quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Depois do terremoto no Haiti




É o fim do mundo, grita a haitiana.

A terra tremeu,
o fogo queimou,
as casas caíram.

Vítimas sangram no meio da rua.

Um soterrado pede ajuda,
uma mão sai de uma parede,
uma cabeça sobre uma pedra.

Corpos, corpos, corpos.

Ainda está balançando,
eu não posso ficar neste lugar,
preciso de ajuda.

Gritos, gritos.

Zilda Arns morreu numa igreja.
Um menino olha para o céu.

Deus não vê a dor dos homens,
eu sofro, eu cego Deus.

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quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

A púrpura vária




Eu me perdi nas dunas do poente,
ouro selado no caminho das lágrimas.

Que palavra o desígnio vence?
A noite é o limite do mistério.

Uma pálpebra tímida me escuta,
inútil o exercício da procura.

As vagas se detêm na praia cinza,
a aranha tece o véu de orvalho e nácar.

No labirinto da linguagem cega,
eu velo a flor do abismo.

Estou perdido, além das evidências.

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segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

A Cecília Meireles




A BAILARINA

Escala íntima, prece entretecida
reflexo alado e cântico delido
a bailarina arremetida vela
o corpo-ritmo pluma que se anela.

É fábula cativa nas retinas
em equilíbrio lírico feridas,
é uma estrela livre sobre o dia,
intacto raio verde-gris contido,

e pássaro de prata cristalina,
librada em árvores de seda breve.
Tranqüila ceifa as asas como pétalas

e cai espelho concha de água e seta.
Fina imagem de flor que se enleva,
fantasia de brisa e luz reflete.

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Alberto da Costa e Silva lembrou bem: Cecília Meireles é bem pouco lembrada. Por quê?

Ele próprio, Alberto da Costa e Silva, é bem pouco lembrado. É um dos dois ou três maiores poetas brasileiros vivos (embora poesia não seja corrida de alcance, como lembrava Mário Quintana), mas quase ninguém o reconhece.

Cecília é um dos poucos nomes realmente grandes da nossa poesia, mas sofre quase um ostracismo. Não é demasiado ousada? Mas é preciso uma obra ser ousada? O que é essencial numa obra? Aliás, falar em essencial é falar em Cecília Meireles. Tenho dito.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

A Manoel de Barros





O ENCANTADOR DE CABRAS

Vinha na poeira da estrada, aceitava um prato de comida,
talvez algum serviço.
Era encantador de cabras. Tocava a flauta,
cabras sisudas roçavam o pasto para ele.

Sufocaram as rãs, enroladinhas no peito
para não morrerem de frio; o peito ainda coaxa.
Tinha a cabeça virada para trás,
mode guardar as lembranças.

Gania no fundo do poço, a água jorrava.
A vida tem muitas mágicas, como um ovo.
Santo de todas as rezas, benze sobre o estrume verde
e floresce a muleta entrevada.

Vira e mexe se transforma num diabinho de chifres furados,
oito brincos dependurados.
Simples a vida, milagre de água
de mina bebida na guampa – dizia, encantado.

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Poeta grande é aquele que não precisa de explicação.
Minha homenagem ao enorme poeta Manoel de Barros.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Página de diário



Abri a janela e vi um avião,
a tarde estava azul
no céu, mas
verde no morro, nas árvores, no pasto, nos bois.
A terra é vermelha,
branca em Bauru, dizem,
mas é verde quando meus olhos estão pastando
e vermelha quando meus pés pisam,
se afundam,
navegam entre os pés de café, as jabuticabeiras e a beira
dos córregos verdes da infância.

Olho o avião e me vejo plantado na paisagem,
no galope do cavalo,
uma fruta na boca, outra na mão
e respingando terra úmida
– de calças curtas –
nas ruas por onde ando.

Trago na carne os perfumes da vida
que vivi, sonhei, pisei, escarrei
– a minha vida cuspida e escarrada na palma da mão
eu vos ofereço, ó príncipes, meus irmãos.

Não sou todo mundo
nem ninguém, sou
a razão da minha emoção
ao sol e à chuva,
nudez, equilíbrio, brilho do orvalho
na corola da flor ou na bosta das vacas.
A minha poesia tem a pureza de uma laranja
brilhando no alto da laranjeira
ou apodrecendo no prato esquecido no alto do armário.

Um peso na balança
na noite, no centro
do dia, o poema é um fruto sempre maduro
que apodrece, se esquecido
no alto do que for.
Eu sou a voz que fica no poema
mesmo se apodrecido,
voz perene.

Dentro
do poema, o coração
com a sua régua e esquadro. Que bela
a vida de cada dia
retalhada como a carne no açougue
– tão vulgar!
e tão doce,
tão alma.

Tenho a presença de Deus no fundo dos olhos
dormindo,
pisca-piscando como um vaga-lume
ou brilhando tanto que, por isso, não se vê.

Sou pobre
como um cisco,
a galinha no quintal,
o cachorro roendo um osso,
o mendigo como um anjo atravessado no caminho
e sou rico
como a água, o pássaro, o jumento
porque tenho a poesia na ponta da língua
e às vezes sei disso.

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segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

600 cruzes





As crianças carregam suas cruzes
Proclamando a verdade nua e crua:
“O lugar de criança não é a rua.”
São seiscentos meninos carregando,

Às costas, cada um a sua cruz
Lembrando a todos os desocupados
Que o lugar de criança não é a rua,
Lembrando que nós somos os culpados

De as crianças não terem pai nem mãe,
De viverem catando lixo podre,
De disputarem com os urubus

A carniça da vida, as imundícies
Que o rico desbundado joga ao pobre.
Voltaremos ao pó nós todos nus.

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Escrevi este poema em abril de 2009, quando vi a mais bela manifestação de minha vida.
Em Fortaleza, praia do Meireles, Volta da Jurema, 600 meninos carregando cruzes, denunciando o abandono das crianças de rua.
Mostro somente agora o poema, como uma forma de participar da denúncia desse grave problema humano.

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sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Ressaca



Som de bronze nenhum, o tédio tange.
No mármore e no sangue a aderência.
Mas nós que somos filhos da carência,
que oculta flor de fogo nos responde?

O besouro do olvido nos confrange.
Por que condutos fluem as ondas, onde?
A alameda febril consome a angústia
com o seu ímpeto. Nós, os insolventes,

quem somos? O ar nos modela a forma vã,
e contemplá-la é flauta. Vagas? Entoamos
o cântico do mito constelado, dementes

e mansamente lúcidos na escura e chã
(bruma, nudez) medida que geramos.
Quem somos nos exaure em ouro e astúcia.

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quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Perfil



Falo esta minha fala de palavras
noturnas, onde me revelo inteiro.
Sou o que sou, e escrevo do que posso.
De minha face, que se fecha em si,

em dor que anseia pelo exato ritmo
que a transfigure, de evasiva imagem
a seu edificado espaço vivo.
Os resíduos do sonho ou da memória,

os labirintos do destino avaro,
o domínio do efêmero presente
no pensamento sábio, e ignorando,

as cinzas ilusórias, o que, alheio,
nosso julgamos. Vou mostrando, aos poucos,
os ângulos de minha face frágil.

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Desejo um ano novo com muita paz, sabedoria, beleza a todos os amigos.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Construção

















Escolho as pedras do poema frágil.
Quero compô-lo com perícia tal:
Sua noite ordenada, na palavra
À palavra ajustada, com rigor.
Edifício de música e mistério,
A fábula criada se contempla
Voltada para dentro de si mesma.
Conceito circunspecto no declive
Da paixão, em sigilo resguardada.
Muralhas rubras guardam a garganta,
Correntes se erguem contra as cordas pobres.
Minha voz se contrai em seus limites.
Eu componho a forma, alta, concentrada.

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sábado, 26 de dezembro de 2009

O múrice e a rosa




Do múrice purpúreo à rosa negra:
as luzes do crepúsculo submersas,
a beleza perdida nas areias.

Por correntes sombrias sou levado,
pelos mares da noite, sob os sonhos.
Sou escravo de aranhas dementadas.

A morte intima o pulso latejante,
quem sou é uma voz e o sobressalto.
O silêncio me explica. Contra o céu.

Ultrapassei o umbral, as vagas dunas.
O amor salva, mergulho restituído.
Mas onde a seiva das estrelas dúbias?

Vivo o limite imposto, concha e pétala.
Não me encontro no espelho, em que me escondo.
Sou o múrice e a rosa, água velada.

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terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Natal em Bagdá



A bomba desenha uma cruz em Bagdá
A estrela explode antes de nascer
A mulher rasga com as unhas o ventre ressequido
Dois olhos vazios me olham de lugar nenhum.

As árvores estão despidas como esqueletos
A rosa não tem mais nenhuma pétala
A raposa e outros bichos tristes choram no deserto
O universo é um cogumelo gotejando.

Profeta sobrevivente do exílio
Já não tenho voz e canto à beira da estrada.
Todas as crianças têm a garganta cortada

O sangue das crianças colore a aurora.
Um menino queima sobre a palha
Das suas cinzas o novo homem vai renascer.

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domingo, 20 de dezembro de 2009

Altura




No horizonte, onde cessa o sol,
a luz, branca e lívida, extingue-se
e se azula de verde e frio
a paisagem alta do céu.

Somente o céu é tudo, no alto,
como se abolindo, remoto,
e vejo, confuso, o reflexo
dele, nulo, num lago em mim,

lago recluso entre rochedos
hirtos, calado, olhar de morto,
em que, esquecida, se contempla
a altura, sem angústia, absorta.

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sábado, 19 de dezembro de 2009

Nitidez



Vejo nítido o céu ao sol,
azul esverdeado e cinza branco.
Sobre os montes da outra margem
paira uma névoa cor-de-rosa.

Visão que se extingue de súbito,
num intervalo entre dois nadas.
Asa no alto, entre céu e mágoa,
veio prolixo e machucado.

Esqueço, como uma saudade
que todo mundo tem por tudo,
e me invade um ópio da noite
num êxtase alheio de nada.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Livro do Desassossego



LUSCO-FUSCO

O que é isto que escrevo? Para quê?
Quem sou? Que imagem crio no poema?
Sou uma sombra na caverna alheia?
Faço a barba na minha face ou de outrem?


LIVRO DO DESASSOSSEGO

A concha sobre o livro sossegada
carrega vida alheia primitiva.
O poeta fechado em si mesmo
carrega a vida alheia de uma concha.


A POMBA FERIDA

Ferida pelas garras do gavião,
a pomba pulsa e sangra em agonia.
Depois do último voo angustiado,
vem, serena, morrer num só soluço.


O MACACO

O macaco na jaula tem cócegas
ou são minhas caretas no espelho?
Sou um bicho vestido de consciência
de macaco na jaula com cócegas.


PENUMBRA

Caminho na penumbra, entre destroços.
Vivo no lusco-fusco da consciência:
não conheço o ângulo do meu desejo,
não sei quem sou ou quem suponho ser.


A EMILY DICKINSON

Faça a cama com cuidado,
uma cama larga e macia
que acolha o nosso sono
até o Juízo Final.

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quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Com o arame farpado na língua




1.

Com o arame farpado na língua
não me calo.
O sangue é a minha voz.
A minha língua sangrenta sobe ao céu.


2.

Com a faca da poesia na mão
escrevo na carne o meu poema.
Sei que um dia morrerei, mas deixo
a semente do meu grito plantada na terra.


3.

Contemplo o mundo do alto da montanha.
Os homens são formigas entre ruínas,
a cidade é um cigarro apagado.
Repouso entre as nuvens e as pedras duras.


4.

Primeiro ouvimos o toque de silêncio.
Depois caminhamos pelo pátio desolado.
Um de nós havia morrido afogado
e era como se cada um de nós fosse o morto.


5.

Não fui nem nunca serei barro a ser moldado.
Eu próprio moldei minha forma de homem.
Ordeno: pare, chuva; pare, sol.
Enfim, me atiro da muralha e morro.


6.

Na pedra a lição de poesia.
O mistério das coisas, nítida escrita
nas ranhuras leves ou fundas da pedra.
Olho a pedra como a um espelho.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Poema de Natal



E o anjo do Senhor anunciou a Maria
E ela concebeu do Espírito Santo.
Dois mil anos se passaram
E ainda se ouvem as trombetas da alegria.
A estrela brilha no alto da montanha
E ilumina o universo de esperança.

A terra inteira festeja o Mistério.
O primeiro milagre de Jesus
Não foi mudar a água no vinho em Caná,
Mas tornar-se homem no ventre de Maria.
Sem deixar de ser Deus,
Jesus se esvaziou da divindade,
Ganhou carne e alma humana para a Redenção.

O homem não se salvaria
Se o Salvador não nascesse de Maria.
Os pastores e os reis adoraram o Menino
Envolto em panos e deitado na palha,
Deitado no leito de madeira como a cruz do Amor.

Maria é a nova Eva,
com a maçã na mão e a serpente aos pés,
Jesus é o novo Adão
Da aliança eterna, sempre nova.
O pão e o vinho são a carne e o sangue
Da ação de graças de toda a Criação.

E tudo começou na estrebaria,
O Menino nascendo de Maria.
Cantamos a primeira igreja: Jesus, Maria e José.
Na sagrada família de Nazaré
O amor do Pai, do Filho e do Espírito Santo, amém.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Retrato




Viver cada dia
como se fosse o último,
isso eu quereria,
e a face tranquila
de algum sábio antigo.

Dizer “carpe diem”
e colher os pomos
dourados do dia,
porque do amanhã
ninguém mesmo sabe.

Os dias se vão,
mas eu permaneço
sob o sol e a chuva,
contemplando a vida
em casa ou na estrada.

Falo do infinito
para além do umbral,
muito além da porta,
num copo de vinho,
no corpo da noite.

O dia nascia
azul, com o sol
e com tantos pássaros.
Tudo no lugar
das coisas da vida.

Tomo a noite escura,
o deserto e a areia,
a pedra e a montanha,
me perco de mim,
mas encontro Deus.

Se parece absurdo
morrer algum dia,
mais parece absurdo
viver para sempre
nos dias da vida.

Mas de onde viemos
e para onde vamos?
Afinal, quem somos?
A poeira cósmica
da ideia de Deus?

A poesia cósmica
criada por Deus
contemplo extasiado,
e me entrego à paz
da beleza antiga.

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Uma leitura do livro Retrato, de Marly de Oliveira.

A foto da Sônia lembra que o retrato também é meu.

(e entro em "férias" por uma semana...)

domingo, 6 de dezembro de 2009

O Pequeno Príncipe




No mosaico da vida
a obra de arte contida.
O meu espelho inteiro,
de onde, para subir,

desço. No vão da escada,
a minha alma converte
o universo num grão
de areia, sal, feijão.

De onde viemos, de onde
vem o pequeno príncipe
que somos, num abrupto
susto? A escrita do acaso?

Deus me perdoe, mas quem
me fez nada, ninguém?
O filtro das palavras
não me livra das larvas.

Não se diz o indizível
fardo falho, mas íntegro.

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Uma leitura do poema O Pequeno Príncipe, de Marcelo Novaes,
http://olugarqueimporta.blogspot.com/2009/01/parecer.html

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

O sol me queima as penas




O sol me queima as penas
e o corpo frágil.
Sonho sem asas
e canto a minha morte.

A minha ausência na espuma,
na sombra apunhalada.
A paisagem leve das aves
e o sangue no altar da distância.

As árvores na tarde fria,
erguem os seus ramos vazios
lembrando-nos o nosso nada:
despidos para o azul de Deus.

Por acaso olhei para fora,
por acaso nos encontramos
à luz pura do dia largo
com uma pergunta nos lábios.

Neste exílio em que vivo,
nesta ilha de palavras,
encontro a minha face
no espelho redivivo.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

A névoa




Deixa a névoa suspensa
de teus olhos, imensa.

Deixa a névoa cobrir
miragens do possível.

A paz é flor distante,
é pedra dissolvida.

Toda memória apaga-se,
resta a névoa do olvido.

E teu relógio talha
os minutos sofridos.

O real da paisagem
perdida sob a névoa.

Há sombrias imagens.
E tudo o mais é treva.