domingo, 17 de outubro de 2010

O circo de cavalinhos



Os cavalos loucos

Os cavalos loucos cavalgam na lua.
São cavalos cegos e tocam música
e cantam versos verdes e vermelhos
e cantam com um peixe na garganta.

Os cavalos loucos comem na minha mão,
comem milho e ouro cantando baixinho.
São cavalos felizes e riem de mansinho
e gargalham com a chuva e com as árvores.

Um dia pegou fogo nos cavalos loucos,
o carrossel girava, girava em chamas.
Sobrou apenas a alma dos cavalos loucos,

sobraram os olhos dos cavalos queimados.
Os olhos doíam e choravam lágrimas de fogo,
os olhos de fogo eram a alma dos cavalos loucos.

__________

A Ignácio de Loyola Brandão

___________

Ignácio de Loyola Brandão esteve em Bauru há uns dois anos e contou a história do circo de cavalinhos do seu avô, que eu recrei à minha maneira neste poema.

___________

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Homenagem aos professores




DOCÊNCIA


Não sei se viste,

Mas o sol desta manhã era maior que o mundo,

E maior também que o nosso coração turbado.


Ainda ontem um pássaro

Pousou sobre os galhos que sombreiam o rio,

E seu canto amarelo apaziguou

A agonia da tarde.

Mas nada vimos:

Nossos olhos e nossos corações

Se ocupavam e se multiplicavam pelas lousas

E cadernos.


Nada temos além das nossas vozes

E as horas debruçadas sobre escritos, mapas e cálculos

- Viagens que nunca fizemos,

Mas que nos sustentam

E habitam os abismos que infestam

Nossa alma carregada de esperanças.


Não sei se enumeraste dias ou noites,

Se armazenaste as dores

De ensinamentos apaixonados,

Se imaginaste canções

Para cada momento de alegria ou desespero,

Ou o motivo pelo qual

Te ausentas de casa para edificar pessoas

E nações.


De muitas coisas não sei.


A vida segue sem nos darmos conta,

E o que nos sobra

-este sol maravilhoso e insano-

Insiste em iluminar-nos o caminho

E a esperança,

Como se merecêssemos, apesar de tudo,

Começar mais um dia.


Eis o edifício, e as salas

E os que nos esperam sedentos, com olhos de fogo,

Pelo que há em nós

Pelo que somos

E pelo que construiremos diariamente

Com nossas vidas abnegadas

E permanentemente apontadas

Para o futuro.


Benilson Toniolo


______


O autor foi meu aluno, há já uns 30 anos, na belíssima E. E. Escolástica Rosa, à beira mar plantada, em Santos, SP. Fez esse poema, que lhe agradeço, emocionado, em homenagem aos seus professores.


Quem quiser conhecer mais do Benilson pode ver o seu Blog do Benilson.


______

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Os gestos humanos






Os gestos humanos


Os caminhos são simples e pequenos, Sônia,
Levam à árvore em chamas do crepúsculo,
Aos cisnes sagrados brilhando no lago verde.

Você se lembra dos gansos, como grasnavam
Alertando-nos? As torres balouçavam-se
Com os bambuais, sobre a cidade adormecida.

Um relâmpago e as flores todas se abriram.
Ungimos com óleo e mel as nossas feridas,
Estávamos prontos para a arena da vida.

Os touros arrastavam o carro do sol e o mundo.
Nós conhecíamos as palavras apunhaladas,
Nós tínhamos sobre os ombros um lírio e uma forca.

Nós velávamos a pérola do enigma em sua concha
Enquanto os caranguejos e as aranhas, no escuro,
Extasiados, copiavam os nossos gestos humanos.


_________

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

O menino no jardim




O menino no jardim

A lagarta contorna os espinhos
E devora a folha verde da roseira.
O menino sorri em silêncio
Com o cachorro sentado aos pés.

Uma minhoca se espreguiça ao sol.
A borboleta azul me acompanha.
Caem as pétalas das rosas, fica
O perfume no ar. O menino grita

Com o braço queimado pela taturana.
Cantam os pintassilgos no jardim.
O menino abre a mão cheia de amoras,
Escorre dos dedos o sangue vermelho.

A luz cai na relva, mistura-se à sombra
E cria a cor. A abelha leva o ouro.
A formiga morta no cimento frio,
Entre as folhas secas, ainda é poesia.

________

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Os tico-ticos




Os tico-ticos

Os tico-ticos banham-se na areia.
Sinto cheiro de terra nos cabelos.
Uma andorinha entra no meu quarto.
Uma abelha se esconde atrás do espelho.

Os tico-ticos bicam o espantalho.
A pedra da montanha solitária
Tem apenas o sol por companhia.
Ainda se ouve a água do rio seco.

As flores-de-São-João no cafeeiro.
A casa abandonada sofre ao sol.
O vento sopra sobre os cogumelos.
O cachorro descansa entre as ruínas.

O chorão pende os ramos sobre o lixo.
Os periquitos fazem algazarra.
A gata brinca com a aranha morta.
O burro espanta as moscas com o rabo.

________

Quando eu era criança, os tico-ticos faziam algazarra no quintal de casa. Depois, sumiram. Passei muitos anos sem ver nenhum tico-tico, passarinho sem graça mesmo – mas como fazia falta. Fui reencontrá-los, despreocupados, fazendo festa, em Minas Gerais. Este da foto está em Poços de Caldas, ao pé da Pedra Balão.
Ali estavam também a andorinha, a abelha atrás do espelho, o rio seco, o espantalho, os cafeeiros entre as pedras, cobertos de flores-de-são-joão, o cachorro dorminhoco, os cogumelos, o lixo, o chorão, a gata, a aranha morta, o burro com suas moscas. Estava ali, completo, pedindo para ser escrito, este pequeno poema triste e feliz.

Ah, era o dia e hora da derrota do Brasil na Copa...
_______________



__________

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

No meio do caminho




No meio do caminho

No meio do caminho as sombras dançam,
Entre os raios de sol e as poças d’água.
Um passarinho pousa aqui e ali
E bica a própria imagem na água suja.

Uma rosa caída numa pedra
Quase sangra, ao sol, de tão vermelha.
O voo leve de uma borboleta,
De flor em flor, de uma a outra rosa.

Um gafanhoto bate na vidraça
E cai em agonia na calçada.
Alvoroçadas as abelhas zunem
Em volta da cachopa, no portal.

No meio do caminho dança o sol
Refletido em cada poça d’água.
Uma cadela vem beber nas poças,
Com a água e o sol, o dia como imagem.

__________

Dialogo com um dos poemas mais lembrados de Drummond, “No meio do caminho” (que dialoga com Dante) e um dos menos lembrados (mas dos melhores) de Bandeira, “A realidade e a imagem”.
Harold Bloom cunhou a expressão “a angústia da influência” lembrando o fantasma que persegue tantos escritores tão ciosos de sua “originalidade”. Eu fico com aqueles que se extasiam com o prazer da influência – ou com o diálogo.
Deixo aqui o poema de Bandeira para a observação direta do meu processo criativo, de que me orgulho.

A realidade e a imagem

O arranha-céu sobe no ar puro lavado pela chuva
E desce refletido na poça de lama do pátio.
Entre a realidade e a imagem, no chão seco que as separa,
Quatro pombas passeiam
.

_________

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Fim de dia




Fim de dia

A menina, antes de cortar as rosas,
Hesita um pouco. O aroma a envolve toda.
Depois recolhe as pétalas caídas
Pelo chão, entre as pedras do caminho.

Sob as paineiras nuas, as painas brancas
Bailam no ar como borboletas loucas.
O vento leva as nuvens para o sol.
Um sino tange, longe, entre as chamas.

Garças douradas valsam neste incêndio.
As rosas fulgem na roseira brava.
Os canaviais farfalham, a fumaça
Sobe alto, em espirais. A cana estrala.

A terra se ilumina, as labaredas
Como línguas de sangue. Dói, sufoca.
A menina flutua com as rosas,
Com o aroma suave. Fim de dia.

_________

sábado, 2 de outubro de 2010

O carneiro




O carneiro

Nos olhos do carneiro, a eternidade.
Como uma nuvem na retina azul,
os olhos fundos escondendo o medo.
O mercúrio da morte na lã branca.

Sob a copa de espinhos da paineira,
o carneiro reflete o azul do céu
nos olhos e caminha para a morte.
Empalidecem os lírios com o sol,

delira o lago, as águas se iluminam.
Quem me trará de volta a infância azul
do carneiro? O balido na manhã

da dor ainda repercute em mim.
Vem um silêncio róseo, um baque súbito,
e o eterno suave morre com o carneiro.

_________

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

O bezerro Bito




O bezerro Bito

Acaricio o focinho do bezerro
Bito, peludo e escuro, muitos anos
depois do adeus à infância e suas pastagens
de sonho e sol. Sou órfão de um bezerro.

O Bito ergue a cabeça e me olha triste
como se adivinhasse a dor futura.
O que seria feito de nós dois
no carrossel do tempo, que não para?

Morremos quando finda o sortilégio
que fazia o universo inteiro nosso.
Nunca mais o bezerro Bito berra

me chamando no pasto. Nunca mais
a lambida na cara como um beijo.
Nunca mais o menino e o seu bezerro.

_________


... Gregório Vaz apronta das suas: um extemporâneo poema de finados (ou de amor, se quiserem).

_____________

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

A bênção do sol




A bênção do sol

Tem um rio nos fundos da minha casa.
Quando chega lá, ele forma um lago.
Depois um segundo lago. Não quer ir embora.
As águas chegam e param para sempre.

Chega uma pata adernando as banhas
Com uma esquadra de patinhos atrás.
Nadam no lago para lá e para cá.
Chega o sol com uma libélula.

Depois chega uma borboleta amarela,
A pata fala Quá! e ela fica azul de susto.
Os patinhos dão risada, Quá, quá, quá!
A borboleta voa na direção do sol.

Os peixinhos põem as cabecinhas de fora,
Espiam o espetáculo do sol. Uma garça voa,
Os bezerros pastam o capim verde do dia
À beira do lago. A vida é uma bênção do sol.

________

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

O ninho - Sônia Brandão




Ninho

De tanto olhar o ninho
nos meus olhos
nasceram pássaros.

O poema Ninho, da Sônia, foi selecionado entre os dez finalistas do concurso TOC 140, da Fliporto.

__________

A escrita nas areias: árvores e estrelas




A pedra do mar

Era apenas uma pedra junto ao mar.

As ondas vêm e vão com as espumas,
e é como se trouxessem junto o sol
e os peixes com o sal e com as algas.

Partículas de estrelas brilham,
sobem como espíritos líquidos
no ar da tarde de cores e perfumes.

Era uma pedra junto ao mar, apenas.


A morte de branco

A menina ia de branco na praia.

Levava o sol e o mar nos olhos,
levava uma gaivota em cada mão.

Seus pés deixavam marcas na areia,
um pingo de sangue caía em cada pegada.

Uma mancha de sangue crescia no vestido
da menina que ia de branco na praia.

As gaivotas voaram das mãos da menina
com o sol e o mar nas asas brancas.

___________

Foto: Sônia Brandão. Árvores na areia monazítica da praia de Itaguá, em Ubatuba, SP.

__________

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

A poesia é memória




As limas

O pé de lima no fundo do quintal
está seco. É uma súbita lembrança.

Os espinhos secos e negros,
como um esqueleto. Mas as limas

viçosas. Entra ano, sai ano, as limas
viçosas. O pé de lima é um esqueleto

negro e seco, mas as limas viçosas
refulgem, solenes, na lembrança.


O poste

O poste abre os braços para tantos fios e cabos
que não acabam mais.

Abre os braços para receber o dia:
reflete a luz do sol como uma bênção.

Os pássaros pousam em seus punhos de metal
e cantam batendo as asas.

Quando a noite se estende no firmamento,
a lua e as estrelas beijam as suas mãos abertas.

Um homem sobe no poste e abre os braços
entre os fios e o céu, crucificado.

______________

O meu amigo Zé de Anchieta publica um poema meu de 2007 aqui...
_____________

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

A borboleta translúcida




A borboleta translúcida

A borboleta translúcida voa
De folha em folha, de pétala em pétala.
O sol brinca no cristal luminoso
De suas asas mágicas.

Os peixes dourados, no tanque d’água,
Deslizam silentes.
A flor branca pende a corola
Para a pedra impiedosa.

O verde da paisagem nunca é o mesmo,
Na cerca da luz vária do dia.
Um pintassilgo, delicadamente,
Pousa num galho da roseira.

As antenas da borboleta
Captam imagens perecíveis,
Indigitam o seu destino
No labirinto, sempre novo, da vida.

_______

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

A pureza do afogado




O afogado

O mar trouxe o corpo à praia.
Era um estrangeiro, jovem e belo.
A boca aberta deixava ouvir,
como se viessem do outro mundo,

as vagas do mar e os gritos brancos das gaivotas.
Eu lhe fechei os olhos, azuis como o céu
através das órbitas de uma caveira.
A sua nudez lhe tornava a pele mais pálida.

Sorria perplexo, como se reconhecesse
num espelho
a nossa estranheza.

Olhando-o, nós sabíamos:
também temos, em vida, o céu nas órbitas
e a morte nas pálpebras.


Pureza

Um barco desliza no lago silente.
É o crepúsculo dos pássaros calmos
e a leve brisa na folhagem transparente.
Anjos inaudíveis cantam salmos,

demônios dormem no fundo abismo.
Hoje não verei a face do afogado.
Sou a nuvem suspensa de uma árvore
e cismo na quietude, cisne dourado.

_______

O primeiro poema é de 2005; o segundo, de 1985. Mais ou menos vinte anos os separam.

__________

"Quem escreve um poema salva um afogado." (Mário Quintana)

__________

Foto na Ponte Metálica, em Fortaleza.

________

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Soneto menor




Soneto menor

Sou linguagem como um pássaro,
sou som e cor como uma árvore.
Amo o corpo da mulher,
os olhos e o seio e a vulva

e todo o ouro do crepúsculo
que traz na margem da alma.
Decifro o enigma do mundo
com uma chave de fogo

e uma serpente na mão.
Com o vinho do silêncio
modulo a eterna canção.

É uma pedra e uma flor,
é uma estrela e tem sangue,
no coração da paisagem.

__________


Veja As botas do Gregório Vaz aqui.

___________

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Soneto monossilábico e Réquiem para W. H. Auden




Soneto monossilábico


Meu

pai

cai

réu.


Céu,

sai,

ai,

que eu


quero

ver

Deus,


mero,

ter

réus.


_____


1965.


______




Para não dizer que só falei de flores... – de plantas e bichos... Resolvi postar uns poemas diferentes. Como os três sonetos anteriores. E, para mostrar que faz tempo investigo a forma do soneto, este “Soneto monossilábico”.

E para não ficar tão monossilábico, um podcast do blog do meu amigo Wellington Leite. Um jurado do Mapa Cultural Paulista reclamava de, nas várias regiões do Estado que concorriam, não haver textos regionais. Mera falácia: a aldeia hoje é o mundo. E nesta aldeia global, posso ser um poeta ligado à terra – e ao mundo, do qual a terra faz parte (ou será o mundo que faz parte da Terra, agora com maiúscula?).

Se tiverem paciência, ouçam-me: http://conexaobrasilfm.blogspot.com/2010/09/primeira-postagem-de-podcast-jose.html

E, para quem, como eu, preferir ler:

Réquiem para W. H. Auden (1907-1973)

Parem as máquinas, parem todos os motores.
Queimem os livros, as enciclopédias, todas as cifras,
Todos os poemas, as palavras e as imagens,
Queimem o homem e a sua verdade implausível.

Morreu o poeta, o mundo não é o mesmo.
A memória do próprio tempo, das árvores e das águas
Desfaz-se ao contato humano, à vigília, ao clarão da aurora.
As paredes caem, os olhos explodem no labirinto.

O ouro da sombra desmorona, desmorona.
O azul do céu e o azul do mar são muito frágeis,
Não nos contaram que era tanta a solidão.

Parem as máquinas, chegamos ao esquecimento.
Queimem os poemas, as imagens continuam cegas e mudas,
Nós continuamos perplexos diante da porta sem fechadura.


O silêncio de Deus, 2009.

_______________

terça-feira, 7 de setembro de 2010

O cachorro




O cachorro

O cachorro me olhou com o silêncio
lacrimejante das janelas-enigma,
sempre fechadas, sem palavras, sangue
e sal diluidor, e latiu forte

como a morte, como árvore de espantos.
O cachorro rompeu o seu silêncio
de pedra exausta: precisava a dor
dizer ao mundo. O sangue na terra

clamava aos céus, o breve fim, a angústia
milenar, consentida, mas angústia.
O cachorro floriu diante do mar,

em êxtase com a água, a eternidade
nos olhos mansos, vendo o tempo frágil
desfazer-se na fria areia efêmera.

______

domingo, 5 de setembro de 2010

O cavalo




O cavalo

O cavalo sentou-se à minha mesa,
comemos e bebemos, conversamos
como velhos amigos que retornam
ao altar de antes, com os olhos rasos

de lágrimas e algum represado ódio.
O cavalo soltava fogo pelas
ventas, enquanto ria seu riso ácido.
Contou-me a história da partida antiga

com sangue e pus nos cascos quebradiços.
Fomos irmãos, pastamos nas pastagens
do mesmo senhor, nosso pai, ausente

e presente na dor e na alegria.
A angústia não tem fim, e retornamos
ao capim do universo que deixáramos.

_______


Poema detentor do 1º Prêmio “Cassiano Nunes” de Poesia, da Universidade de Brasília, junto a O cachorro e A gata (2º lugar, 2010).

__________

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

A gata




A gata

A gata me olha com seus olhos náufragos.
Era como se seu olhar viesse
do outro mundo. Lançava com os olhos
um grito silencioso, que gelava.

Havia gigantescas ondas, monstros
marinhos, corais, conchas e florestas
submersas em seus olhos de âmbar e ouro
líquidos, mal velando o abismo fundo.

Neles boiava o sal da eternidade.
Deus neles mergulhara na criação.
A luz primeira Deus criou nos olhos

da gata imemorial. O seu miado
surdo traz ecos dos enigmas do homem
diante do absoluto mar da origem.

___________

Poema detentor do 1º Prêmio “Cassiano Nunes” de Poesia, da Universidade de Brasília, junto a O cachorro e O cavalo (2º lugar, 2010), que postarei aqui nos próximos dias.

A gata é a da foto – é uma gata que apareceu em casa faz tempo, nem parece que já está velhinha. Não escrevi “gata imemorial”? Ela é capaz de sugerir muito.

___________

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Escusa – um poema de Manuel Bandeira




Escusa

Eurico Alves, poeta baiano,
Salpicado de orvalho, leite cru e tenro cocô de cabrito,
Sinto muito, mas não posso ir a Feira de Sant’Ana.

Sou poeta da cidade,
Meus pulmões viraram máquinas inumanas e aprenderam a respirar o
[gás carbônico das salas de cinema.

Como o pão que o diabo amassou.
Bebo leite de lata.
Falo com A., que é ladrão.
Aperto a mão de B., que é assassino.

Há anos que não vejo romper o sol, que não lavo os olhos nas cores
[das madrugadas

Eurico Alves, poeta baiano,
Não sou mais digno de respirar o ar puro dos currais da roça.

_________

Manuel Bandeira, in Belo Belo, Estrela da Vida inteira.

________

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Uma canção esperada







O amor é inefável.
Os crisântemos são eternos por causa do amor.

A gente sua estrelas quando ama.
Isto não é sexo, mas poesia.

Isto não é poesia, é registro de maravilha.
Amar é adoração, divindade, êxtase.

Ficamos tão estúpidos quando amamos,
que nem percebemos.

Eu quero tocar os guizos da alegria.
O amor é um banquete. É um sino dentro dos olhos.

O amor quebra vidraças. Estamos moendo estrelas.
O amor é alto. Conhecemos o amor como diamante.

A Via-Láctea chove sobre nós. Pisamos as brasas do amor.
Limões explodem. Somos verdes com o sumo por toda a pele.

Laranjas e estrelas dançam no alto. Poalha levíssima chove sobre nós.
A mão do pilão socando até o êxtase. A mão do pilão como o coito.

Coito, essa palavra bonita. Os teus lábios são bonitos. Vermelhos.
Colho mel entre as tuas pernas com os marimbondos vermelhos.

O nome de Deus é o verbo, o nome do amor é um corpo.
Nomeio o meu cavalo como nomeio o amor: corpo.

Amor natural como o êxtase
do corpo no corpo.

O amor inventa
a morte.

O universo se ajoelha
diante do amor.

Não existe nada antes do amor.
Nem depois.

_______________

À maneira de Manuel Bandeira, que fez o poema "Antologia" com seus versos mais significativos, fiz este poema-antologia com versos do livro "Poemas
de amor", Joarte Editora, Bauru, SP, 1999. Li-o em público algumas vezes, por ocasião do lançamento do livro; agora, lembrei-me de que não o mostrara para ser lido.

____________

sábado, 28 de agosto de 2010

À beira do lago

Flores sobre o lago



À beira do lago

Um peixe salta, um som verde-escuro
Na sombra da montanha. As águas correm
Com a aragem da terra. Entro no lago
Sob o olhar dos marrecos e das garças.

O dia sobe e desce com os lírios
E a sua dança delicada, lívida.
O orvalho cai no dorso das lagartas.
Flores de cerejeira esparsas, róseas.

Um pica-pau nervoso canta e grita.
Nós nos olhamos, eu e um sapo enorme.
Já saí da água e rezo para as árvores:
Eu me lembrei de Deus, como um perfume.

A flor da noite pende a fronte e cai.
Um espantalho, cômico, gargalha.
A aranha diligente tece a teia.
Os pássaros, com as estrelas, cantam.




__________


Poema do meu heterônimo Gregório Vaz aqui.

_______________

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

A paineira




A paineira

Você observa os galhos despidos
Erguidos em riste contra o céu azul
E as nove casas de joão-de-barro
Protegidas pelos espinhos da paineira.

Uma paina no chão, semi-aberta, espera.
Os fiapos brancos buscam o ar livre.
Você toma a paina nas mãos como um bicho:
Parece que se mexe, pulsa, quer voar.

Há desenhos de árvores e pássaros no chão.
Um pequeno pardal bica a própria sombra.
Uma flor solitária da paineira brilha
Entre os espinhos, sobre as águas do rio.

Um sanhaço muito azul salta de galho em galho
E dança na luz, paira no ar, caçando bichinhos.
Um sabiá se refresca à beira d’água e canta.
Os peixes curiosos espiam de cabeça de fora.

__________

terça-feira, 24 de agosto de 2010

A cigarra




A cigarra

Estrídula, a cigarra chia e canta.
A cabra dorme à sombra do mourão.
A menina boceja na varanda.
A manhã é tranquila, entre os crisântemos.

A lagarta se sonha borboleta.
A libélula pousa no barranco.
Uma minhoca cava em silêncio
A sua alcova úmida no barro.

Ouço a quietude da moringa d’água.
A melancia fresca de orvalho.
O aroma das ameixas no pomar.
O cafezal ressona sob a névoa.

O cavalo urina no jardim.
A garça voa sobre os bois, revoa.
A coleirinha salta no capim.
A rã caça mosquitos no laguinho.

__________

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Mamar



A vida é esse leitinho quente que sai das tetas da minha mamãe.

___________

Vídeo e legenda: Sônia Brandão

___________

sábado, 21 de agosto de 2010

O paraíso




O paraíso

Mais belas que as águas da minha terra
Somente a minha terra mesmo. A minha terra
E as árvores e as garças, e um boi e um bezerro.
As águas e tudo mais são parte da minha terra.

Quero que me enterrem debaixo de uma árvore
Para escutar os passarinhos da manhã à noite.
Talvez qualquer hora dessas eu saia voando.
Já aconteceu, voei até cansar, depois virei louco de novo.

Uma vez um gato me desfolhou de todas as penas,
Saí voando pela janela como um anjo pelado.
Os anjos vêm do iníco do mundo, depois ganharam penas
Coloridas como os passarinhos, e trinaram nas árvores.

Voltando a falar de beleza, tem o orvalho na flor de cereja,
Numa pétala de rosa. É um diamante líquido, mas trina.
Um passarinho vira uma palavra dourada e trina na gaiola,
Mas fora dela, no mato, que é um lugar chamado paraíso.

__________


Foto: O mato visto do fundo de casa (da casa da minha infância).

_____________

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Bichos





Bichos

O peru estica o pescoço e solta,
Do fundo das entranhas, o grito.
Os porcos, fuçando a lama, grunhem.
O burro pasta preguiçosamente.

O chupim se equilibra
Sobre o dorso do velho cavalo.
A garça sobrevoa as vacas
E os jumentos à beira do riacho.

As galinhas, displicentes, ciscam o chão.
A pata nada com seus patinhos.
A cadela corre e mergulha na água.
O joão-de-barro remexe a lama.

Os bezerros presos mugem.
E o carneirinho, sacudindo desesperado
As tetas da mãe, mama que mama,
Como se viver fosse apenas mamar.

__________

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

No bosque




No bosque

Qual é a causa da tristeza da arara?
A arara ri, gargalha de tanta tristeza.
Uma garça pousada em cima do boi
Faz pose, exibe a sua beleza branca.

O sabiá na paineira procura a luz.
O sol escorre pelo tronco, como ouro.
Você se encosta ao tronco da figueira,
Sente a casca dura na sua pele delicada.

O musgo sobe pelo tronco, envolve-o,
No entremeio das parasitas floridas.
Um tucano no alto, num galho fino,
Resmunga, e se mexe de lá e para cá.

Um pica-pau confunde-se com as rugas
Do velho tronco, em busca de alimento.
Você caminha atenta, e contempla
A festa dos galhos cruzados no azul.

____________

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

A corruíra




A corruíra

A pequena corruíra salta
Da raiz da figueira para o chão.
Venta. As folhas gargalham.
O sol gargalha nos galhos da figueira.

O cupim construiu o seu cupinzeiro
No tronco partido em dois por um raio.
As abelhas voejam, entrando
E saindo, entre as parasitas, no tronco.

O vento derruba as folhas da figueira.
A corruíra voa de folha em folha.
Esfolo o pé entre as raízes.
As formigas em fila, atarefadas.

As formigas diligentes carregam
Todas as pétalas do mundo na cabeça.
A corruíra salta do chão para a raiz
Iluminada pela réstia de sol.

________

sábado, 14 de agosto de 2010

O dia da Criação




O dia da Criação

Todas as pedras floriram na primavera.
As flores ouviam o silêncio do orvalho.
Os passarinhos ouviam a conversa dos ventos,
Depois iam contar para as árvores à beira d’água.

Um gavião explode o azul. O céu parte-se.
Um barco inútil descansava numa enseada.
Eu tinha um beija-flor me bicando os olhos.
Dava vontade de morder a carne da manhã.

Eu era um caracol grudado numa pedra, com limo
Na boca, na língua e nos dentes. Eu era verde.
Eu não conhecia nenhuma palavra, como um sábio.
Todas as palavras eram novas, eu soprava e inventava.

Quando uma palavra se gasta, é preciso chorar e enterrar.
Mas para cada palavra morta nasce outra viva, esperneando
Como um lambari. As palavras pedem para nascer,
Voar e trinar. As palavras quando nascem são poesia.

__________

"O dia da Criação" - uma homenagem a Vinicius de Moraes.
Porque hoje é sábado.
___________

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

O mato




O mato

O capão de mato ao fundo me fascina.
Nenhum mistério, apenas a beleza
Das árvores e da água bem no centro.
Existe uma pureza que não se explica.

Animais, pássaros raros se agasalham
Entre seus recantos mais escondidos?
Apenas a beleza de uma orquídea
No alto de uma peroba brilhando ao sol.

Ouço o sibilo dourado dos guizos
De uma cascavel? Uma jaguatirica
De tocaia ruge? A arara gargalha?
O esquilo salta num raio de luz.

Depois é tudo quietude, silêncio verde.
Os marimbondos zumbem alvoroçados
Na sua cachopa à beira de um barranco.
A sombra do mato me acolhe nos braços.

__________

Desde a minha infância esse mato, bem ao lado de casa, me fascina (é o mesmo da foto do cabeçalho do blog).

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Aquarela







Aquarela

As flores-de-São-João dão vida à arvore seca,
O ipê roxo se eleva entre a estrada e o pasto.
A água escorre de uma montanha de pedra
E é como sangue resplandecendo ao sol.

O céu límpido ao fundo dói de tão azul,
Um gavião carcará passa voando e grita.
As plantações de vários tons de verde
Brilham enfileiradas nos montes em frente.

A fumaça espirala-se das casas nas encostas.
Um jumento cansado rumina o universo
Com os olhos tristes, mas com paciência.
E o vento silva sem pressa no capinzal.

Uma capelinha branca na montanha mais alta,
Um inviável barco a vela no pequeno lago,
A água cai, em festa, de uma calha de bambu.
Colhemos, nos olhos abertos, a calma do dia.

____________


Fotos: em Pocinhos do Rio Verde, Caldas, MG.

____________


Visite meu outro eu: http://gregoriovaz.blogspot.com/2010/08/aniversario.html

_________

terça-feira, 10 de agosto de 2010

O jardim à beira d'água




O jardim à beira d’água

A garça branca e a garça preta
No topo da árvore sobre o rio.
As águas passam, fazem uma enseada
Em volta do jardim e do pomar.

A borboleta bailarina entre as flores,
As margaridas e os amores-perfeitos.
Por que tem tantas cores o amor-perfeito?
No galho da roseira o canário trina.

As garças refletidas nas águas
São levadas pelo cristal do rio.
O cachorro late, late para as garças,
Chora de leve, desiste e persegue as vacas.

As garças grunhem como porcos no chiqueiro.
Os espinhos da roseira selvagem
Tornam mais belas as rosas. Um melro
Pousa no telhado, olha o rio, e canta.

________

domingo, 8 de agosto de 2010

O canário



O canário

Olha o canário: canta, depois voa.
A libélula cai de uma haste fina.
O capim brilha à beira da lagoa.
O sol beija de leve as folhas verdes.

O vento esconde-se no bambual.
O gavião soberbo na manhã.
Refresco os pés nas águas do riacho.
Os lambaris, lavados e prateados.

Olha o canário: vai morrer, mas canta.
E olha a borboleta como dorme.
Olha os patos selvagens como gritam.
E as águas correm verdes entre as pedras.

Um grilo grita muito fracamente.
Um sagui se pendura num cipó.
Os pica-paus martelam o coqueiro.
O céu e as nuvens são um rio sem água.

_______

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Cromo




Cromo

A garça branca ergue muito o pescoço
E olha do alto, solene, a vaca preta.
A vaca pasta com resignação
O capim verde à beira do mato.

Perto, com seus espinhos, um pé de limão.
A água corre escondida, não muito longe.
Um tucano passa agitado, aos gritos.
Dois coqueiros se ajeitam entre as árvores.

Nuvens brancas esparsas no céu azul
Lembram a paina das paineiras nuas
Ou a lã das ovelhas tosquiadas.
Quase as ouço balir à distância.

Os cavalos pastam sossegados:
Sabem que o verde nunca terá fim.
Os cachorros descansam à sombra
E prossegue o trabalho das formigas.

_________

A B. Lopes. Eu era quase criança quando conheci os "cromos" de B. Lopes. Depois, quando comecei a fazer poesia, fiz algums "cromos" à maneira de B. Lopes - ou que eu pretendia que fossem à maneira, quando eram apenas péssimos. Dia 27 de julho último escrevi este poema e ocorreu-me o nome Cromo – somente então me ocorreu que muitos poemas que tenho escrito poderiam ter esse nome, usado por B. Lopes. Bom. Não tenho intenção de ser "moderno", nem "inovador". Sem nenhuma intenção premeditada, escrevo cromos, como B. Lopes, embora à minha maneira.
Se alguém quiser comparar, conhecer ou recordar: http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/rio_de_janeiro/b_lopes.html

terça-feira, 3 de agosto de 2010

A ruazinha




A ruazinha

É uma ruazinha estreita, para pedestres
E carrinhos de mão, jumentos e cachorros.
Quem vem? Ninguém. Inúmeras vezes ninguém
Transita na ruela magra de outros tempos.

Velhos vasos de flores descansam aos lados.
Algumas plantas sobem até os telhados,
Refletidas nas poças d’água entre as pedras
Da minha rua torta, esguia, em declive.

O céu cinzento acima dos telhados sujos,
As paredes com limo verde escorrendo.
É de ferro a sacada, velha, para nada
Se ver, da vida pobre, parada num canto.

Duas ou três janelas dão para os porões
Que aprisionam mistérios nenhuns: bolor, mofo,
Silêncio e escuridão. A vida dorme aqui.
À sombra da memória, o pêndulo do sol.

__________

"A ruazinha" é uma brincadeira - um exercício proposto pelo blog http://gambiarraliteraria.blogspot.com/2010/08/exercicio-de-criacao-1.html do poeta Edson Bueno de Camargo.

_________

Veja também: http://gregoriovaz.blogspot.com/2010/08/o-poema-perfeito.html

____________

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

As palavras e o mito




Irmão

Estrondeia livremente por onde passa.
Tivesse botas de sete léguas
Seria o jaburu planando sobre as águas.
Sabe a gabiroba no entardecer,

Sabe o beiço roxo da amora.
Tudo festagens da felicidade.
Quer rasgar todas as palavras,
Sabe o nome das coisas sem palavra no meio.

É um gigante que ninguém sabe,
Mato sabe e comunga.
Nasce um lago onde pisa
Com bagres e tizius floridos.

É criança e chora com todos os dentes
E ri com todos os olhos.
Tem doze olhos na ponta dos dedos,
Mais um para ver por dentro.


Irmã

Sentava no jardim.
Mastigava pétalas de rosa,
Comia bocados de terra,
Alguma raiz.

Quebrava caracol nos dentes,
Saboreava.
Estudava horas com o sapo
Meneios da língua,

Palavra em larva.
Atrás de casa desovava
Uma lagarta de fogo.
A pedra floresce do limo,

Do meu cuspe verde-negro.
Comia um carreiro de formigas.
Formiga na língua esperta a palavra,
Palavra com gosto de formiga inebria.

________

Estes poemas têm dez anos mais ou menos.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Poema de aniversário





Poema de aniversário

A areia branca escorre entre os dedos,
O suor escorre na minha face exausta.
Ninguém conhece o Ribeirão das Flores,
O Rio Batalha foi contra quem mesmo?

Vou buscar gabiroba no aeroporto,
Entre as cabras, há quarenta anos.
Venta no descampado sem limites,
Ao longe o trem apita como um navio.

O Vitória Régia resplende ao sol,
As pandorgas cabriolam no céu azul.
Os cachorros nadam na água suja,
Os meninos mergulham aos gritos.

O verde cresce na terra e nas almas,
O gavião voa sobre o campanário,
Deus sorri para as ruas e as casas.
A cidade faz anos e bate palmas.

____________

A foto foi tirada no Parque Vitória Régia, onde, partir de hoje, acontecem as festividades do aniversário de Bauru, que comemora 114 anos no dia 1º de agosto.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Matão, raízes

https://www.youtube.com/watch?v=Zvk2fJ1-Xpo&t=15s

Vídeo de lançamento do livro "Memória da terra" (22-07-10), de JCMBrandão, mostrando que o autor faz poemas telúricos porque tem suas origens na terra.

Acesse o link:  https://www.youtube.com/watch?v=Zvk2fJ1-Xpo&t=15s
__________

terça-feira, 27 de julho de 2010

Coisas da terra




Coisas da terra

Eu falo das coisas da terra
Das plantas e dos bichos simples
A figueira na frente de casa
Os caracóis subindo na parede.

As jabuticabeiras pretas
Os sabiás com o mamão no bico
O bezerro Bito no pasto
Com o dia verde nos dentes.

Falo palavras redondas e úmidas
O café no terreiro ao sol
A água limpa vinda do mato
E a vaca Moela mugindo.

O cavalo cavalga no sonho
Tenho terra nos olhos e na língua
O milharal e os cafezais floridos
E o galo com o sol na garganta.

________

sábado, 24 de julho de 2010

A figueira



__________


O jornal Bom Dia, em Bauru, na matéria sobre o lançamento do meu livro "Memória da terra", publicou o poema "A figueira" na foto do tronco da minha figueira. Gostei tanto que quis repetir o feito aqui - mas não consegui trabalhar bem com as cores, para deixar o texto bem legível. Se não conseguir ler após clicar para ampliar o texto, leia-o abaixo.


A figueira

Deito num vão no tronco da minha árvore.
É uma grande figueira velha de um século.
Estou deitado no meio de folhas amarelas
Com um cheiro bom pelo meu corpo inteiro.

Réstias de sol desenham figuras no ar.
Pássaros voam, pousam e cantam.
A claridade doce me envolve e sonho
A sombra do bezerro e a sombra da vaca.

Essa figueira foi minha desde que nasci.
O meu mundo eram os seus galhos e folhas.
O meu mundo eram suas raízes sobre a terra,

Seu tronco e sua sombra como um colo de mãe.
Envelheci, sou outro, a minha figueira envelheceu,
Não nos reconhecemos. O tempo não volta atrás.

________

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Convite e palestra de apresentação do livro "Memória da terra"




A poesia da terra

O primeiro livro de poesia que li foi “Os simples”, de Guerra Junqueiro. Eu tinha 15 anos de idade e disse lá comigo mesmo algo assim: “Então eu posso ser poeta. Se as coisas simples da vida, a gente e os bichos e as plantas que eu conheço podem ser matéria de poesia, e se o poeta é alguém comum e não uma abstração (naquele tempo o poeta era uma entidade abstrata – Camões, Bocage, mesmo Cruz e Souza, Bilac, muito distantes da gente, do que entendíamos por gente), então eu também posso ser poeta.” E escrevi o meu primeiro poema.

Era um poema sobre a figueira que havia em frente da casa da minha infância. Era um poema péssimo e eu sabia disso. “Mais tarde eu aprendo a técnica do verso e reescrevo”, eu me disse. Uns 35 anos depois, quando pensava já ter aprendido a técnica do verso, aprendi também que o verso não é necessário – verso, métrica, ritmo, rima, estrofes, etc. são acessórios, o essencial na poesia é a imagem. Se o poeta não cria a imagem num poema, não criou poesia. E escrevi um poema em prosa sobre a figueira. Logo depois, um segundo poema – também em prosa.

Alguns anos depois, o poema “A figueira” que está em “Memória da terra”. Os dois últimos versos, que estão na capa do livro, são a única vez em que expresso uma ideia. A poesia não é feita para expressar nada, mas para criar imagens. Fiz uma concessão (ninguém é perfeito) ao escolher os poemas de “Memória da terra”, talvez porque é uma passagem significativa: a infância morreu, nós somos outros, a própria terra é outra, impossível recuperar o tempo passado. Apenas como memória, como Proust fez. Mas eu optei por cantar a terra no presente. Cantar a beleza da terra em si, como estou vendo hoje. Como uma homenagem à terra que eu conheci, ao menino que eu fui.

Não faço poesia sobre coisas antigas. Não pretendo recriar o passado. Crio imagens vivas, do aqui e agora. Como vi e senti no momento presente. A terra é o domicílio do homem neste universo. Impossível conhecer a complexidade do universo. Impossível conhecer a complexidade do próprio homem. Mais lógico cantar o que vejo e toco, coisas concretas e não abstrações, com palavras simples e diretas. Sem ideias, com imagens. Se estou mostrando o que vejo, estou criando imagens. É inócuo fazer elucubrações intelectuais sobre a vida ou o universo. Não estou escrevendo um ensaio, mas poesia. Poesia se faz com imagens. Só.

O poeta é quem acredita na frase “Uma imagem vale mais que mil palavras” – e dedica uma vida a transformar palavras em imagens.

Como concessão, incluí (ninguém é perfeito, repito) alguns elementos da memória. O terreiro de café, as jabuticabeiras, o grito do meu pai, os olhos da minha mãe, o bezerro Bito, a vaca Moela. O mais são imagens presentes, que acabei de ver. Costumo dizer que não tenho imaginação. Mas imaginação também pode ser definida como capacidade de associar imagens, que é o que faço, e portanto – tenho imaginação. Às vezes também o que vulgarmente se chama imaginação. Veja o poema “A argola”. Muita gente, a maioria, dirá que é memória. É pura invenção (nunca existiu argola nenhuma). Poesia é ficção. Muita gente, a maioria, costuma se esquecer de que poesia é ficção.

Essa é a minha poesia da terra. Simples, clara, visual – imagens para o leitor ver. Poesia não é feita para ser explicada. Não ponham palavras na minha boca. Eu escrevi apenas o que está ali no poema. Por que interpretar, querer deduzir o que eu disse? Se eu quisesse dizer, eu diria. Eu apenas escrevi um poema. Veja as suas imagens, extasie-se com elas. Um poema não quer interpretação, mas comunhão. Não é um enigma para ser desvendado, mas um objeto de arte que se oferece para a fruição estética.

Como no momento estou tomando notas para uma palestra (estou escrevendo algo como um ensaio, que é terreno de trabalho intelectual), vou sugerir umas ideias. Se estivesse escrevendo um poema, deveria criar apenas imagens. Aqui, vou lembrar a epígrafe do meu livro: “Vivo a natureza integrado nela, de tal modo que chego a sentir-me, em certas ocasiões, pedra, orvalho, flor ou nevoeiro. Nenhum outro espetáculo me dá semelhante plenitude e cria no meu espírito um sentido tão acabado do perfeito e do eterno” (Miguel Torga, Diário II). Li essa passagem depois de terminado o livro. Não escrevi minha poesia para justificá-la. Ela justifica minha poesia. É como se eu estivesse falando de mim mesmo. Interessante que a li depois de fazer meus poemas.

A capa do livro deveria ser uma foto da figueira. Caiu um raio sobre a figueira, não é a mesma. Como eu não sou o mesmo. Mas continua lá, no Matão – a Fazenda São José do Matão – da minha infância. Na contracapa estou abraçando uma de suas raízes, pode-se ver como a figueira ainda é enorme. Na capa, a figueira e a casa onde vivi os meus primeiros oito anos. A figueira centenária, como um símbolo do Matão. A casa também centenária, também resistindo ao tempo implacável.

Vou mostrar um vídeo: “Matão, raízes”. Quero dizer que escrevi poemas telúricos porque vivi no Matão e, ali, aprendi a amar a terra. Não aprendi com poetas ou religiões do Japão, China ou Índia. Aprendi com a terra que conheci. Influências? Todos temos. Telúricas, em poesia, tive principalmente de Raul Bopp e seu “Cobra Norato”. Imagens da terra, dos bichos, das árvores, da vegetação exuberante da Amazônia – imagens anímicas, antropomorfizadas.

Davino Ribeiro de Sena disse que eu, em meu livro “Presença da Morte”, premiado na V Bienal Nestlé de Literatura, tinha uma característica bem pessoal de escrever – que usava o sujeito sem o artigo (desde o primeiro poema: “Lâmpada falava, mariposa ouvia. (...) Escorpião se aproxima...”). Eliminei logo essa minha característica “pessoal”, que era de Raul Bopp. Não tinha sentido usar um recurso acessório de Raul Bopp. O que de essencial aprendi dele foi como, em minha poesia, dar vida, sentimento, alma às coisas da terra.

No projeto que apresentei à Lei de Estímulo à Cultura, propus dar um banho de natureza no leitor, com poesia de qualidade. Confiram o que eu entendo por "poesia de qualidade"; ninguém poderá negar o “banho de natureza”. São cem poemas telúricos, cem poemas de exaltação da terra. Somente em Manoel de Barros você vai encontrar tão forte presença da terra, mais do que em “Memória da terra” – mas Manoel de Barros é o maior poeta brasileiro. Conheci primeiro Raul Bopp, mas é uma honra ver lembrarem Manoel de Barros quando leem minha poesia (apenas lamento Raul Bopp ficar tão esquecido).

Em 1989 eu estava datilografando os originais da primeira versão de “Memória da terra”, para o concurso da Bienal Nestlé de Literatura. Deram mais um mês de prazo. Nesse mês escrevi “Presença da morte”, poemas telúricos. E não da morte, góticos, com gosto pelo macabro. Era a morte das coisas da terra, que permaneciam presentes ainda em mim. Os poemas são o reflexo da presença da terra. A pressa (lembre-se: fiz o livro, setenta poemas, em um mês) levou-me a essa falha.

“Memória da terra” começou a ser escrito em 1989. Em 1991, fiz “Sol no umbigo”, que recebeu o Prêmio Brasília de Literatura. A maior parte dos poemas do “Memória da terra” atual são bem recentes – a exceção (10%) são alguns poemas de 1989 (da primeira versão de “Memória da terra”), de “Sol no umbigo” e outros escritos há uns dez anos. Venho aperfeiçoando a minha poética neste tempo todo. Este “Memória da terra” que entrego aos leitores é o melhor que posso dar de mim, em técnica e esforço. Começou a ser escrito naquele primeiro poema, “A figueira” (portanto, há 48 anos), incipiente, tateando o caminho que se estende até hoje, pesquisando, aprendendo aos poucos. É obra de uma vida.

_________

(O vídeo estará no YouTube depois do dia 22, com link aqui.)

___________

domingo, 18 de julho de 2010

É dia, Maria




É dia, Maria

Pôu! – e depois outra vez muito longe: Pôu!
A mão de pilão descendo pausadamente
O monjolo líquido moendo o tempo
O galo do sol bica a farinha da aurora.

O cavalo me olhava e relinchava
Me olhava e relinchava novamente
Os gansos deram o sinal de alarme
O dia nasceu da barriga do sapo.

Todas as pétalas do jardim sorriram
Com as pérolas do orvalho pulsando
A terra era um pulmão e regurgitava
As abelhas voaram com ouro nas patas.

O menino anda com as vacas no pasto
O cachorro corre na frente latindo
Os bezerros dão pinotes felizes
As garças brancas inauguram o dia.

_________

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Pôr-do-sol





Pôr-do-sol

O arame farpado na garganta do sol
O sangue mancha todo o horizonte
O arame pega fogo, solta faíscas
Incendeia as árvores, o mato inteiro.

As garças passam voando com as asas
Em chamas, caindo chispas das penas
As nuvens frigem na fogueira da tarde
O vidro do céu se embaça na fumaça.

As touceiras se agarram nos barrancos
As lágrimas do capim escorrem na terra
Os galhos verdes estralejam com a queimada
O negrume do carvão se espirala no ar.

Olha que vem o vento trazendo a lua
E a estrela Vésper como um balão azul
A noite se acende no grito dos grilos
Os vaga-lumes viram estrelas no céu.

_________

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Mucuripe



Mucuripe

Entre os barcos e as casas dos pescadores
Há uma mesa com seus bancos fincados no chão,
Alguns copos, um ou dois pratos, talheres
E bocas famintas e olhos arregalados.

Cachorros andam de um lado para o outro
Perseguindo a própria sombra,
Um resto de comida, a vida
Preguiçosa como os gatos pardos,

Que se esparramam por ali,
Na modorra de donos absolutos do lugar.
As árvores projetam a sua sombra verde
Sobre esse chão pobre, cheirando a lixo e dor.

Uma criança chora: é sinal de vida.
Um velho ergue uma garrafa de pinga
Enquanto exibe o peito coberto de tatuagens.
Uma mulher oferece um peixe e grita como louca: Viva a vida!

___________

O Sangue da Terra, 2010 - Fortaleza, CE.
_____________

segunda-feira, 12 de julho de 2010

A Pedra-Balão




A Pedra-Balão

Você subiu na Pedra-Balão.
Eu a vejo de vermelho
Numa moldura de flores vermelhas
Iluminadas pelo sol do inverno.

Os periquitos verde-amarelos gritam.
Você contempla o mundo do alto.
A pedra se ergue sobre o abismo.
O mundo é feito de pedra e verde.

Os raios do sol abençoam a pedra
Enorme como um meteoro.
O universo inteiro se concentra
Nessa pedra sagrada como um altar.

Num vão sobre a pedra eu vejo o azul.
O céu líquido no seu bojo materno.
O mundo é pedra, pedra, pedra. E flutua.
Montes vestidos de verde sob o céu azul.

_________

sexta-feira, 9 de julho de 2010

A seriema




A seriema

A seriema majestosa me olha
E marcha a meu lado no capinzal.
A árvore projeta a sua sombra
Sobre as pedras brancas da montanha.

Um pequeno pinheiro inclina-se
Na encosta, sobre o vale sossegado.
A neblina sonolenta dança no ar.
Você não olha para trás.

Olho a sua face séria sobre o abismo.
Você caminha decidida
Sobre a trilha de folhas secas.
Você leva a paisagem nos olhos.

O verde cobre as montanhas.
Lagos azuis espelham o sol.
A seriema grita para o abismo
E corre com as asas abertas.

________