso?
-- Vamos, come um.
-- Você não devia ter comprado.
-- Vamos.
     A mulher retirou um pastelzinho do saco e começou a mastigá-lo com muito prazer.
-- Come o outro, Zé.
-- Já comi uns dois hoje. Esse outro também é seu.
-- Então eu vou levar ele pros meninos.
-- É pior, Maria.
O homem ficou de pé, ao lado da mulher, observando-a comer o segundo pastel. A mulher acabou de comer, limpou a boca na manga do vestido e fez menção de levantar-se:
-- Fica aqui, Zé. Pode aparecer alguém.
-- Não, eu passei a manhã toda assentado.
      A mulher sentada e o homem em pé conservaram-se silenciosos durante um breve e ao mesmo tempo longo momento, ora olhando um para o outro, ora cada um olhando as pessoas agora espalhadas no abrigo ou não olhando coisa nenhuma. A mulher se ergueu:
-- Acho que eu vou andando.
-- Já vai?
-- Mamãe não aguenta eles, você sabe.
-- Ah, é mesmo. Você não devia ter vindo.
O homem tirou uma nota de dentro do bolso do paletó e estendeu-a para a mulher.
-- Volta de bonde.
-- Não, Zé.
-- É muito longe, criatura.
-- Não.
-- Ora, minha nega
-- A mulher pegou o dinheiro com a mão indecisa.
-- Vou ver se levo.
      O homem assentiu com a cabeça, abriu a boca mas não disse nada. A mulher desviou o rosto e piscou os olhos várias vezes.
-- Não chega tarde não, viu, Zé.
-- Chego não.
-- Você vai fazer.
-- Hoje eu sei que vai melhorar.
-- Vai sim, Zé. Eu seu que vai. Eu sei.
A mulher se afastou rapidamente, sem voltar o rosto. O homem empinou-se um pouco para vê-la atravessar a rua. Depois sentou no tamborete e pegou um lápis e o retrato.
    Durante muito tempo o homem permaneceu com a cabeça baixa, imóvel dentro de sua ilha, curvado sobre a foto que mostrava o presidente morto com aquele sorriso de seus melhores dias.

Wander Piroli - 1931 - 2006
Obras do autor:
Adulto: A Mãe e o Filho da Mãe ( 1966)
A Máquina de Fazer Amor (1980)
Minha Bela Putana (1985)
Nem Pai Educa filho (1998)
Os Melhores Contos de Wander Piroli (1996)

Infantil: O Menino e o Pinto do Menino ( 1975)
Os Rios Morrem de Sede (1973)
Macacos Me Mordam ( 1978)
Os Dois Irmãos (1980)
É Proibido Comer Grama
Para Pegar Bagre de Dia...




sábado, 28 de abril de 2012

A GRALHA



























 
A GRALHA


Eu vi a gralha no alto da araucária,
eu ouvi a gralha contra o céu azul.
Eu ouvi os catorze gritos nítidos
da gralha azul com seus bandos e clãs.

Eu vi a gralha construindo o ninho
sobre a coroa no alto da araucária,
estocando os pinhões nos troncos podres
ou encravando-os nas raízes soltas.

A araucária balança-se no vento
e voa e dança com as nuvens brancas.
A gralha voou de galho em galho
e riscou o seu grito contra o céu.

A gralha azul inventa o céu azul
e grita anunciando o seu domínio.
A gralha é absoluta na paisagem,
pousada no seu trono na araucária.







quinta-feira, 26 de abril de 2012

O udu




         O UDU


O udu-de-coroa-azul pousou
na árvore solitária à beira d’ água.
Saltita irrequieto de um galho a outro,
vigiando o seu ninho na areia.

Move a coroa negra na cabeça
sobre uma leve faixa roxa e azul.
Move o verde brilhante da plumagem,
o peito e o ventre são um sol dourado.

O udu na árvore canta grave: Udu!
Traz o nome no som do próprio canto.
É um mistério a sua presença verde.
O encanto da sua cor encanta a dor.

No silêncio da aurora ou do crepúsculo,
enquanto as águas correm sobre a areia,
mistura-se à folhagem a sua cor,
no êxtase da beleza de ouro puro.






terça-feira, 24 de abril de 2012

A DEUSA CAÍDA





                                   A DEUSA CAÍDA

A deusa caída,
mais que caída, despedaçada.
A deusa no chão, à sombra do pé de jatobá,
sobre a grama verde e as folhas secas.

A deusa caída, e nada mais importa.
A deusa caiu, que mais poderemos dizer?
O quanto havia de vida?
O quanto a sua existência, em si, prenunciava?
A deusa caiu, com a vida.

Os cacos da vida no chão, como os cacos da deusa.
O quanto de nós são cacos,
o quanto de nós ainda brilha como os cacos?
A indiferença da deusa caída, despedaçada,
mas com o braço erguido como quem não se importa
com nada (um braço, o outro está quebrado – oh, quanto
de nós está quebrado, no chão ou sob o chão, aos vermes).

O pedestal ao lado da deusa, caído também.
Vivemos caindo de nossos pedestais, que também caem.
Os cacos brilham como estrelas na memória.
Nós subsistimos, lutando contra o esquecimento.
Evoé!





segunda-feira, 23 de abril de 2012

DIA DO LIVRO


Minha homenagem (quase anti-homenagem, desculpem) ao Dia do Livro:



O LIVRO

         A tarde era cinza, fria, seca; o Zé olhava o sol-poente com lágrimas nos olhos.
– O que você fez da sua vida, Zé? – a Cida esbravejava.
         A fogueira acesa no quintal; queimavam os galhos da última árvore; folhas ainda verdes estralavam, no meio da fumaça.
         O Zé segura nas mãos negras de carvão um grosso volume de folhas já amareladas; conclui, por fim:
         – Eu queimo o meu livro.

                                                                                                                                                            jcmb





sábado, 21 de abril de 2012

PELICANO


                                         
                                  Abro o peito para o meu filho, o poema.





sexta-feira, 20 de abril de 2012

O PRÍNCIPE






























       O PRÍNCIPE



O príncipe é vermelho como sangue,
ou como o fogo de um rubi ao sol.
Chama-se príncipe ou verão, e brilha
incendiando o dia em chama rubra.

Traz uma capa negra sobre as costas
e o vermelho no peito e na cabeça.
Atrás dos olhos uma linha escura
para torná-lo de linhagem única.

Pousa nos galhos finos do cerrado.
No cio voa como uma borboleta
e canta e dança para a sua fêmea.

O príncipe se torna mais sanguíneo,
de uma luz ígnea, no êxtase do amor.
                                   Depois se apaga, sossegado, no ar.





quinta-feira, 19 de abril de 2012

O interrogatório de Rosa Luxemburgo




O interrogatório
De Rosa Luxemburgo
Durou apenas algumas horas. Ela sabia
Tão bem como os seus carcereiros
Que palavras ali já não existiam. Caída
Na batalha
Contra o nervo vital do Estado; banhada
Em sangue
E quase sem sentidos,
Rosa,
Frágil camarada,
Pediu aos caçadores seus assassinos
Agulha e linha. E, silenciosamente,
Com uma pistola apontada à têmpora,
Coseu a bainha da saia que se encontrava
Descosida. Pouco depois
O cadáver
Foi lançado à água.

Casimiro de Brito




quarta-feira, 18 de abril de 2012

RIDENDO CASTIGAT MORES




RIDENDO CASTIGAT MORES


Os falsos sentimentos são comuns nos seres humanos,
disse o poeta Joseph Brodsky.

A minha poesia não deve ser humana,
os seus sentimentos são tudo menos falsos.

Nada do que é humano me é estranho,
já dizia o romano Terêncio.

A minha poesia é estranha para quem não é humano,
concluo, mostrando os dentes e as garras.


 

terça-feira, 17 de abril de 2012

A EVOLUÇÃO DE RAUL SEIXAS A MILLÔR FERNANDES




A EVOLUÇÃO DE RAUL SEIXAS
       A MILLÔR FERNANDES


A evolução das espécies segundo Raul Seixas
e Millôr Fernandes

tem o seu princípio na mosca,
passa pelo coelho

e deságua no homem – apenas mais um elo
mal resolvido da história.




segunda-feira, 16 de abril de 2012

O OURIÇO



O ouriço eriça-se no vão da cerca
acuado pelo cão, que late, rosna
e fuça e ataca. Aguça as hastes
finas dos seus espinhos, e as aponta

contra o cão tão cruel que avança e morde,
e fica com a boca cravejada
de farpas afiadas como arpão.
Chora de funda dor o cão ferido.

Os espinhos penetram, rasgam, matam
de dor. Nascemos para a dor: doemos.
Nascemos para a morte, mas queremos
a viagem sem fim: a morte é de outrem.

O cão é testemunha cega e vã,
sombra feroz à porta do destino.
O ouriço crispa e eriça seus espinhos
            contra essa fúria desse cão-enigma.




sexta-feira, 13 de abril de 2012

A CHUVA, ORAS








                              



                            A CHUVA, ORAS


Chove lá fora
como um cachorro.
O mundo não vai acabar
apesar do vulcão.
Quem nos salvará?, perguntamos


e engolimos facas
e biscoitos do improvável.
Que poeira terrível,
que cinza densa me sufoca,
torna-se vidro


e tritura a minha alma?
Vontade de me jogar do alto de uma árvore
para dentro de um lago suave.
Meu barco está ancorado
porque não há timão que o governe


quando navega.
Verlaine,
onde Verlaine entra na história?
Ouço violinos e ciprestes
e pedras e cabras.


É João Cabral chamando-me à realidade?
É Rimbaud com suas aranhas
devorando violetas?
O vento me leva
e eu sei que a poesia


é água furando a pedra dura.





quarta-feira, 11 de abril de 2012

A ARQUITETURA DE UM POEMA





A ARQUITETURA DE UM POEMA


A arquitetura de um poema não é
a arquitetura de um edifício.
O edifício ergue-se no ar com toda
improbabilidade,
como se fosse desmoronar.
O poema é feito de uma estrutura
concreta: ar e sangue
para, contra todas as probabilidades,
nunca desmoronar.
A arquitetura do edifício do poema
implode e
levanta-se das próprias cinzas. 





segunda-feira, 9 de abril de 2012

O SAPO





O SAPO


O sapo veio da água, como a vida.
Como chegou do caos até aqui?
Que misteriosas sendas percorreu?
As estrelas explodem no jardim,

o bicho anfíbio busca a sua forma.
A luta pela vida continua:
o sapo caça a mosca com a língua,
a coruja contempla-o com fascínio

e gula, sob a noite iluminada.
O sapo foi, com a sua feiura,
o primeiro dos bichos do planeta.
Supérstite da Idade do Carvão,

carrega em sua pele dura a origem
da existência. Que Deus conceberia,
do nada, tal horrenda simetria?
Somos filhos de uma ancestral vertigem?






quinta-feira, 5 de abril de 2012

BORGES E PERON





BORGES E PERON


Quando Peron voltou ao poder
Borges despedido da Biblioteca Nacional

e nomeado para o cargo de inspetor de galinhas
disse dele É um miserável


Quando Peron pouco depois morreu
Borges disse dele É um miserável morto









terça-feira, 3 de abril de 2012

O CARDEAL





       O CARDEAL


Acordo o dia e a vida com a cor
do meu canto. O vermelho contra o branco.
Sofro a dor de existir com a garganta
por um fio. Um espinho sangra a flor.

A manhã azul toda se ilumina.
O galo-da-campina numa orquestra
de pássaros. A música da luz.
No peito chama, clama e açoita a dor.

Amor e dor fulgindo na coroa
da beleza. Eis a vida em plenitude.
O vento me levou, resisti quanto
pude. Nada podemos, quase nada.

O rubro, o branco, o negro conjugados
são a cor da beleza, o brilho e a sombra.
Nós levamos da vida o que vivemos
na nossa luta contra a morte em flor.



domingo, 1 de abril de 2012

O UIRAPURU



O uirapuru é pássaro esquisito,
por exilar-se no seu próprio canto.
O seu voo com as árvores confunde-se,
o canto é o que fica do que passa.

Esse pássaro, como o conhecemos,
a sua imagem rara, quase mítica,
nasce do canto e perde-se no canto
e é memória do canto nunca findo.

O uirapuru disfarça-se de flor,
com pétalas douradas e uma estrela
no cinzento das costas, um sol lírico,
em sua concha cria a luz da dor.

O uirapuru se inclina para o rio:
é a pérola oculta na paisagem
e embala o silêncio da prata d’água,
fechando e abrindo o dia com seu canto.



­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­__________



Quando eu iniciei o ginásio (há uns longínquos cinquentas anos), no livro de Português. havia um soneto de Humberto de Campos, “O uirapuru”. Havia algo de... poético, nesse soneto, que descobri que quase o sabia de cor ainda hoje: 

 
"Dizem que o Uirapuru, quando desata
A voz, Orfeu do seringal tranqüilo
O passaredo, rápido, a segui-lo
Em derredor agrupa-se na mata.

Quando o canto, veloz, muda em cascata
Tudo se queda, comovido a ouvi-lo:
O mais nobre sabiá surta a sonata
O canário menor cessa o pipilo.

Eu próprio sei quanto esse canto é suave
O que, porém, me faz cismar bem fundo
Não é, por si, o alto poder dessa ave.

O que mais no fenômeno me espanta
É ainda existir um pássaro no mundo
Que fique a escutar quando outro canta!"


Como eu estava escrevendo o meu “Livro dos bichos”, pesquisei e soube que o uirapuru é um pouco diferente da lenda e desse soneto. Então, escrevi o poema acima.