terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

NOTURNO DOLORIDO




NOTURNO DOLORIDO


Atrás da janela escura, como no fundo de um lago,
uma criança dorme.
Um avião cruza o céu, sacode o quarto da criança.

Os homens na rua transformaram-se em pedra
e vestem armaduras de metal
que o vento chacoalha.

Ninguém se lembra, ninguém foi testemunha
do meu sofrimento.
E um grito aflito atravessa a noite, as estrelas, as almas.

Os telhados pendem, pesados, aterradores.
As mulheres têm sangue nas garras e nas asas cortadas.
As casas navegam nos nevoeiros, adernam, naufragam.




domingo, 26 de fevereiro de 2012

O ACORDO





O ACORDO


Adrian fez um acordo com a morte:
se pudesse dormir com Frida
mais uma vez,
ela poderia levá-lo mais cedo,
quando quisesse.

Frida tirou a roupa,
peça por peça,
deitou-se ao lado de Adrian
e disse:
A morte concordou.




sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

PRESSÁGIO





PRESSÁGIO

A terra é um sol velho que vai morrer
Os ursos choram desconsolados
As rosas secam e caem
A terra murcha como uma laranja podre
A terra é um sol velho e murcha

O lagarto de pedra ausculta o tempo.









quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

O amor é cego




                                 O homem fica cego antes
                                 ou depois do amor?







terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

NAVEGAÇÃO






NAVEGAÇÃO

As gaivotas sobrevoam a embarcação.
Eu navego para o horizonte indeciso.
As gaivotas me acompanham. Sem memória,
surdo e cego, eu sei. A distância é o meu destino.





domingo, 19 de fevereiro de 2012

MEMÓRIA DO MAR






























MEMÓRIA DO MAR


Do ventre do peixe, o mar lançou-me à praia.
O sol beijou-me os olhos. Eu me levantei
Sem saber quem fui ou quem sou.









sábado, 18 de fevereiro de 2012

A DEUSA FLORA (um epigrama)




A deusa Flora deita numa cama de flores
como a dizer o que é uma vida sem dores

aos pobres mortais que nasceram da dor
e pensam que vieram do sonho do amor.





quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

POEMA NO CREPÚSCULO




POEMA NO CREPÚSCULO


A árvore queimava
E o homem
Levantava o dedo pingando sangue

Era como se tivesse uma rosa
Na mão
Um espinho na ponta do dedo

Olha o vento
Como sopra na copa das árvores

O vento parece dourado
Sobre a copa das árvores

O menino olha o homem
Olha a árvore
Olha a rosa


E sai voando com o vento sobre a copa das árvores





quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A CASA É UMA SOMBRA





A CASA É UMA SOMBRA




A casa é uma sombra do que fora.

Mancha escura, ou nem tanto, na paisagem.

Um pouco de caliça, entulho, pó.

As raízes penetram as paredes,

De um jeito ou de outro querem persistir.



O que existe é uma página em branco,

De tanto lida, gasta pelos dedos

E olhos incertos, gastos por sua vez.

O lápis, oco, não escreve mais.

A alma, oca, não escreve: esparze a sombra.



Não somos mais quem fôramos: ninguém

É o que somos, no jardim esconso.

A água flui.

O vento ajunta as folhas amarelas

                                   E varre para fora do possível.




segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

HISTÓRIA DO BEATO PAPA GREGÓRIO – POEMA DESENTRANHADO DO "DOUTOR FAUSTO", DE THOMAS MANN




HISTÓRIA DO BEATO PAPA GREGÓRIO – POEMA
DESENTRANHADO DO CAP. XXXI DO “DOUTOR
FAUSTO”, DE THOMAS MANN

Era uma vez um casal de gêmeos de estirpe real.
O irmão ama a irmã desmedida e estouvadamente.
Desse amor nasce um menino de grande beleza,
Filho e sobrinho de cada um dos progenitores.

O pai tenta expiar a culpa numa peregrinação
À Terra Santa e morre no caminho.
A criança sofre um destino incerto: indigna
Do batismo, é posta num barril e jogada ao mar.

Levada pelas ondas até um convento, um abade
A recolhe e batiza com o seu nome: Gregório.
A mãe jura jamais se casar, indigna
De um matrimônio cristão, e rejeita a mão

De um duque feroz, que lhe invade e conquista o reino,
Exceto a cidade fortificada onde ela se refugia.
Gregório cresce e conhece sua origem: quer
Peregrinar ao Santo Sepulcro, mas passa pelo país

De sua mãe, sabe de sua triste sina e propõe-se
Servi-la: mata o duque e liberta o reino.
Os conselheiros aconselham a rainha a casar-se
Com o jovem. Ela reflete por um dia e casa-se.

A mãe deita com o filho do pecado no leito nupcial.
Só depois sabem quer eram mãe e filho.
Felizmente a pobre rainha não deu à luz um irmão
Do seu filho e neto do seu irmão.

Cabe agora a Gregório a romaria expiatória.
Chega à casa de um pescador e ambos concordam:
A solidão é a solução. O pescador leva Gregório
Para o alto-mar e acorrenta-o num rochedo.

Gregório passa dezesseis anos em penitência.
Então morre o Papa em Roma.
Uma voz vem do céu e ordena que Gregório,
De seu opróbrio, deve ser o novo Vigário de Cristo.

Emissários chegam à casa do pescador, que pesca
Um peixe com a chave das correntes de Gregório
No ventre. O pescador leva os emissários da Igreja
À Pedra da Expiação entre as ondas do alto-mar.

Gritam: “Gregório, homem de Deus, Desce da Pedra
Para ser o Vigário de Deus na Terra.”
Gregório aceita: “Seja feita a vontade de Deus.”
É um santo o homem que sobe ao trono de Pedro.

Sua mãe vai a Roma confessar-se com o Santo Padre.
Gregório diz: “Ó minha doce mãe, irmã e esposa!
O Diabo quis dar-nos o Inferno, mas o Deus
Da Misericórdia encaminhou-nos para o Céu.”

Construiu um convento para a sua mãe nele
Se fechar, expiar e dirigir como abadessa.
Por pouco tempo: logo os dois devolveriam
Suas almas infelizes à glória de Deus.



sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

O SEGREDO DA BRISA





O SEGREDO DA BRISA


Sopra uma brisa do mar.
Os meus livros são ostras adormecidas.
Uma pomba sobre uma pedra me lembra
a paz de uma tumba. 

A grama cresce entre as pedras, como cabelo
de criança, em sua fragilidade e inocência.
Uma pedra se destaca entre todas as pedras:
é a memória, que cresce e sangra.

Nesta minha biblioteca um livro se destaca:
nobre, grandioso, primitivo como o homem.
Os animais despenham-se no pântano, trágicos,
marcando o meu lugar entre os mortos.

Eu escrevo, escrevo, escrevo.
As águas fluem das encostas verdes, com as gaivotas.
Olho o horizonte infinito das montanhas, que despencam.
Definitivamente, não há perdão para os homens.





quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

A VÊNUS DE GESSO - o texto e o palimpsesto







A VÊNUS DE GESSO





Eu tinha uns sete anos de idade e subi

Numa penteadeira



(Para ver minha imagem

No espelho?)



E quebrei em mil pedaços o busto de

Uma Vênus de gesso



Você só faz arte, disse

Minha mãe



Foi o vento, eu disse








Estou brincando com a idéia de Gérard Genette de que todo texto tem o seu palimpsesto. Certo que simplifiquei quase ad absurdum. Mas escrevi A Vênus de Gesso lembrando A Estátua de Gesso, de um ano antes, que não me satisfazia.
Escrevi A Estátua de Gesso e postei no blog do Gregório Vaz em fevereiro de 2011.  Lembrando-me do poema, lembrei-me de que o achava palavroso, pretensioso, etc. – ruim o suficiente para ir apenas para o blog do Gregório.
Escrevi A Vênus de Gesso com a intenção de tirar um pouco da gordura do primeiro poema. Como magreza não é sinal de qualidade, vejo no poema um tanto gordo uma força que este não tem. As garras da poesia?
Quem quiser comparar, aqui está o primeiro poema, muito a grosso modo o palimpsesto:

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
A ESTÁTUA DE GESSO

Vou falar mais uma vez da estátua de gesso
que eu quebrei quando era criança.
Disse à minha mãe que o culpado foi o vento,
eu não era um artista,
nem sabia o que era isso.

Esse é o destino dos poemas: foi o vento.
Os poetas nem sabem mais o que é isso.
Gozado como continuam fazendo poesia
com um ar de intelectuais
que dominam a sua arte
de intelectuais.
Como se a arte fosse um objeto intelectual.
Pior, como se isso fosse uma condição sine qua non
para um poema ser um poema.

Havia um espelho por detrás da estátua de gesso.
O espelho refletia a estátua de gesso
e refletia a minha cara de espanto e medo infantil.
Eu não sabia,
mas começava a conhecer o espanto e o medo –
essas condições para um poema ser um poema.

Há outras, mas o mundo caminha para o fim tão depressa
que não há tempo para enumerá-las
nem adianta.


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(Se alguém quiser vê-lo no blog do Gregório:


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

MEU (DES)ENCONTRO COM MANUEL BANDEIRA






MEU (DES) ENCONTRO COM MANUEL BANDEIRA



Eu vi Manuel Bandeira parado na frente do Banco...
Não me lembro de que banco, mas era um prédio antigo
e o poeta exibia seus famosos dentes que eram teclas de piano.

Eu contemplei o poeta com admiração, quase com devoção,
e não tive coragem de me aproximar, cumprimentá-lo, quem sabe
ajoelhar-me a seus pés.

O poeta pairava com displicência no mesmo lugar
como se não esperasse nada, apenas que a vida passasse
e as coisas continuassem com a sua insignificância e a sua poesia.

Eu fiquei tão encantado contemplando o poeta, imbuído
de tanta timidez em minha veneração quase estúpida
que não pude dizer nada, fazer nada.

Até se poderia ouvir a música das teclas de piano do poeta
que, naquele distante 1969, quando eu o via em carne e osso
e poesia, há muito já partira para outras encantadas esferas.







sábado, 4 de fevereiro de 2012

CEMITÉRIO DE ELEFANTES





As árvores sussurram na noite vasta.

Os elefantes caminham pesados na avenida,

seguem um sino inaudível para o abismo.

Portas se abrem e fecham.



Os mendigos estão tocando piano.

A noite se move lentamente, com a música.

As mariposas se beijam no escuro,

mostram-se na suave claridade do bar

e se vão, infelizes.



O silêncio de Deus como um túnel.

Estrelas geladas caem.

Carros arrancam, explodem.

As águas correm, negras, sob as pontes.

Os mendigos solícitos se deitam para a morte.



A Dalton Trevisan



23-11-2011  -  José Carlos Brandão





quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

ADEUS A WISLAWA SZYMBORSKA




ADEUS A WISLAWA SZYMBORSKA

Há tempos eu queria fazer um poema a Wislawa Szymborska.
Agora ela morreu.
Wislawa Szymborska morreu e eu não fiz o meu poema.
Fiquei sem graça.
Com cara de tacho.

Não sei por que não escrevi.
Certamente porque não ficaria à altura dela.
Mas eu tinha o poema todo na cabeça.
Eu iria falar de um gato.
Seria um gato comum, sem nenhuma particularidade especial.
Um dia ele subiria na mesa,
se espreguiçaria como os gatos fazem,
dormiria numa almofada, num canto da sala,
e Wislawa Szymborska diria: Isto é a poesia.

Não era preciso nada de extraordinário.
Ninguém veria que o gato tinha um olho verde e outro azul,
que era branco com o rabo xadrez (ou rajado).
Era apenas um gato.

Hoje penso em Wislawa Szymborska subindo uma escada.
Falta pouco para chegar ao topo.
Falta tão pouco
que, de repente, Wislawa Szymborska está no topo da escada.
Cheguei, diz.
E agora?
A morte é como um poema: você não sabe como,
mas sabe que precisa escrever.
Depois de escrito, não é surpresa nenhuma.
A vida continua.
Com suas pedras no meio do caminho,
alguma borboleta – a leveza da borboleta,
algum gato – que pisa leve, muito leve,
gente que reclama,
gente que segue em frente.
A poesia não é um prato de sopa.
Se fosse, seria um prato de sopa de pedras.
Adeus, Wislawa Szymborska.

1-2-2012 - J. C. M. Brandão





quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Poema em memória dos três edifícios que desabaram no Rio

                                                                                                                                                                                                          Victor R. Caivano AP





AS ASAS DA LIBERDADE


A Liberdade implodiu.
                                         O chão logo ficou coberto 
de caliça, entulho, ferro, pó e sangue.
                                                               A Liberdade,
como um castelo de cartas,
implodiu o Colombo sem nenhuma nau, nenhum mar mais
para navegar,
e outro edifício menor, que nem nome tinha.

            Resta uma árvore, com suas folhas verdes,
            sobre a desolação.

Alexandre sentiu que o chão lhe faltava
e entrou no elevador,
procedimento menos correto que possa haver.
                                                                             O elevador
despencou com o prédio
                                         e Alexandre se salvou sem um arranhão.

Maria
            (vou chamá-la apenas Maria, agora ela
              não pode se importar com mais nada),
Maria também sentiu que o chão lhe faltava
e procurou a escada.
                                    Era o procedimento correto,
mas a escada despencou e Maria só pôde dizer
Meu Deus
                      e tudo estava consumado.  






segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

COSTA CONCORDIA

                                                                   Foto Gregorio Borgia - AP



Vada a bordo, cazzo!

(Não preciso de nenhuma palavra mais
Para o meu poema.)






domingo, 29 de janeiro de 2012

OS PATOS, OS MENINOS

















OS PATOS, OS MENINOS


Os meninos levaram o pato e a pata para nadar
No rio Tietê. Fazia sol, apesar de algumas
Nuvens. Os patos estavam eufóricos, quase mais
Que os meninos. Que riam, olhavam para o pato,
Olhavam para a pata, olhavam um para o outro,
E riam, riam a mais não poder.

Os patos mergulharam na água e gritaram,
Gritaram até perder o fôlego. Como não perderam
O fôlego, anoiteceu e ainda estavam gritando.
O pato nadava placidamente nas águas azuis
Como as do mar, a pata nadava para o lado oposto
E os dois gritavam a alegria da vida.

Um menino teria seus nove anos de idade, o outro
Era quase um adolescente. O mais velho parecia
Mais novo, com seu ar efeminado e meio chorão.
Foi preciso voltarem no dia seguinte para buscar
Os patos sumidos no rio feliz. Mas nem nesse dia
Os patos quiseram voltar. Aliás, os patos nem sabem
Querer ou não querer: os patos sabem nadar
E gritar a alegria da vida. 

Uma vez o menino mais novo segurou a pata,
Mas a pata se chacoalhou toda e saiu voando
E gritando. O menino mais velho caprichou
Na cara de choro, mas porque era seu costume
Essa cara delicada e dolorida.  Os meninos sabem
Que, quando os patos quiserem (sem querer!)
Voltarão para casa, com eles ou sem eles.



segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

COMO UM PÁSSARO

                                                                                                                       udu da coroa azul





COMO UM PÁSSARO



A rosa da placenta.
O feto como um pássaro.
Um peixe flutua nas águas convulsas do mundo.

Depois do dilúvio,
o pássaro voa com um ramo verde no bico.


jan./2012 - José Carlos Brandão






sábado, 21 de janeiro de 2012

O POETA URINA ENTREAS RUÍNAS








O POETA URINA ENTRE AS RUÍNAS

O poeta urina entre as ruínas da cidade,
atrás de um muro,
talvez perto de onde foi um templo.
Um pássaro azul canta num galho seco.
Nuvens brancas brincam de carneiros,
galinhas,
coelhos
e pavões.
O poeta urina.
Tudo é efêmero, diz.
Vê um vaso, algum objeto que um dia foi um vaso.
Estranha: um menino e uma menina pintados
na parede côncava do vaso.
Não se vê nenhuma imagem do mar,
mas podem-se ouvir as suas ondas – basta
aproximar o vaso dos ouvidos.
E é pouco mais da metade de um vaso
que o poeta tem nas mãos.
Não há mar próximo, mas pode-se ouvir
todo o mistério do mar,
o seu
abismo
sem
fundo,
nesse antiquíssimo vaso quebrado.
Tudo é efêmero, diz o poeta,
menos o mar.
O inominável
mar das idades, mar anterior a todas as idades.
O poeta olha a pequena poça
de urina
efervescente
e imagina as ondas do mar inumerável.
O pássaro azul deixou de cantar.
O poeta está só.
E é como se estivesse nu.
Tudo é efêmero, menos as areias do mar.
Tudo é efêmero, menos as estrelas do universo.
Tudo é êxtase.
Apesar de tanta solidão.
Nem é preciso haver um pássaro azul.
Nem é preciso haver mais que ruínas.
Tudo é efêmero e mistério e êxtase.

6-1-12 – José Carlos Brandão

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

IDENTIDADE






IDENTIDADE


Como Kafka, fui um inseto monstruoso.

Fui uma toupeira protegida e sufocada sob a terra.

Fui um abutre e devorava a minha vítima parte por parte

até chegar à mais sensível e essencial, a língua.

Fui um rato que não conseguia mais cantar.

Fui um macaco que perdeu a identidade,

da qual conserva apenas o ódio ao amestramento.

Fui um cachorro existencialista.

Fui um chacal que amava o deserto.

Como Empédocles, fui um jovem e uma jovem,

um arbusto e uma ave

e um peixe mudo no mar.



2-1-12 – José Carlos Brandão




 

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

ATRÁS DA VIDRAÇA





ATRÁS DA VIDRAÇA


A mulher atrás da vidraça, silenciosa,
olha fixamente o lagarto.

É tal o seu silêncio, como se estivesse nua.
É tal a sua nudez, como se estivesse morta.

Eu olho a mulher que olha o lagarto, profundamente,
de tão longe, como se estivesse em outro planeta.




terça-feira, 17 de janeiro de 2012

O MAR E A MONTANHA










O MAR E A MONTANHA

 
O mar é irmão da montanha. Ambos beijam o azul do céu.
A águia encolhe a plumagem e mergulha da montanha para o mar.
Os náufragos saem das águas ostentando os seus despojos,
sentam-se nas ruas da cidade com os olhos vazios e a língua inútil.

O dia é uma pantera e afia as garras diante da terra ensolarada.
Eu sou o sobrevivente e componho a música do princípio e do fim.



 

sábado, 14 de janeiro de 2012

O INSTANTE ESSENCIAL

                                




                                O INSTANTE


                                Onde estão as árvores que estavam aqui
                                ainda ontem, ainda hoje de manhã?
                                Costumavam passear nos braços da névoa,
                                mas sempre voltavam... Não voltarão mais desta vez?

                               O que as árvores têm a me dizer? O que os pássaros
                               tanto sussurram? As flores caem, os frutos se abrem
                               e as águas correm álacres no córrego inquieto.
                               Eu fico à espreita da fulguração de um instante essencial.












quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

O POSTE DE TOMAS TRANSTRÖMER





O POSTE DE TOMAS TRANSTRÖMER


O poste de ferro diante das ruínas da velha igreja
e nenhuma música.
O sol de metal sobre a montanha de pedra
queima os pássaros da morte.

Viver ou morrer com a relva que se alastra
no fundo do poço.
O silêncio do poema como um sinal de vida
antes da morte.

Descasquei a cebola torcendo o nariz.
Ganchos rasgavam a carne até o osso.
Uma a uma iam caindo as faces sobrepostas
alheias e ainda íntimas.

A cidade multiplica suas esfinges frias
pelas ruas iluminadas.
As sombras dançam com as magnólias, deslizam
gemendo sob uma lua de plástico.


12-23-2011   J. C. M. Brandão





segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

PRIMEIRO POEMA DO ANO






O MACACO


O macaco na jaula do zoológico
faz caretas, mostra os dentes, funga.
Incomodado com a minha presença,
talvez me olhe como num espelho.

Grita, num guincho dolorido, aflito.
Será meu ancestral?
Balança a cabeça, desaprovando.

Estende o longo rabo e se pendura num galho.
Vantagem sobre os homens: tem cinco mãos.
Com uma segura uma banana,
com outra um graveto e escreve no chão algo ilegível.
E sorri para mim.


1-1-2012 - J. C. M. Brandão