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quinta-feira, 26 de agosto de 2010

A paineira




A paineira

Você observa os galhos despidos
Erguidos em riste contra o céu azul
E as nove casas de joão-de-barro
Protegidas pelos espinhos da paineira.

Uma paina no chão, semi-aberta, espera.
Os fiapos brancos buscam o ar livre.
Você toma a paina nas mãos como um bicho:
Parece que se mexe, pulsa, quer voar.

Há desenhos de árvores e pássaros no chão.
Um pequeno pardal bica a própria sombra.
Uma flor solitária da paineira brilha
Entre os espinhos, sobre as águas do rio.

Um sanhaço muito azul salta de galho em galho
E dança na luz, paira no ar, caçando bichinhos.
Um sabiá se refresca à beira d’água e canta.
Os peixes curiosos espiam de cabeça de fora.

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sábado, 21 de agosto de 2010

O paraíso




O paraíso

Mais belas que as águas da minha terra
Somente a minha terra mesmo. A minha terra
E as árvores e as garças, e um boi e um bezerro.
As águas e tudo mais são parte da minha terra.

Quero que me enterrem debaixo de uma árvore
Para escutar os passarinhos da manhã à noite.
Talvez qualquer hora dessas eu saia voando.
Já aconteceu, voei até cansar, depois virei louco de novo.

Uma vez um gato me desfolhou de todas as penas,
Saí voando pela janela como um anjo pelado.
Os anjos vêm do iníco do mundo, depois ganharam penas
Coloridas como os passarinhos, e trinaram nas árvores.

Voltando a falar de beleza, tem o orvalho na flor de cereja,
Numa pétala de rosa. É um diamante líquido, mas trina.
Um passarinho vira uma palavra dourada e trina na gaiola,
Mas fora dela, no mato, que é um lugar chamado paraíso.

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Foto: O mato visto do fundo de casa (da casa da minha infância).

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quinta-feira, 12 de agosto de 2010

O mato




O mato

O capão de mato ao fundo me fascina.
Nenhum mistério, apenas a beleza
Das árvores e da água bem no centro.
Existe uma pureza que não se explica.

Animais, pássaros raros se agasalham
Entre seus recantos mais escondidos?
Apenas a beleza de uma orquídea
No alto de uma peroba brilhando ao sol.

Ouço o sibilo dourado dos guizos
De uma cascavel? Uma jaguatirica
De tocaia ruge? A arara gargalha?
O esquilo salta num raio de luz.

Depois é tudo quietude, silêncio verde.
Os marimbondos zumbem alvoroçados
Na sua cachopa à beira de um barranco.
A sombra do mato me acolhe nos braços.

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Desde a minha infância esse mato, bem ao lado de casa, me fascina (é o mesmo da foto do cabeçalho do blog).

sábado, 24 de julho de 2010

A figueira



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O jornal Bom Dia, em Bauru, na matéria sobre o lançamento do meu livro "Memória da terra", publicou o poema "A figueira" na foto do tronco da minha figueira. Gostei tanto que quis repetir o feito aqui - mas não consegui trabalhar bem com as cores, para deixar o texto bem legível. Se não conseguir ler após clicar para ampliar o texto, leia-o abaixo.


A figueira

Deito num vão no tronco da minha árvore.
É uma grande figueira velha de um século.
Estou deitado no meio de folhas amarelas
Com um cheiro bom pelo meu corpo inteiro.

Réstias de sol desenham figuras no ar.
Pássaros voam, pousam e cantam.
A claridade doce me envolve e sonho
A sombra do bezerro e a sombra da vaca.

Essa figueira foi minha desde que nasci.
O meu mundo eram os seus galhos e folhas.
O meu mundo eram suas raízes sobre a terra,

Seu tronco e sua sombra como um colo de mãe.
Envelheci, sou outro, a minha figueira envelheceu,
Não nos reconhecemos. O tempo não volta atrás.

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quarta-feira, 19 de maio de 2010

Visita ao Matão




Visita ao Matão

Eu me vejo no espelho da janela.
A minha velha casa me recebe,
A mesma casa antiga, familiar,
Com as mesmas paredes, que me abraçam.

Um raio destruiu meia figueira,
Mas ela continua na paisagem
Com os cupins, abelhas, parasitas
Vivendo de seu tronco e suas raízes.

As jabuticabeiras se renovam,
Crescem e multiplicam-se no tempo.
O peru, as galinhas, os bezerros,

O meu mundo me espera no quintal.
O ribeirão, o mato ao fundo, os pássaros
Embalam a minha infância ainda hoje.

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Visita à casa da minha infância, num lugar chamado Matão.

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terça-feira, 18 de maio de 2010

Canção do exílio




CANÇÃO DO EXÍLIO

A minha terra tem uma figueira
Na porta de casa, um cavalo inquieto
E os cachorros latindo para as vacas
E o meu pai apartando os bezerros.

As jabuticabeiras são infinitas,
O pomar tem todas as frutas
E todos os pássaros cantando.
Os sabiás, os melros, os canários

Disputam quem canta mais alto.
O sanhaço lambuza o bico no mamão.
O cafezal e o terreiro de café,

O milharal e a mata à beira d’água
Me lembram que eu sou criança ainda
Com a cara lambuzada de terra vermelha.

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Dia 12 último fui visitar a casa da minha infância.
Continua lá. Caiu um raio em cima da figueira, não está
mais inteira, mas continua lá.