quarta-feira, 9 de maio de 2012

Um poema de Bernardo Atxaga




A morte e as zebras




Nós éramos 157 zebras
a galopar pela planície ressequida,
eu corria atrás das zebras 24,
25 e 26,
à frente da 61 e da 62
e de súbito fomos ultrapassadas com um salto
pela 118 e a 119,
ambas a gritar rio, rio,
e a 25, muito feliz, repetiu rio, rio,
e de súbito a 130 alcançou-nos
a correr e a gritar, muito feliz, rio, rio,
e a 25 deu uma guinada à esquerda
à frente da 24 e da 26
e de súbito eu vi o sol no rio cintilante
cheio de salpicos faíscantes
e a 8 e a 9 passaram por mim
a correr na direcção contrária
com as suas bocas cheias de água
e as pernas molhadas e os peitos molhados,
muito felizes, a gritar, vamos, vamos, vamos,
e eu de súbito colidi com a 5 e a 7
que também vinham a correr na direcção contrária
mas a gritar crocodilo, crocodilo,
e então a 6 e a 30 e a 14 passaram por nós
muito assustadas, a gritar, crocodilo, crocodilo, vamos, vamos, vamos,
e eu bebi água, bebi água cintilante
cheia de salpicos faíscantes e sol,
crocodilo, crocodilo, gritou a 25, muito assustada,
crocodilo, repeti eu, voltando para trás;
e correndo muito assustada na direcção contrária
colidi de súbito com a 149
e a 150 e a 151
que vinham a correr e a gritar, muito felizes, rio, rio,
crocodilos, crocodilos, gritei-lhes eu, muito assustada
com a minha boca cheia de água
e as pernas molhadas e o peito molhado.
Continuei a galopar pela planície ressequida
atrás da 24 e da 26
à frente da 60 e da 61
e de súbito vi, de súbito vi um espaço
entre a 24 e a 26, um espaço
e continuei a galopar pela planície ressequida
e de novo vi o espaço, de novo o espaço,
entre a 24 e a 26
e de súbito saltei e preenchi o espaço.


Nós éramos 149 zebras
a galopar pela planície ressequida,
e à minha frente estavam a 12, a 13
e a 14, e atrás de mim
a 43 e a 44.


Bernardo Atxaga (poeta basco que devíamos conhecer mais)
Tradução de Luís Filipe Parrado.




segunda-feira, 7 de maio de 2012

HAICAIS DO MAR AO PAVÃO




Ouvi o mar gargalhar
sob o céu de chumbo
e o vento abrupto.

Olho o peito e a bunda
da menina molhada
entro em êxtase.

O gato miava
para a lua branca e cinza
pensava que era uma gata?

As folhas caem
com o ouro do outono
nas penas do pavão.




quinta-feira, 3 de maio de 2012

MARINHA





























MARINHA


Súbito, o azul do céu e o azul do mar.
Uma gaivota passa
entre a areia da praia e o céu azul.
Um corpo boia na água, respira.

Um relâmpago ilumina a montanha.
O homem nada, flutua de leve.
Uma borboleta beija o chão.

Impossível não pensar na morte. 




quarta-feira, 2 de maio de 2012

O ROSEIRAL



























UM ROSEIRAL


A palavra é uma rosa encantada.
O poema é um roseiral.

A morte é uma lagarta
com fome e resignação.

As pétalas amam o fogo do sol,
as abelhas amam o ouro do néctar.

Tenho tanta sede, é preciso partir.
Uma formiga solitária me espera.





terça-feira, 1 de maio de 2012

TRABALHADORES DO BRASIL – Wander Piroli



     O homem estava sentado num tamborete rústico, com os joelhos cruzados e a cabeça baixa. À sua direita havia uma mesinha de desarmar, entulhada de lápis de vários tipos e cores, folhas de papel em branco, borrachas, tesoura e um pouco de estopa. Havia ainda uma tabuleta em cima da pequena mesa, apoiando-se na pilastra onde estavam expostos seus trabalhos: fotografias coloridas de grandes personalidades e caricaturas também de grandes personalidades.
     Nem sequer a chegada do bonde fez o homem levantar a cabeça. Trabalhava variando de lápis calmamente, como se não tivesse nenhuma pressa ou mesmo não desejasse terminar o serviço. Getúlio na foto continuava sorrindo para o homem com um de seus melhores sorrisos.
Uma mulher esturrada, de alpargata e vestido muito largo, aproximou-se e parou à sua frente. O homem levantou a cabeça:
-- Você, Maria.
    Ela moveu o rosto com dificuldade e fez o possível para sorrir, fixando atenta e profundamente a cara do homem.
-- Aconteceu alguma coisa?
-- Não – murmurou a mulher.
O homem pôs a fotografia e o lápis na mesa e esperou que a mulher falasse. Olhavam-se como duas pessoas de intensa convivência.
-- Não houve mesmo nada? – tornou o homem.
-- Claro que não, Zé. Eu vim à toa.
-- E os meninos?
-- Mamãe está com eles.
-- Como é que você arranjou para chegar até aqui?
-- Uai, eu vim.
-- A pé? Você não devia ter vindo, Maria. Estou achando que houve alguma coisa.
-- Não teve nada, não. Mamãe chegou lá em casa e então eu aproveitei para dar um pulo até aqui.
-- Ah – o homem sorriu. E uma onda de carinho, quase imperceptível, assomou-lhe o rosto lento e sofrido.
-- Fez alguma coisa hoje, Zé?
-- Fiz um – respondeu levantando-se. – Senta aqui. Você deve estar cansada.
A mulher sentou no tamborete, desajeitada.
-- Você não devia ter vindo, Maria – disse o homem.
-- Eu sei, mas me deu vontade. Mamãe ficou lá com os meninos.
-- Mas ela não estava doente?
-- Você sabe como mamãe é.
-- E o Tonhinho?
-- Está lá.
-- O carnegão saiu?
     A mulher fez sim com a cabeça e em seguida olhou para o abrigo, onde havia pequenas lojas de frutas, café, pastelaria.
-- Espera um pouquinho aí – disse o homem, e caminhou na direção de uma das lojas.
A mulher permaneceu sentada no tamborete, observou por um momento o vendedor de agulhas, que continuava gritando, depois deteve a vista na foto de Getúlio Vargas sorrindo para os trabalhadores do Brasil. O homem reapareceu com um saquinho manchado de gordura.
-- Esses pastéis.
-- Oh, Zé, para que você fez isso?
-- Vamos, come um.
-- Você não devia ter comprado.
-- Vamos.
     A mulher retirou um pastelzinho do saco e começou a mastigá-lo com muito prazer.
-- Come o outro, Zé.
-- Já comi uns dois hoje. Esse outro também é seu.
-- Então eu vou levar ele pros meninos.
-- É pior, Maria.
O homem ficou de pé, ao lado da mulher, observando-a comer o segundo pastel. A mulher acabou de comer, limpou a boca na manga do vestido e fez menção de levantar-se:
-- Fica aqui, Zé. Pode aparecer alguém.
-- Não, eu passei a manhã toda assentado.
      A mulher sentada e o homem em pé conservaram-se silenciosos durante um breve e ao mesmo tempo longo momento, ora olhando um para o outro, ora cada um olhando as pessoas agora espalhadas no abrigo ou não olhando coisa nenhuma. A mulher se ergueu:
-- Acho que eu vou andando.
-- Já vai?
-- Mamãe não aguenta eles, você sabe.
-- Ah, é mesmo. Você não devia ter vindo.
O homem tirou uma nota de dentro do bolso do paletó e estendeu-a para a mulher.
-- Volta de bonde.
-- Não, Zé.
-- É muito longe, criatura.
-- Não.
-- Ora, minha nega
-- A mulher pegou o dinheiro com a mão indecisa.
-- Vou ver se levo.
      O homem assentiu com a cabeça, abriu a boca mas não disse nada. A mulher desviou o rosto e piscou os olhos várias vezes.
-- Não chega tarde não, viu, Zé.
-- Chego não.
-- Você vai fazer.
-- Hoje eu sei que vai melhorar.
-- Vai sim, Zé. Eu seu que vai. Eu sei.
A mulher se afastou rapidamente, sem voltar o rosto. O homem empinou-se um pouco para vê-la atravessar a rua. Depois sentou no tamborete e pegou um lápis e o retrato.
    Durante muito tempo o homem permaneceu com a cabeça baixa, imóvel dentro de sua ilha, curvado sobre a foto que mostrava o presidente morto com aquele sorriso de seus melhores dias.

Wander Piroli - 1931 - 2006
Obras do autor:
Adulto: A Mãe e o Filho da Mãe ( 1966)
A Máquina de Fazer Amor (1980)
Minha Bela Putana (1985)
Nem Pai Educa filho (1998)
Os Melhores Contos de Wander Piroli (1996)

Infantil: O Menino e o Pinto do Menino ( 1975)
Os Rios Morrem de Sede (1973)
Macacos Me Mordam ( 1978)
Os Dois Irmãos (1980)
É Proibido Comer Grama
Para Pegar Bagre de Dia...




sábado, 28 de abril de 2012

A GRALHA



























 
A GRALHA


Eu vi a gralha no alto da araucária,
eu ouvi a gralha contra o céu azul.
Eu ouvi os catorze gritos nítidos
da gralha azul com seus bandos e clãs.

Eu vi a gralha construindo o ninho
sobre a coroa no alto da araucária,
estocando os pinhões nos troncos podres
ou encravando-os nas raízes soltas.

A araucária balança-se no vento
e voa e dança com as nuvens brancas.
A gralha voou de galho em galho
e riscou o seu grito contra o céu.

A gralha azul inventa o céu azul
e grita anunciando o seu domínio.
A gralha é absoluta na paisagem,
pousada no seu trono na araucária.







quinta-feira, 26 de abril de 2012

O udu




         O UDU


O udu-de-coroa-azul pousou
na árvore solitária à beira d’ água.
Saltita irrequieto de um galho a outro,
vigiando o seu ninho na areia.

Move a coroa negra na cabeça
sobre uma leve faixa roxa e azul.
Move o verde brilhante da plumagem,
o peito e o ventre são um sol dourado.

O udu na árvore canta grave: Udu!
Traz o nome no som do próprio canto.
É um mistério a sua presença verde.
O encanto da sua cor encanta a dor.

No silêncio da aurora ou do crepúsculo,
enquanto as águas correm sobre a areia,
mistura-se à folhagem a sua cor,
no êxtase da beleza de ouro puro.






terça-feira, 24 de abril de 2012

A DEUSA CAÍDA





                                   A DEUSA CAÍDA

A deusa caída,
mais que caída, despedaçada.
A deusa no chão, à sombra do pé de jatobá,
sobre a grama verde e as folhas secas.

A deusa caída, e nada mais importa.
A deusa caiu, que mais poderemos dizer?
O quanto havia de vida?
O quanto a sua existência, em si, prenunciava?
A deusa caiu, com a vida.

Os cacos da vida no chão, como os cacos da deusa.
O quanto de nós são cacos,
o quanto de nós ainda brilha como os cacos?
A indiferença da deusa caída, despedaçada,
mas com o braço erguido como quem não se importa
com nada (um braço, o outro está quebrado – oh, quanto
de nós está quebrado, no chão ou sob o chão, aos vermes).

O pedestal ao lado da deusa, caído também.
Vivemos caindo de nossos pedestais, que também caem.
Os cacos brilham como estrelas na memória.
Nós subsistimos, lutando contra o esquecimento.
Evoé!





segunda-feira, 23 de abril de 2012

DIA DO LIVRO


Minha homenagem (quase anti-homenagem, desculpem) ao Dia do Livro:



O LIVRO

         A tarde era cinza, fria, seca; o Zé olhava o sol-poente com lágrimas nos olhos.
– O que você fez da sua vida, Zé? – a Cida esbravejava.
         A fogueira acesa no quintal; queimavam os galhos da última árvore; folhas ainda verdes estralavam, no meio da fumaça.
         O Zé segura nas mãos negras de carvão um grosso volume de folhas já amareladas; conclui, por fim:
         – Eu queimo o meu livro.

                                                                                                                                                            jcmb





sábado, 21 de abril de 2012

PELICANO


                                         
                                  Abro o peito para o meu filho, o poema.





sexta-feira, 20 de abril de 2012

O PRÍNCIPE






























       O PRÍNCIPE



O príncipe é vermelho como sangue,
ou como o fogo de um rubi ao sol.
Chama-se príncipe ou verão, e brilha
incendiando o dia em chama rubra.

Traz uma capa negra sobre as costas
e o vermelho no peito e na cabeça.
Atrás dos olhos uma linha escura
para torná-lo de linhagem única.

Pousa nos galhos finos do cerrado.
No cio voa como uma borboleta
e canta e dança para a sua fêmea.

O príncipe se torna mais sanguíneo,
de uma luz ígnea, no êxtase do amor.
                                   Depois se apaga, sossegado, no ar.





quinta-feira, 19 de abril de 2012

O interrogatório de Rosa Luxemburgo




O interrogatório
De Rosa Luxemburgo
Durou apenas algumas horas. Ela sabia
Tão bem como os seus carcereiros
Que palavras ali já não existiam. Caída
Na batalha
Contra o nervo vital do Estado; banhada
Em sangue
E quase sem sentidos,
Rosa,
Frágil camarada,
Pediu aos caçadores seus assassinos
Agulha e linha. E, silenciosamente,
Com uma pistola apontada à têmpora,
Coseu a bainha da saia que se encontrava
Descosida. Pouco depois
O cadáver
Foi lançado à água.

Casimiro de Brito




quarta-feira, 18 de abril de 2012

RIDENDO CASTIGAT MORES




RIDENDO CASTIGAT MORES


Os falsos sentimentos são comuns nos seres humanos,
disse o poeta Joseph Brodsky.

A minha poesia não deve ser humana,
os seus sentimentos são tudo menos falsos.

Nada do que é humano me é estranho,
já dizia o romano Terêncio.

A minha poesia é estranha para quem não é humano,
concluo, mostrando os dentes e as garras.


 

terça-feira, 17 de abril de 2012

A EVOLUÇÃO DE RAUL SEIXAS A MILLÔR FERNANDES




A EVOLUÇÃO DE RAUL SEIXAS
       A MILLÔR FERNANDES


A evolução das espécies segundo Raul Seixas
e Millôr Fernandes

tem o seu princípio na mosca,
passa pelo coelho

e deságua no homem – apenas mais um elo
mal resolvido da história.




segunda-feira, 16 de abril de 2012

O OURIÇO



O ouriço eriça-se no vão da cerca
acuado pelo cão, que late, rosna
e fuça e ataca. Aguça as hastes
finas dos seus espinhos, e as aponta

contra o cão tão cruel que avança e morde,
e fica com a boca cravejada
de farpas afiadas como arpão.
Chora de funda dor o cão ferido.

Os espinhos penetram, rasgam, matam
de dor. Nascemos para a dor: doemos.
Nascemos para a morte, mas queremos
a viagem sem fim: a morte é de outrem.

O cão é testemunha cega e vã,
sombra feroz à porta do destino.
O ouriço crispa e eriça seus espinhos
            contra essa fúria desse cão-enigma.




sexta-feira, 13 de abril de 2012

A CHUVA, ORAS








                              



                            A CHUVA, ORAS


Chove lá fora
como um cachorro.
O mundo não vai acabar
apesar do vulcão.
Quem nos salvará?, perguntamos


e engolimos facas
e biscoitos do improvável.
Que poeira terrível,
que cinza densa me sufoca,
torna-se vidro


e tritura a minha alma?
Vontade de me jogar do alto de uma árvore
para dentro de um lago suave.
Meu barco está ancorado
porque não há timão que o governe


quando navega.
Verlaine,
onde Verlaine entra na história?
Ouço violinos e ciprestes
e pedras e cabras.


É João Cabral chamando-me à realidade?
É Rimbaud com suas aranhas
devorando violetas?
O vento me leva
e eu sei que a poesia


é água furando a pedra dura.





quarta-feira, 11 de abril de 2012

A ARQUITETURA DE UM POEMA





A ARQUITETURA DE UM POEMA


A arquitetura de um poema não é
a arquitetura de um edifício.
O edifício ergue-se no ar com toda
improbabilidade,
como se fosse desmoronar.
O poema é feito de uma estrutura
concreta: ar e sangue
para, contra todas as probabilidades,
nunca desmoronar.
A arquitetura do edifício do poema
implode e
levanta-se das próprias cinzas. 





segunda-feira, 9 de abril de 2012

O SAPO





O SAPO


O sapo veio da água, como a vida.
Como chegou do caos até aqui?
Que misteriosas sendas percorreu?
As estrelas explodem no jardim,

o bicho anfíbio busca a sua forma.
A luta pela vida continua:
o sapo caça a mosca com a língua,
a coruja contempla-o com fascínio

e gula, sob a noite iluminada.
O sapo foi, com a sua feiura,
o primeiro dos bichos do planeta.
Supérstite da Idade do Carvão,

carrega em sua pele dura a origem
da existência. Que Deus conceberia,
do nada, tal horrenda simetria?
Somos filhos de uma ancestral vertigem?






quinta-feira, 5 de abril de 2012

BORGES E PERON





BORGES E PERON


Quando Peron voltou ao poder
Borges despedido da Biblioteca Nacional

e nomeado para o cargo de inspetor de galinhas
disse dele É um miserável


Quando Peron pouco depois morreu
Borges disse dele É um miserável morto









terça-feira, 3 de abril de 2012

O CARDEAL





       O CARDEAL


Acordo o dia e a vida com a cor
do meu canto. O vermelho contra o branco.
Sofro a dor de existir com a garganta
por um fio. Um espinho sangra a flor.

A manhã azul toda se ilumina.
O galo-da-campina numa orquestra
de pássaros. A música da luz.
No peito chama, clama e açoita a dor.

Amor e dor fulgindo na coroa
da beleza. Eis a vida em plenitude.
O vento me levou, resisti quanto
pude. Nada podemos, quase nada.

O rubro, o branco, o negro conjugados
são a cor da beleza, o brilho e a sombra.
Nós levamos da vida o que vivemos
na nossa luta contra a morte em flor.



domingo, 1 de abril de 2012

O UIRAPURU



O uirapuru é pássaro esquisito,
por exilar-se no seu próprio canto.
O seu voo com as árvores confunde-se,
o canto é o que fica do que passa.

Esse pássaro, como o conhecemos,
a sua imagem rara, quase mítica,
nasce do canto e perde-se no canto
e é memória do canto nunca findo.

O uirapuru disfarça-se de flor,
com pétalas douradas e uma estrela
no cinzento das costas, um sol lírico,
em sua concha cria a luz da dor.

O uirapuru se inclina para o rio:
é a pérola oculta na paisagem
e embala o silêncio da prata d’água,
fechando e abrindo o dia com seu canto.



­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­__________



Quando eu iniciei o ginásio (há uns longínquos cinquentas anos), no livro de Português. havia um soneto de Humberto de Campos, “O uirapuru”. Havia algo de... poético, nesse soneto, que descobri que quase o sabia de cor ainda hoje: 

 
"Dizem que o Uirapuru, quando desata
A voz, Orfeu do seringal tranqüilo
O passaredo, rápido, a segui-lo
Em derredor agrupa-se na mata.

Quando o canto, veloz, muda em cascata
Tudo se queda, comovido a ouvi-lo:
O mais nobre sabiá surta a sonata
O canário menor cessa o pipilo.

Eu próprio sei quanto esse canto é suave
O que, porém, me faz cismar bem fundo
Não é, por si, o alto poder dessa ave.

O que mais no fenômeno me espanta
É ainda existir um pássaro no mundo
Que fique a escutar quando outro canta!"


Como eu estava escrevendo o meu “Livro dos bichos”, pesquisei e soube que o uirapuru é um pouco diferente da lenda e desse soneto. Então, escrevi o poema acima.





quinta-feira, 29 de março de 2012

O BODE































O BODE



O bode sobe a montanha, com os chifres
em riste.

A montanha é um trono para o bode.
Entre os rochedos, orgulhoso, ostenta
o poderio do seu domínio estrito.

Que é a vida? O que somos nós no pasto
do existir? Que capim, que ossos roemos?
O bode solta um grito nas alturas.
O grito preto e branco, seco, quebra-se

e, ricocheteando, reconhece
o território do rebanho, grei e reino.
O bode impera sobre os seus limites.



quarta-feira, 28 de março de 2012

POETA TEM QUE SOFRER, disse Millôr Fernandes




Eu acabava de ser apresentado a Millôr Fernandes, em 1991, como um dos poetas premiados na V Bienal Nestlé de Literatura Brasileira. Ele me bateu nos ombros, dizendo como quem consola: “Poeta não precisa ganhar prêmio. Poeta tem que sofrer.”

Pouco depois estava no Centro de Convenções Rebouças dando o seu depoimento diante de uma plateia atenta de umas duas mil pessoas. E qual era o tema? Não mais que o enunciado acima: “O poeta tem que sofrer.”

Era como se Millôr falasse para mim mesmo. Como se continuasse a conversa mal iniciada.

Ele me ensinava que os prêmios são um reconhecimento da obra que o poeta faria de qualquer maneira. Ou quase de qualquer maneira: antes é preciso sofrer.


Não me lembro de uma palavra desse depoimento, mas tinha aprendido o essencial. Somente se escreve criticamente.

Millôr se dizia um escritor sem estilo. Numa de suas últimas entrevistas disse que escrever é fácil. Basta ter o que dizer.

O humorista ou o poeta sentem a dor de viver. Depois, escrevem.


terça-feira, 27 de março de 2012

A GARÇA






     A GARÇA




A garça marcha devagar, solene,
na areia à beira d’água. Atenta, observa:
um peixe descuidado se aproxima.
De repente dispara, flecha, o bico


e volta após fisgado o alimento.
No cristal d’água a sua imagem dança
nívea, leve, com graça, ao crepúsculo.
Eu a contemplo à luz fraca do sol,


à distância, real, em sua nobreza
de ave e príncipe. Quem sou? Ela ignora.
Existo à parte, como observador,
alheio, inexistente. Sou, não sou.


Um homem não faz parte da paisagem.
A garça é a paisagem. Mais que uma árvore,
mais que uma flor e a imagem que passa, alva,
a garça permanece na memória.





domingo, 25 de março de 2012

A TARTARUGA




 

     A TARTARUGA


A tartaruga vai tão devagar
como se imóvel fosse – eppur si muove.
Nasce na areia condenada à morte,
só por um fio consegue escapar

e, solerte, se apega tanto à vida
que bem parece não morrer jamais.
Essa é a lentidão da tartaruga.
Move-se devagar porque o horizonte

é sempre mais além de outro horizonte.
Existir é memória. Um ovo ao sol
cozinhando na areia ao som do mar.
A sua casca é dura como a pedra

e é o seu próprio corpo, pele e osso.
A tartaruga pesa como o mundo.
Leva nos ombros a beleza e a dor,
o êxtase e o mistério de existir.





(poema do "Livro dos bichos", Prêmio Jorge de Lima 2011, da U. B. E. - RJ)






quinta-feira, 22 de março de 2012

O TUCANO



      O TUCANO


O tucano ergue o longo bico adunco
entre as árvores ralas na canícula:
ausculta o tempo com sanguínea verve
e dispersa o calor com sua astúcia.

O tucano transpira pelo bico
como se fosse um radiador. Controla
a sensibilidade do seu corpo
nos dias quentes e nas noites frias.

O tucano colore o azul do dia,
as campinas, as árvores e as águas.
Os pássaros se calam quando o tucano
filtra a luz e o mormaço do verão.

Agita e grita a cor de galho em galho.
Com o suor do corpo no seu bico,
o voo inquieto do tucano enfeita
o verde da paisagem do poema.



Esta foi a última foto de um tucano que eu tirei. Em S. Bento do Sapucaí, SP, perto da Cachoeira dos Amores, na semana passada.
A foto não corresponde ao poema, escrito uns dois anos antes.
In “Livro dos bichos”, Prêmio Jorge de Lima 2011, da U. B. E. RJ (a publicar).


                        José  Carlos Mendes Brandão



quinta-feira, 15 de março de 2012

A ESTÉTICA DA RECEPÇÃO

























                                                                                                Pedra do Baú - S. Bento do Sapucaí - SP




A ESTÉTICA DA RECEPÇÃO

Leio um poema de Ted Hughes em que sua amada Sylvia Plath
Declama poesia para as vacas
E fico imaginando como seria interessante dizer meus poemas
Para os cavalos, os cachorros, as borboletas,
Talvez para o papagaio – dizem que o papagaio é ótimo ouvinte
E é disso que o poeta precisa: ótimos ouvintes.

Os animais podem muito bem ser melhores ouvintes
Do que os homens ou as mulheres sonhadoras ou palradoras.
Sim: pelo menos os animais não palram nem sonham.
Certo, alguns animais palram
Mas nenhum sonha
E um poema é para ser ouvido muito acordado,
Com todos os sentidos atentos.
O mal dos homens e das mulheres é não terem os sentidos atentos.

O mal dos animais é outro.
Os animais também não servem para serem ouvintes de poesia.
É que o poeta fala por imagens,
Diz vermelho e azul e verde e amarelo,
Diz luz e movimento,
Diz sangue e céu,
Diz tanta coisa para não dizer a ideia que está por trás das coisas.
Os animais veem as coisas e pronto.
Os animais não têm noção de beleza e efêmero,
De eterno e pó e abismo e Deus.
A poesia existe porque os homens complicam demais a vida.
Os animais veem a vida como uma coisa simples.
Não precisam de poesia.







sexta-feira, 9 de março de 2012

EM SILÊNCIO







EM SILÊNCIO


1.      As rosas brancas e lilases no vaso disputam espaço
      Com o verde das folhas, as abelhas e as lagartas.


2.      A lagarta na folha do limoeiro afia as armas
       Para o seu trabalho de destruir e devorar.


3.      As árvores retorcem-se na beira da estrada.
       Que ânsia as move? Que dor? Que desatino?


4.      As mulheres na cozinha sorriem em silêncio.
      Desnecessário compartilhar um segredo só delas.






quarta-feira, 7 de março de 2012

A LÍNGUA BÍFIDA






A LÍNGUA BÍFIDA


                        1. 
Por que sou um estranho entre os homens?
Antes que o sol me ilumine, é noite.
                        
                        2.
A lagartixa desaparece numa fenda da parede.
Fico só, embaralhando a minha perplexidade.

                        3.
 Um silêncio súbito me paralisa.
A montanha parte-se com a luz e a água.
                     
                        4.
A única coisa que se movia entre as pedras
era a serpente e a sua língua bífida.








sexta-feira, 2 de março de 2012

O PÁSSARO E O ORNITÓLOGO




          O ditado diz Um pássaro

Não é um ornitólogo.

Vivo a minha vida

E a minha poesia.

Os críticos vivam

A deles.

A terra gira

Como uma laranja,

Não quer dizer

Que a terra seja uma laranja.

É apenas a poesia

Nas palavras

Ou fora delas.

Não me pergunte por quê,

Eu não sou um ornitólogo.

Sou apenas um pássaro.