quarta-feira, 2 de maio de 2012
terça-feira, 1 de maio de 2012
TRABALHADORES DO BRASIL – Wander Piroli
O homem estava sentado num tamborete rústico, com os joelhos cruzados e a
cabeça baixa. À sua direita havia uma mesinha de desarmar, entulhada de lápis
de vários tipos e cores, folhas de papel em branco, borrachas, tesoura e um
pouco de estopa. Havia ainda uma tabuleta em cima da pequena mesa, apoiando-se
na pilastra onde estavam expostos seus trabalhos: fotografias coloridas de
grandes personalidades e caricaturas também de grandes personalidades.
Nem sequer a chegada do bonde fez o homem levantar a cabeça. Trabalhava variando de lápis calmamente, como se não tivesse nenhuma pressa ou mesmo não desejasse terminar o serviço. Getúlio na foto continuava sorrindo para o homem com um de seus melhores sorrisos.
Uma mulher esturrada, de alpargata e vestido muito largo, aproximou-se e parou à sua frente. O homem levantou a cabeça:
-- Você, Maria.
Ela moveu o rosto com dificuldade e fez o possível para sorrir, fixando atenta e profundamente a cara do homem.
-- Aconteceu alguma coisa?
-- Não – murmurou a mulher.
O homem pôs a fotografia e o lápis na mesa e esperou que a mulher falasse. Olhavam-se como duas pessoas de intensa convivência.
-- Não houve mesmo nada? – tornou o homem.
-- Claro que não, Zé. Eu vim à toa.
-- E os meninos?
-- Mamãe está com eles.
-- Como é que você arranjou para chegar até aqui?
-- Uai, eu vim.
-- A pé? Você não devia ter vindo, Maria. Estou achando que houve alguma coisa.
-- Não teve nada, não. Mamãe chegou lá em casa e então eu aproveitei para dar um pulo até aqui.
-- Ah – o homem sorriu. E uma onda de carinho, quase imperceptível, assomou-lhe o rosto lento e sofrido.
-- Fez alguma coisa hoje, Zé?
-- Fiz um – respondeu levantando-se. – Senta aqui. Você deve estar cansada.
A mulher sentou no tamborete, desajeitada.
-- Você não devia ter vindo, Maria – disse o homem.
-- Eu sei, mas me deu vontade. Mamãe ficou lá com os meninos.
-- Mas ela não estava doente?
-- Você sabe como mamãe é.
-- E o Tonhinho?
-- Está lá.
-- O carnegão saiu?
A mulher fez sim com a cabeça e em seguida olhou para o abrigo, onde havia pequenas lojas de frutas, café, pastelaria.
-- Espera um pouquinho aí – disse o homem, e caminhou na direção de uma das lojas.
A mulher permaneceu sentada no tamborete, observou por um momento o vendedor de agulhas, que continuava gritando, depois deteve a vista na foto de Getúlio Vargas sorrindo para os trabalhadores do Brasil. O homem reapareceu com um saquinho manchado de gordura.
-- Esses pastéis.
-- Oh, Zé, para que você fez isso?
-- Vamos, come um.
-- Você não devia ter comprado.
-- Vamos.
A mulher retirou um pastelzinho do saco e começou a mastigá-lo com muito prazer.
-- Come o outro, Zé.
-- Já comi uns dois hoje. Esse outro também é seu.
-- Então eu vou levar ele pros meninos.
-- É pior, Maria.
O homem ficou de pé, ao lado da mulher, observando-a comer o segundo pastel. A mulher acabou de comer, limpou a boca na manga do vestido e fez menção de levantar-se:
-- Fica aqui, Zé. Pode aparecer alguém.
-- Não, eu passei a manhã toda assentado.
A mulher sentada e o homem em pé conservaram-se silenciosos durante um breve e ao mesmo tempo longo momento, ora olhando um para o outro, ora cada um olhando as pessoas agora espalhadas no abrigo ou não olhando coisa nenhuma. A mulher se ergueu:
-- Acho que eu vou andando.
-- Já vai?
-- Mamãe não aguenta eles, você sabe.
-- Ah, é mesmo. Você não devia ter vindo.
O homem tirou uma nota de dentro do bolso do paletó e estendeu-a para a mulher.
-- Volta de bonde.
-- Não, Zé.
-- É muito longe, criatura.
-- Não.
-- Ora, minha nega
-- A mulher pegou o dinheiro com a mão indecisa.
-- Vou ver se levo.
O homem assentiu com a cabeça, abriu a boca mas não disse nada. A mulher desviou o rosto e piscou os olhos várias vezes.
-- Não chega tarde não, viu, Zé.
-- Chego não.
-- Você vai fazer.
-- Hoje eu sei que vai melhorar.
-- Vai sim, Zé. Eu seu que vai. Eu sei.
A mulher se afastou rapidamente, sem voltar o rosto. O homem empinou-se um pouco para vê-la atravessar a rua. Depois sentou no tamborete e pegou um lápis e o retrato.
Durante muito tempo o homem permaneceu com a cabeça baixa, imóvel dentro de sua ilha, curvado sobre a foto que mostrava o presidente morto com aquele sorriso de seus melhores dias.
Nem sequer a chegada do bonde fez o homem levantar a cabeça. Trabalhava variando de lápis calmamente, como se não tivesse nenhuma pressa ou mesmo não desejasse terminar o serviço. Getúlio na foto continuava sorrindo para o homem com um de seus melhores sorrisos.
Uma mulher esturrada, de alpargata e vestido muito largo, aproximou-se e parou à sua frente. O homem levantou a cabeça:
-- Você, Maria.
Ela moveu o rosto com dificuldade e fez o possível para sorrir, fixando atenta e profundamente a cara do homem.
-- Aconteceu alguma coisa?
-- Não – murmurou a mulher.
O homem pôs a fotografia e o lápis na mesa e esperou que a mulher falasse. Olhavam-se como duas pessoas de intensa convivência.
-- Não houve mesmo nada? – tornou o homem.
-- Claro que não, Zé. Eu vim à toa.
-- E os meninos?
-- Mamãe está com eles.
-- Como é que você arranjou para chegar até aqui?
-- Uai, eu vim.
-- A pé? Você não devia ter vindo, Maria. Estou achando que houve alguma coisa.
-- Não teve nada, não. Mamãe chegou lá em casa e então eu aproveitei para dar um pulo até aqui.
-- Ah – o homem sorriu. E uma onda de carinho, quase imperceptível, assomou-lhe o rosto lento e sofrido.
-- Fez alguma coisa hoje, Zé?
-- Fiz um – respondeu levantando-se. – Senta aqui. Você deve estar cansada.
A mulher sentou no tamborete, desajeitada.
-- Você não devia ter vindo, Maria – disse o homem.
-- Eu sei, mas me deu vontade. Mamãe ficou lá com os meninos.
-- Mas ela não estava doente?
-- Você sabe como mamãe é.
-- E o Tonhinho?
-- Está lá.
-- O carnegão saiu?
A mulher fez sim com a cabeça e em seguida olhou para o abrigo, onde havia pequenas lojas de frutas, café, pastelaria.
-- Espera um pouquinho aí – disse o homem, e caminhou na direção de uma das lojas.
A mulher permaneceu sentada no tamborete, observou por um momento o vendedor de agulhas, que continuava gritando, depois deteve a vista na foto de Getúlio Vargas sorrindo para os trabalhadores do Brasil. O homem reapareceu com um saquinho manchado de gordura.
-- Esses pastéis.
-- Oh, Zé, para que você fez isso?
-- Vamos, come um.
-- Você não devia ter comprado.
-- Vamos.
A mulher retirou um pastelzinho do saco e começou a mastigá-lo com muito prazer.
-- Come o outro, Zé.
-- Já comi uns dois hoje. Esse outro também é seu.
-- Então eu vou levar ele pros meninos.
-- É pior, Maria.
O homem ficou de pé, ao lado da mulher, observando-a comer o segundo pastel. A mulher acabou de comer, limpou a boca na manga do vestido e fez menção de levantar-se:
-- Fica aqui, Zé. Pode aparecer alguém.
-- Não, eu passei a manhã toda assentado.
A mulher sentada e o homem em pé conservaram-se silenciosos durante um breve e ao mesmo tempo longo momento, ora olhando um para o outro, ora cada um olhando as pessoas agora espalhadas no abrigo ou não olhando coisa nenhuma. A mulher se ergueu:
-- Acho que eu vou andando.
-- Já vai?
-- Mamãe não aguenta eles, você sabe.
-- Ah, é mesmo. Você não devia ter vindo.
O homem tirou uma nota de dentro do bolso do paletó e estendeu-a para a mulher.
-- Volta de bonde.
-- Não, Zé.
-- É muito longe, criatura.
-- Não.
-- Ora, minha nega
-- A mulher pegou o dinheiro com a mão indecisa.
-- Vou ver se levo.
O homem assentiu com a cabeça, abriu a boca mas não disse nada. A mulher desviou o rosto e piscou os olhos várias vezes.
-- Não chega tarde não, viu, Zé.
-- Chego não.
-- Você vai fazer.
-- Hoje eu sei que vai melhorar.
-- Vai sim, Zé. Eu seu que vai. Eu sei.
A mulher se afastou rapidamente, sem voltar o rosto. O homem empinou-se um pouco para vê-la atravessar a rua. Depois sentou no tamborete e pegou um lápis e o retrato.
Durante muito tempo o homem permaneceu com a cabeça baixa, imóvel dentro de sua ilha, curvado sobre a foto que mostrava o presidente morto com aquele sorriso de seus melhores dias.
Obras do
autor:
Adulto: A Mãe e o Filho da Mãe ( 1966)
A Máquina de Fazer Amor (1980)
Minha Bela Putana (1985)
Nem Pai Educa filho (1998)
Os Melhores Contos de Wander Piroli (1996)
Infantil: O Menino e o Pinto do Menino ( 1975)
Os Rios Morrem de Sede (1973)
Macacos Me Mordam ( 1978)
Os Dois Irmãos (1980)
É Proibido Comer Grama
Para Pegar Bagre de Dia...
Adulto: A Mãe e o Filho da Mãe ( 1966)
A Máquina de Fazer Amor (1980)
Minha Bela Putana (1985)
Nem Pai Educa filho (1998)
Os Melhores Contos de Wander Piroli (1996)
Infantil: O Menino e o Pinto do Menino ( 1975)
Os Rios Morrem de Sede (1973)
Macacos Me Mordam ( 1978)
Os Dois Irmãos (1980)
É Proibido Comer Grama
Para Pegar Bagre de Dia...
sábado, 28 de abril de 2012
A GRALHA
A GRALHA
Eu vi a gralha
no alto da araucária,
eu ouvi a
gralha contra o céu azul.
Eu ouvi os
catorze gritos nítidos
da gralha azul com
seus bandos e clãs.
Eu vi a gralha
construindo o ninho
sobre a coroa
no alto da araucária,
estocando os
pinhões nos troncos podres
ou
encravando-os nas raízes soltas.
A araucária
balança-se no vento
e voa e dança
com as nuvens brancas.
A gralha voou
de galho em galho
e riscou o seu
grito contra o céu.
A gralha azul
inventa o céu azul
e grita
anunciando o seu domínio.
A gralha é
absoluta na paisagem,
pousada no seu
trono na araucária.
quinta-feira, 26 de abril de 2012
O udu
O UDU
O udu-de-coroa-azul pousou
na árvore solitária à beira d’ água.
Saltita irrequieto de um galho a outro,
vigiando o seu ninho na areia.
Move a coroa negra na cabeça
sobre uma leve faixa roxa e azul.
Move o verde brilhante da plumagem,
o peito e o ventre são um sol dourado.
O udu na árvore canta grave: Udu!
Traz o nome no som do próprio canto.
É um mistério a sua presença verde.
O encanto da sua cor encanta a dor.
No silêncio da aurora ou do crepúsculo,
enquanto as águas correm sobre a areia,
mistura-se à folhagem a sua cor,
no êxtase da beleza de ouro puro.
quarta-feira, 25 de abril de 2012
OSTRAS AO VENTO - textos e desenhos de humor
Apresento o livro Ostras ao Vento no Portal Cronópios - Literatura Contemporânea:
http://www.cronopios.com.br/site/poesia.asp?id=5384


http://www.cronopios.com.br/site/poesia.asp?id=5384


terça-feira, 24 de abril de 2012
A DEUSA CAÍDA
A DEUSA CAÍDA
A deusa caída,
mais que
caída, despedaçada.
A deusa no
chão, à sombra do pé de jatobá,
sobre a grama
verde e as folhas secas.
A deusa caída,
e nada mais importa.
A deusa caiu,
que mais poderemos dizer?
O quanto havia
de vida?
O quanto a sua
existência, em si, prenunciava?
A deusa caiu,
com a vida.
Os cacos da
vida no chão, como os cacos da deusa.
O quanto de
nós são cacos,
o quanto de
nós ainda brilha como os cacos?
A indiferença
da deusa caída, despedaçada,
mas com o
braço erguido como quem não se importa
com nada (um
braço, o outro está quebrado – oh, quanto
de nós está
quebrado, no chão ou sob o chão, aos vermes).
O pedestal ao
lado da deusa, caído também.
Vivemos caindo
de nossos pedestais, que também caem.
Os cacos
brilham como estrelas na memória.
Nós
subsistimos, lutando contra o esquecimento.
Evoé!
segunda-feira, 23 de abril de 2012
DIA DO LIVRO
Minha homenagem (quase anti-homenagem,
desculpem) ao Dia do Livro:
O
LIVRO
A tarde era cinza, fria, seca; o Zé
olhava o sol-poente com lágrimas nos olhos.
– O que você fez da sua vida, Zé? – a Cida esbravejava.
A fogueira acesa no quintal; queimavam
os galhos da última árvore; folhas ainda verdes estralavam, no meio da fumaça.
O Zé segura nas mãos negras de carvão
um grosso volume de folhas já amareladas; conclui, por fim:
– Eu queimo o meu livro.
jcmb
sábado, 21 de abril de 2012
sexta-feira, 20 de abril de 2012
O PRÍNCIPE
O PRÍNCIPE
O príncipe é vermelho como
sangue,
ou como o fogo de um rubi ao
sol.
Chama-se príncipe ou verão, e
brilha
incendiando o dia em chama
rubra.
Traz uma capa negra sobre as
costas
e o vermelho no peito e na
cabeça.
Atrás dos olhos uma linha escura
para torná-lo de linhagem única.
Pousa nos galhos finos do
cerrado.
No cio voa como uma borboleta
e canta e dança para a sua fêmea.
O príncipe se torna mais
sanguíneo,
de uma luz ígnea, no êxtase do
amor.
Depois se apaga, sossegado,
no ar.quinta-feira, 19 de abril de 2012
O interrogatório de Rosa Luxemburgo
O interrogatório
De Rosa Luxemburgo
Durou apenas algumas horas. Ela sabia
Tão bem como os seus carcereiros
Que palavras ali já não existiam. Caída
Na batalha
Contra o nervo vital do Estado; banhada
Em sangue
E quase sem sentidos,
Rosa,
Frágil camarada,
Pediu aos caçadores seus assassinos
Agulha e linha. E, silenciosamente,
Com uma pistola apontada à têmpora,
Coseu a bainha da saia que se encontrava
Descosida. Pouco depois
O cadáver
Foi lançado à água.
Casimiro de Brito
quarta-feira, 18 de abril de 2012
RIDENDO CASTIGAT MORES
RIDENDO CASTIGAT MORES
Os falsos
sentimentos são comuns nos seres humanos,
disse o poeta
Joseph Brodsky.
A minha poesia
não deve ser humana,
os seus
sentimentos são tudo menos falsos.
Nada do que é
humano me é estranho,
já dizia o
romano Terêncio.
A minha poesia
é estranha para quem não é humano,
concluo,
mostrando os dentes e as garras.
terça-feira, 17 de abril de 2012
segunda-feira, 16 de abril de 2012
O OURIÇO
O ouriço
eriça-se no vão da cerca
acuado pelo cão, que late, rosna
e fuça e ataca. Aguça as hastes
finas dos seus espinhos, e as aponta
acuado pelo cão, que late, rosna
e fuça e ataca. Aguça as hastes
finas dos seus espinhos, e as aponta
contra o cão tão
cruel que avança e morde,
e fica com a boca cravejada
de farpas afiadas como arpão.
Chora de funda dor o cão ferido.
e fica com a boca cravejada
de farpas afiadas como arpão.
Chora de funda dor o cão ferido.
Os espinhos penetram, rasgam, matam
de dor. Nascemos
para a dor: doemos.
Nascemos para a
morte, mas queremos
a viagem sem fim:
a morte é de outrem.
O cão é
testemunha cega e vã,
sombra feroz à
porta do destino.
O ouriço crispa
e eriça seus espinhos
contra essa fúria desse cão-enigma.sexta-feira, 13 de abril de 2012
A CHUVA, ORAS
A CHUVA, ORAS
Chove lá
fora
como um cachorro.
O mundo não vai acabar
apesar do vulcão.
Quem nos salvará?, perguntamos
como um cachorro.
O mundo não vai acabar
apesar do vulcão.
Quem nos salvará?, perguntamos
e engolimos facas
e biscoitos do improvável.
Que poeira terrível,
que cinza densa me sufoca,
torna-se vidro
e tritura a minha alma?
Vontade de me jogar do alto de uma árvore
para dentro de um lago suave.
Meu barco está ancorado
porque não há timão que o governe
quando navega.
Verlaine,
onde Verlaine entra na história?
Ouço violinos e ciprestes
e pedras e cabras.
É João Cabral chamando-me à realidade?
É Rimbaud com suas aranhas
devorando violetas?
O vento me leva
e eu sei que a poesia
é água furando a pedra dura.
quarta-feira, 11 de abril de 2012
A ARQUITETURA DE UM POEMA
A ARQUITETURA DE UM POEMA
A arquitetura de um poema não é
a arquitetura de um edifício.
O edifício ergue-se no ar com
toda
improbabilidade,
como se fosse desmoronar.
O poema é feito de uma estrutura
concreta: ar e sangue
para, contra todas as probabilidades,
nunca desmoronar.
A arquitetura do edifício do
poema
implode e
levanta-se das próprias cinzas.
segunda-feira, 9 de abril de 2012
O SAPO
O SAPO
O sapo veio da água, como
a vida.
Como chegou do caos até
aqui?
Que misteriosas sendas
percorreu?
As estrelas explodem no
jardim,
o bicho anfíbio busca a
sua forma.
A luta pela vida
continua:
o sapo caça a mosca com a
língua,
a coruja contempla-o com
fascínio
e gula, sob a noite
iluminada.
O sapo foi, com a sua
feiura,
o primeiro dos bichos do
planeta.
Supérstite da Idade do
Carvão,
carrega em sua pele dura
a origem
da existência. Que Deus
conceberia,
do nada, tal horrenda
simetria?
Somos filhos de uma
ancestral vertigem?
quinta-feira, 5 de abril de 2012
terça-feira, 3 de abril de 2012
O CARDEAL
O CARDEAL
Acordo o dia e a vida com a cor
do meu canto. O vermelho contra o branco.
Sofro a dor de existir com a garganta
por um fio. Um espinho sangra a flor.
A manhã azul toda se ilumina.
O galo-da-campina numa orquestra
de pássaros. A música da luz.
No peito chama, clama e açoita a dor.
Amor e dor fulgindo na coroa
da beleza. Eis a vida em plenitude.
O vento me levou, resisti quanto
pude. Nada podemos, quase nada.
O rubro, o branco, o negro conjugados
são a cor da beleza, o brilho e a sombra.
Nós levamos da vida o que vivemos
na nossa luta contra a morte em flor.
domingo, 1 de abril de 2012
O UIRAPURU
O uirapuru é pássaro esquisito,
por exilar-se no seu próprio canto.
O seu voo com as árvores confunde-se,
o canto é o que fica do que passa.
Esse pássaro, como o conhecemos,
a sua imagem rara, quase mítica,
nasce do canto e perde-se no canto
e é memória do canto nunca findo.
O uirapuru disfarça-se de flor,
com pétalas douradas e uma estrela
no cinzento das costas, um sol lírico,
em sua concha cria a luz da dor.
O uirapuru se inclina para o rio:
é a pérola oculta na paisagem
e embala o silêncio da prata d’água,
fechando e abrindo o dia com seu canto.
__________
Quando eu
iniciei o ginásio (há uns longínquos cinquentas anos), no livro de Português. havia um soneto de Humberto de Campos,
“O uirapuru”. Havia algo de... poético, nesse soneto, que descobri que quase o sabia de cor ainda hoje:
"Dizem que o Uirapuru, quando desata
A voz, Orfeu do seringal tranqüilo
O passaredo, rápido, a segui-lo
Em derredor agrupa-se na mata.
Quando o canto, veloz, muda em cascata
Tudo se queda, comovido a ouvi-lo:
O mais nobre sabiá surta a sonata
O canário menor cessa o pipilo.
Eu próprio sei quanto esse canto é suave
O que, porém, me faz cismar bem fundo
Não é, por si, o alto poder dessa ave.
O que mais no fenômeno me espanta
É ainda existir um pássaro no mundo
Que fique a escutar quando outro canta!"
Como eu estava escrevendo o meu “Livro dos bichos”,
pesquisei e soube que o uirapuru é um pouco diferente da lenda e desse soneto. Então, escrevi o poema acima.
quinta-feira, 29 de março de 2012
O BODE
O BODE
O bode sobe a montanha, com os chifres
em riste.
A montanha é um trono para o bode.
Entre os rochedos, orgulhoso, ostenta
o poderio do seu domínio estrito.
Que é a vida? O que somos nós no pasto
do existir? Que capim, que ossos roemos?
O bode solta um grito nas alturas.
O grito preto e branco, seco, quebra-se
e, ricocheteando, reconhece
o território do rebanho, grei e reino.
O bode impera sobre os seus limites.
quarta-feira, 28 de março de 2012
POETA TEM QUE SOFRER, disse Millôr Fernandes
Eu acabava de
ser apresentado a Millôr Fernandes, em 1991, como um dos poetas premiados na V
Bienal Nestlé de Literatura Brasileira. Ele me bateu nos ombros, dizendo como
quem consola: “Poeta não precisa ganhar prêmio. Poeta tem que sofrer.”
Pouco depois
estava no Centro de Convenções Rebouças dando o seu depoimento diante de uma
plateia atenta de umas duas mil pessoas. E qual era o tema? Não mais que o
enunciado acima: “O poeta tem que sofrer.”
Era como se
Millôr falasse para mim mesmo. Como se continuasse a conversa mal iniciada.
Ele me
ensinava que os prêmios são um reconhecimento da obra que o poeta faria de
qualquer maneira. Ou quase de qualquer maneira: antes é preciso sofrer.
Não me lembro
de uma palavra desse depoimento, mas tinha aprendido o essencial. Somente se
escreve criticamente.
Millôr se
dizia um escritor sem estilo. Numa de suas últimas entrevistas disse que
escrever é fácil. Basta ter o que dizer.
O humorista ou
o poeta sentem a dor de viver. Depois, escrevem.
terça-feira, 27 de março de 2012
A GARÇA
A GARÇA
A garça marcha
devagar, solene,
na areia à
beira d’água. Atenta, observa:
um peixe
descuidado se aproxima.
De repente
dispara, flecha, o bico
e volta após
fisgado o alimento.
No cristal
d’água a sua imagem dança
nívea, leve,
com graça, ao crepúsculo.
Eu a contemplo
à luz fraca do sol,
à distância,
real, em sua nobreza
de ave e
príncipe. Quem sou? Ela ignora.
Existo à
parte, como observador,
alheio,
inexistente. Sou, não sou.
Um homem não
faz parte da paisagem.
A garça é a
paisagem. Mais que uma árvore,
mais que uma
flor e a imagem que passa, alva,
a garça
permanece na memória.
domingo, 25 de março de 2012
A TARTARUGA
A TARTARUGA
A tartaruga
vai tão devagar
como se imóvel
fosse – eppur si muove.
Nasce na areia
condenada à morte,
só por um fio
consegue escapar
e, solerte, se
apega tanto à vida
que bem parece
não morrer jamais.
Essa é a
lentidão da tartaruga.
Move-se
devagar porque o horizonte
é sempre mais
além de outro horizonte.
Existir é
memória. Um ovo ao sol
cozinhando na
areia ao som do mar.
A sua casca é
dura como a pedra
e é o seu
próprio corpo, pele e osso.
A tartaruga
pesa como o mundo.
Leva nos
ombros a beleza e a dor,
o êxtase e o
mistério de existir.
(poema do "Livro dos bichos", Prêmio Jorge de Lima 2011, da U. B. E. - RJ)
quinta-feira, 22 de março de 2012
O TUCANO
O TUCANO
O tucano ergue o longo bico
adunco
entre as árvores ralas na
canícula:
ausculta o tempo com sanguínea
verve
e dispersa o calor com sua
astúcia.
O tucano transpira pelo bico
como se fosse um radiador.
Controla
a sensibilidade do seu corpo
nos dias quentes e nas noites
frias.
O tucano colore o azul do dia,
as campinas, as árvores e as
águas.
Os pássaros se calam quando o
tucano
filtra a luz e o mormaço do
verão.
Agita e grita a cor de galho
em galho.
Com o suor do corpo no seu
bico,
o voo inquieto do tucano
enfeita
o verde da paisagem do poema.
Esta foi a última foto de um tucano que eu tirei. Em S. Bento do Sapucaí,
SP, perto da Cachoeira dos Amores, na semana passada.
A foto não corresponde ao poema, escrito uns dois anos antes.
In “Livro dos bichos”, Prêmio Jorge de Lima 2011, da U. B. E. RJ (a
publicar).
José Carlos Mendes Brandão
quinta-feira, 15 de março de 2012
A ESTÉTICA DA RECEPÇÃO
Pedra do Baú - S. Bento do Sapucaí - SP
A ESTÉTICA DA RECEPÇÃO
Leio um poema
de Ted Hughes em que sua amada Sylvia Plath
Declama poesia
para as vacas
E fico
imaginando como seria interessante dizer meus poemas
Para os
cavalos, os cachorros, as borboletas,
Talvez para o
papagaio – dizem que o papagaio é ótimo ouvinte
E é disso que
o poeta precisa: ótimos ouvintes.
Os animais
podem muito bem ser melhores ouvintes
Do que os
homens ou as mulheres sonhadoras ou palradoras.
Sim: pelo
menos os animais não palram nem sonham.
Certo, alguns
animais palram
Mas nenhum
sonha
E um poema é
para ser ouvido muito acordado,
Com todos os
sentidos atentos.
O mal dos
homens e das mulheres é não terem os sentidos atentos.
O mal dos
animais é outro.
Os animais
também não servem para serem ouvintes de poesia.
É que o poeta
fala por imagens,
Diz vermelho e
azul e verde e amarelo,
Diz luz e
movimento,
Diz sangue e
céu,
Diz tanta
coisa para não dizer a ideia que está por trás das coisas.
Os animais
veem as coisas e pronto.
Os animais não
têm noção de beleza e efêmero,
De eterno e pó
e abismo e Deus.
A poesia
existe porque os homens complicam demais a vida.
Os animais
veem a vida como uma coisa simples.
Não precisam
de poesia.
sexta-feira, 9 de março de 2012
EM SILÊNCIO
EM
SILÊNCIO
1. As
rosas brancas e lilases no vaso disputam espaço
Com o verde
das folhas, as abelhas e as lagartas.
2. A
lagarta na folha do limoeiro afia as armas
Para o seu trabalho de destruir e devorar.
3. As
árvores retorcem-se na beira da estrada.
Que ânsia as move? Que dor? Que desatino?
4. As
mulheres na cozinha sorriem em silêncio.
Desnecessário compartilhar um segredo só delas.
quarta-feira, 7 de março de 2012
A LÍNGUA BÍFIDA
A LÍNGUA BÍFIDA
1.
Por que sou um estranho entre os homens?
Antes que o sol me ilumine, é
noite.
2.
A lagartixa desaparece numa fenda da parede.
Fico só, embaralhando a minha
perplexidade.
3.
Um silêncio súbito me paralisa.
A montanha parte-se com a luz
e a água.
4.
A única coisa que se movia entre as pedras
era a serpente e a sua língua
bífida.
sexta-feira, 2 de março de 2012
O PÁSSARO E O ORNITÓLOGO

O ditado diz Um pássaro
Não é um
ornitólogo.
Vivo a minha
vida
E a minha
poesia.
Os críticos
vivam
A deles.
A terra gira
Como uma
laranja,
Não quer dizer
Que a terra
seja uma laranja.
É apenas a
poesia
Nas palavras
Ou fora delas.
Não me
pergunte por quê,
Eu não sou um
ornitólogo.
Sou apenas um
pássaro.
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
NOTURNO DOLORIDO
NOTURNO DOLORIDO
Atrás da janela escura, como
no fundo de um lago,
uma criança dorme.
Um avião cruza o céu, sacode
o quarto da criança.
Os homens na rua
transformaram-se em pedra
e vestem armaduras de metal
que o vento chacoalha.
Ninguém se lembra, ninguém
foi testemunha
do meu sofrimento.
E um grito aflito atravessa a
noite, as estrelas, as almas.
Os telhados pendem, pesados,
aterradores.
As mulheres têm sangue nas
garras e nas asas cortadas.
As casas navegam nos
nevoeiros, adernam, naufragam.
domingo, 26 de fevereiro de 2012
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
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