domingo, 25 de abril de 2010

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Os pássaros da aurora



Os pássaros da aurora

A siriema bica o ovo do dia
Na porta da cozinha, quebra a casca.
O cheiro do café coado grita.
O forno gordo estoura com os pães.

Estralam as estrelas no fogão.
As galinhas se agitam no terreiro.
O galo engasga com o sol e grita.
O cavalo relincha sob o arreio.

O meu pai tira leite das vacas
Coroado das flores da paineira.
Os bezerros invadem o pomar,

Os cães correm atrás e latem, latem.
Cantam todos os pássaros da aurora.
A luz inunda a terra como um mar.

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Hoje é o Dia da Terra. Para mim todos os dias são dias da terra. Estou preparando um livro com cem poemas telúricos, que vou lançar provavelmente em 19 de agosto. Telúricos, da terra. Em especial do lugar onde eu nasci, o Matão.

Miguel Torga é do Marão, eu sou do Matão. Diz Torga: “Do meu Marão nativo abrange-se Portugal; e, de Portugal, abrange-se o mundo.”

Lembro mais uma vez Tosltoi: “Canta a tua aldeia e cantará o mundo.” E sigo cantando o meu pedaço de terra, o Matão, e sei que estou cantando a terra vermelha de São Paulo, e a terra branca de Bauru, e as falésias coloridas do Beberibe, e a areia monazítica de Itaguá, em Ubatuba, SP, e o barro de Santa Catarina (morei dois anos lá, há meio século, e chamavam a terra de barro), e estas terras abrangem as terras do mundo inteiro. O barro de que somos feitos, o limo original.

Dedico este poema à terra, neste dia, e todos os outros meus poemas, em todos os dias.

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quarta-feira, 21 de abril de 2010

O silêncio



O silêncio

Fomos à ilhota no meio do lago
Para ouvir o silêncio.
Um pássaro de prata imóvel na luz
Abria o bico, não cantava.

O sol estourava a água.
Uma orquídea partia-se com o calor.
Um carreiro de formigas carregava
Uma roseira nas costas.

As pedras do caminho soltavam chispas.
Ouvia-se uma pétala no ar.
Ouvia-se a raiz da árvore sob a terra.

Um lagarto saboreava a claridade.
A libélula ouvia a borboleta.
Nós ouvimos o sol e a sombra.

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quinta-feira, 15 de abril de 2010

Visita ao velho pinheiro



Visita ao velho pinheiro

Volto a abraçar o meu velho pinheiro.
Os seus galhos se estendem para o azul.
Respiro o ar claro da manhã de Deus.
Os esquilos saltitam em busca da luz.

O sol coado de leve entre as folhas
Acaricia o húmus úmido da trilha.
Um bando de beija-flores dança
Numa coreografia de brilhos e cores.

Uma manada de cavalos marcha
Com o equilíbrio natural da raça.
Eu bebo a água da fonte do pinheiro.

O musgo cobre as pedras e o barranco.
Os jacus saltam, voam com estrépito.
Depois, apenas o silêncio verde.

Monte Verde, 15 de abril de 2010.

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Foto: Sônia Brandão

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sexta-feira, 9 de abril de 2010

Invenção do limo



Invenção do limo


O limo veio do córrego,
Do capão de mato onde as águas nascem.
Veio do parto da aurora, das chuvas,
Do medo sangrando no peito

Veio do poço, das tulhas, dos arados ancestrais,
Veio no rabo de um cometa, de uma estrela.
Veio da noite. Cobriu as roças, as árvores, a casa.

Me cobriu.

Sou vestido de limo como todos os caminhos.
As penas dos pássaros são limo,
O relincho dos cavalos, o mugido das vacas são limo.

A voz não diz nada: é limo.
Memória anterior à criação: limo.
Sem forma, sem nome: sou ungido de limo.


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A Henrique Pimenta, http://dobardo.blogspot.com/

que postou um poema chamado Limo e me fez lembrar desse meu... Foi difícil achar, perdido num blog desativado de 2002. Vai aqui (ninguém viu lá). Com a minha homenagem ao Bardo, que ressuscitou este poema.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Monte Verde



Monte Verde

Abraço o velho pinheiro na trilha do bosque.
A seiva verde corre no meu sangue.
O ipê me oferece seus cálices de flores,
Eu me embriago com a beleza do dia.

O bicho-preguiça se pendura num galho,
A arara voa, vaia e aplaude sem parar.
As garças são nuvens leves no céu azul.
O monjolo canta na sombra do vale.

A brisa suave balança as montanhas.
O verde se repete de árvore em árvore.
Os beija-flores dançam, os sabiás cantam.

O cavalo relincha na encosta dos esquilos.
As casas florescem à beira do caminho.
As águas caem, brilham, saltam nos olhos.

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"O poeta abraça o velho pinheiro", em Monte Verde, MG - foto de Sônia Brandão.

Dizem que o velho pinheiro tem mais de trezentos anos.
Foi uma experiência única.
Acho que na semana que vem vou a Monte Verde matar as saudades.

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domingo, 4 de abril de 2010

A caverna




A caverna

Uma cortina de gotas d’água
Na entrada da caverna.
A água vinha do barranco,
Das plantas acima,

E pingava no barro embaixo.
Através das gotas d’água em movimento
Víamos a terra nua
Iluminada pelo sol.

Às vezes folhas secas passavam
Levadas pelo vento do alto da serra.
A luz era agradável

Dentro da caverna:
Tinha um tom róseo,
Lembrava a água ou a terra.

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terça-feira, 30 de março de 2010

Êxtase


Êxtase


A pedra cai na água, o pássaro imóvel

no galho. A rosa, ao sol, se renova.

Os melros na relva, os melros dentro

de mim. Onde estão? Quem fui?


Caminho na tarde verde à beira

da água clara onde as nuvens se miram.

Atira a pedra na água e esquece.

O círculo cresce e desaparece.


Qual a forma do meu poema? Ainda

estou elaborando o nome da rosa.

Vozes verdes, verdes ventos. Elaboro


o meu poema como um cavalo ruminando.

O rio engole a palavra e espera o êxtase

da rosa ao se mirar em suas águas.


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segunda-feira, 29 de março de 2010

A maior tragédia do poeta




A maior tragédia do poeta

Disse Jean Cocteau que "para o poeta a maior tragédia é se o admiram porque não o entendem." Revi essa frase esses dias e comecei a refletir se meus últimos poemas (os que tenho mostrado, há outros que elaboro e reelaboro infinitamente e secretamente) são fruto dessa reflexão. A busca da simplicidade para não ser admirado, se o for, porque não me entendem. Comecei a escrever poemas complexos demais, para leitores iniciados. Considerava que a simplicidade era dificílima e só poderia ser atingida com muita experiência. Seria fruto da maturidade.
Mas me lembrei de que O Córrego tem uns doze ou quinze anos, Ele Era Nosso Pai tem mais de 15, Poente tem uns 20... Não foi agora que atingi essa maturidade, se é que consegui a façanha de ser entendido. Porque a questão não é tão simples. Um grande amigo reclamou: “Você escreve difícil, Zé.” Acontece que esse amigo não é leitor de poesia, aliás, não é leitor de coisa nenhuma. Penso que está respondida a questão: quem não é leitor de poesia, por mais que tenha boa vontade, por maior que seja a amizade, não entenderá o poema mais simples. E muitos, além de não serem leitores de poesia, não são leitores de nada – a esses é impossível esperar-se o milagre de entenderem um poema.
Por falar em entender um poema, tenho insistido nesse ponto há muitos anos: um poema não é para ser entendido. Mas fruído, degustado aos poucos, saboreado com prazer – aquele prazer que leva ao êxtase estético. Não é preciso se analisar a obra para se saber o que o autor quis dizer, não é preciso explicar pari passu as suas intenções aparentes e ocultas. Um poema não é uma obra de autoajuda para transmitir uma ideia banal ou profunda que possa ser lida como uma filosofia de vida. O poeta não transmite ideias, mas imagens. O poema não tem nenhum compromisso com a verdade, mas apenas com a beleza. Se é que tem algum objetivo, será o de encantar, extasiar.
As imagens do poema, inevitavelmente, farão bem ao leitor. Se gostou, se se emocionou, se sentiu que a realidade é bela, e a beleza é sempre um bem, e se sentiu que a realidade é mais do que a realidade, ou se apenas sentiu a realidade, o poema lhe fez bem. Mas, repito, não é preciso explicar essas imagens. Não sejamos tão magistrais. Afinal, repetindo-me ainda, explicar uma piada tira toda a graça da piada – quem precisa de explicação ri sempre sem graça, fica com cara de bobo.
Se é diminuir muito a poesia compará-la à piada, comparo-a então à mágica. A poesia tem o sortilégio da mágica. E sabemos que um mágico não ensina como realiza seus truques, seria tirar-lhes todo o encanto.
Desmontar o relógio ou a caixinha de música para saber como funciona tira-lhes toda a graça. A criança quebra o brinquedo para ver o que tem dentro e depois chora, não só porque está quebrado, mas porque sempre era melhor não saber.
Não prego a ignorância (ainda mais que já dei a entender que sou contra toda pregação). É preciso desenvolver no leitor o gosto estético. É preciso que o leitor tenha, antes, a capacidade linguística. João Cabral fez séries de poemas sobre o ovo, o relógio ou a cabra, matérias não-poéticas – estava ensinando-nos que poesia é antes de tudo uma questão de linguagem.
O poeta precisa dominar a linguagem para escrever (até para escrever errado). E o leitor precisa dominar a linguagem, não para entender um poema, mas para senti-lo. Sentir já é uma forma de entender.
Quando se fala em sentir, pensemos em sensações. O poema é uma forma, que posso manusear, ver, ouvir, cheirar, saborear. O poema é um objeto que deve tocar aos meus cinco sentidos, talvez a um sexto, a um sétimo... Estaríamos falando da imaginação, da perplexidade metafísica... Mas não é preciso complicar. Fiquemos nos cinco sentidos, que, pelo menos teoricamente, são bem fáceis de entender. Fiquemos no prazer de sentir as imagens do poema, é muito, pode ser tudo.
(Como no poema de Manoel de Barros: “Olha, mãe, eu só queria inventar uma poesia. / Eu não preciso de fazer razão.")

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Ao poeta Edson Bueno de Camargo, que andou em palpos de aranha por causa de certos não-leitores.



sábado, 27 de março de 2010

Crepúsculo





Crepúsculo

As pétalas de luz caídas na água,
Embriagadas com o vinho do crepúsculo.
A minha imagem sai do lago
Molhada de sombra doce.

Uma menina dorme e é uma rosa
E sonha as pétalas orvalhadas.
Um peixe olha de lado para o sol
E sorri com a prata das escamas.

Quebro gravetos secos com os pés,
Quebro o vidro da paisagem.
A árvore dança sorrindo

Com os pássaros no coração.
A lua se aproxima de mansinho
Fugindo do moinho do sol.

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quarta-feira, 24 de março de 2010

As águas do rio



As águas do rio

A rosa floresce.
Junto à fonte interminável
Abre as pétalas de luz.
Um bem-te-vi anuncia o arrebol.

Na harpa da palavra,
Com os dedos em chamas,
Vou tangendo o universo.
No meu olhar cai o orvalho da manhã.

Vejo a tua face na gota de orvalho.
A libélula se procura à beira d’água.
Ouve-se o som da sombra de uma folha.

O poeta vive à beira do abismo e do êxtase.
As águas do rio estão dentro dos meus olhos,
Nunca acabam de passar.

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segunda-feira, 22 de março de 2010

Claridade




Claridade

O hibisco vermelho apaixona-se pelo sol,
Abre-se mais, explode, parte-se.
As folhas verdes guardam a luz e a sombra.
A borboleta aprisiona a cor nas asas abertas.

A libélula equilibra-se no caniço.
O limo recobre a pedra por onde a água escorre,
A água cristalizada ao cair das pedras da cascata.
A garça caminha com leveza no capinzal.

O pica-pau martela o tronco do pinheiro.
O beija-flor carrega a luz nas asas em delírio.
A coruja vigia a sua toca com os olhos acesos.

As palmeiras espelham–se nas águas do rio.
O monjolo sobe e desce, a roda d’água cantarola.
O melro canta à beira d’água a claridade do verão.

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sexta-feira, 19 de março de 2010

O córrego




O córrego


Os brotos de bambu crescem rodeando a casa,
A água parada brinca com os girinos,
Giram no ar as jabuticabeiras pesadas,
As pedras sonham com a carne dos lagartos.

A cadela delira com o dia das maritacas,
O joão-de-barro palpita com a sua casa,
O arado levita nas asas do beija-flor,
A orquídea eleva a árvore acima do sol.

A vida clara estala na cacimba,
A borboleta adora a terra vermelha
E as flores semeadas no canteiro.

Meu canto engorda na ponta dos dedos,
As laranjeiras adernam no quintal.
No córrego a beleza nua e límpida.

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Ao Vasqs, que gostaria de ter escrito um outro poema, O Orvalho da Amora, que falava do córrego da infância, escrito no mês passado, enquanto este é do século passado, dever ter uns doze anos,
também à Claudinha, que não pode lembrar que eu nasci em Dois Córregos sem rir, e nem sabe que minha cidade tem três córregos, nasceu na confluência do córrego Fundo com o Lajeado, que se unem para formar o do Peixe, que vira rio, cresce, torna-se o Rio Jaú, que vai dar nome à cidade vizinha.
Carlos Reichenbach fez um filme chamado Dois Córregos, mas sem querer engana o incauto que vê uns córregos enormes, o rio Jacaré e o rio Tietê, que também banham o município de Dois Córregos.
Quando meu casei, fui morar na beira de um córrego, as vacas e as éguas de noite vinham se coçar nas paredes da casa, ou poderia ser uma anta, havia antas e capivaras por ali.
Mas o córrego da minha infância é bem longe dali, no pedaço de mato onde eu nasci, lugar que um dia foi tão grande que chamaram de Matão, e o córrego corria nos fundos de casa, não tão perto quanto o poema faz supor, havia antes uma imensidão de pés de jabuticaba, nunca vi tantos juntos depois, havia muitos outros pés de fruta, havia o mangueirão dos porcos, havia pássaros e outros bichos e havia encantos muito mais que o poems faz supor.
Ninguém acredita, mas eu nasci no paraíso.

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quarta-feira, 17 de março de 2010

A origem do poeta




Ele era nosso pai

Ele contava histórias e ele plantava árvores.
Um dia viu uma cobra à beira do caminho,
Aninhou-a no peito, dormiu com ela,
Acordou irmão das árvores e dos bichos.

Desceu ao fundo do rio atrás de uma concha,
Voltou com nove filhos e uma mulher nos olhos.
Dizem que somos frutos de uma ou nove árvores,
Somos peixes das águas, que a dor humaniza.

Nosso pai dominava os cavalos selvagens,
Conversava de longe, acariciava as crinas.
Dizem que relinchamos alto na alvorada.

Nosso pai conhecia a voz da terra e do sol.
Tinha uma cobra no peito quando cavalgava
Tocando o berrante com um som de água verde.

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segunda-feira, 15 de março de 2010

O orvalho da amora




O orvalho da amora

Os dias caem no córrego da infância,
O tempo gordo, de sal e sol,
Com os bezerros e os cachorros.
A bananeira exibe o coração enorme,

As jabuticabeiras carregadas
Forram o chão de folhas leves.
Os pés afundam no barro vermelho,
Os olhos mergulham no orvalho da amora.

Ouço ao longe o monjolo e sua sombra,
O vento balança as nuvens brancas,
As espigas rebentam no milharal.

Abro os pulmões para o ar da manhã,
O cavalo relincha na porta da cozinha,
O galo canta por todos os galos.

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sexta-feira, 12 de março de 2010

Quietude




Quietude

A casa quieta, à beira do lago, acorda com os pássaros.
Há domingos tão belos que até os cachimbos florescem.
Os meus olhos e os figos maduros estouram ao sol.
A água fresca dos cântaros reluz à sombra sossegada.

O poeta escreve com estrelas, pedras e pássaros.
A montanha brilha no caminho do pinheiro além-horizonte.
O pássaro desenha o círculo perfeito no céu azul.
A pomba passeia na terra do canteiro de buganvílias.

Escrever é um testemunho da alegria.
A mulher ergue a mão para a macieira em chamas.
As árvores solícitas esperam a passagem do rio.

A figueira abre os braços e oferece a sombra acolhedora.
Nadam na água os peixes dourados e a imagem das árvores.
O melro canta, imóvel. O rio deflui, banha as folhagens do dia.

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quarta-feira, 10 de março de 2010

O sangue e a terra




O sangue e a terra

O barco no campo entre as vacas,
Os bezerros e os cavalos.
A luz era tanta
Que giravam os cavalos.

O barco flutuava,
O brilho da tarde degolava.
A mulher de pedra pairava
Na luz da terra vermelha.

A borboleta amarela
Media a distância infinita.
Pendiam de sede os caules da tarde.

Os marimbondos bailavam como loucos
Ou apaixonados.
Fiquei cego com tanta cor.

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segunda-feira, 8 de março de 2010

Corpo e figo




Corpo e figo

Seu corpo imita um figo
Estourando de maduro.
No azul dos olhos, refletido,
O azul de um sanhaço.

O orvalho da manhã
Ainda líquida na pele
E os lábios de maçã,
Os seios que explodem

De carne rubra e cristal.
Palavras são pouco,
Nenhum repouso.

A boca saliva
E sangra. Antecipa,
No desejo, a mordida.
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Foto: Evandroc - Flickr

sábado, 6 de março de 2010

Sinfonia




Sinfonia

As tartaruguinhas nadam
Com as cabecinhas de fora,
O lírio caído no lago
Sonha um idílio no jardim.

O cisne flutua
Entre as árvores no espelho d’ água,
O cisne valsa
No cálice do lago,

Um ninho valsa
Com a música da brisa.
Um raiozinho quase se afoga

No tanque da rãzinha.
O pica-pau no alto do coqueiro
Martela a sua sinfonia inacabada.

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terça-feira, 2 de março de 2010

Alba



Alba

Gira a roda d’água,
O monjolo pila o milho,
Um galo bica a manhã.
Escorre a farinha do ouro do sol.

A dor das ameixas abre-se à luz.
Entre as folhas da cerejeira,
O canto do pássaro inventa o pássaro.
Saboreio a amora roxa.

Os meninos e as abelhas
Sonham o mel das pitangueiras vermelhas.
Dos cajus dourados nos galhos do cajueiro,

Pingo a pingo, o sol.
Bebe de meus lábios,
Na clara luz da manhã, o êxtase do olhar.