





Não terminei de fazer o meu pássaro,
Mas ele inventa a minha paisagem.
______________


Invenção do limo
O limo veio do córrego,
Do capão de mato onde as águas nascem.
Veio do parto da aurora, das chuvas,
Do medo sangrando no peito
Veio do poço, das tulhas, dos arados ancestrais,
Veio no rabo de um cometa, de uma estrela.
Veio da noite. Cobriu as roças, as árvores, a casa.
Me cobriu.
Sou vestido de limo como todos os caminhos.
As penas dos pássaros são limo,
O relincho dos cavalos, o mugido das vacas são limo.
A voz não diz nada: é limo.
Memória anterior à criação: limo.
Sem forma, sem nome: sou ungido de limo.
_________
A Henrique Pimenta, http://dobardo.blogspot.com/
que postou um poema chamado Limo e me fez lembrar desse meu... Foi difícil achar, perdido num blog desativado de 2002. Vai aqui (ninguém viu lá). Com a minha homenagem ao Bardo, que ressuscitou este poema.
Êxtase
A pedra cai na água, o pássaro imóvel
no galho. A rosa, ao sol, se renova.
Os melros na relva, os melros dentro
de mim. Onde estão? Quem fui?
Caminho na tarde verde à beira
da água clara onde as nuvens se miram.
Atira a pedra na água e esquece.
O círculo cresce e desaparece.
Qual a forma do meu poema? Ainda
estou elaborando o nome da rosa.
Vozes verdes, verdes ventos. Elaboro
o meu poema como um cavalo ruminando.
O rio engole a palavra e espera o êxtase
da rosa ao se mirar em suas águas.
___________










