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sábado, 14 de julho de 2012

A FIGUEIRA DA MINHA INFÂNCIA

                                   A figueira do Matão da minha infância (antes do raio que a mutilou)



A FIGUEIRA

            Escrevi num poema que na escolinha de sítio da minha infância, entre o quadro-negro e as carteiras fazia falta uma árvore. Fazia falta uma árvore, sempre faz falta uma árvore na vida de um homem.
Mas era mentira. A cinquenta metros da escolinha (e a cinquenta metros da minha casa) a presença da figueira dominava. A figueira era maior do que o mundo. E estava entre o quadro-negro e os meus olhos e os meus dedos desajeitados. A sua sombra verde e dourada me acariciava sensualmente.
Os seus galhos se estendiam para o infinito, num convite à viagem, ao sonho. O seu tronco era enorme, impossível um homem sozinho abraçá-lo. E vários homens? As raízes não deixariam: erguendo-se a um metro, a um metro e meio acima da terra, impediam que a gente se aproximasse do tronco.
Galinhas se escondiam ali, naquelas raízes, e cachorros e bezerros e ouriços.  E a cascavel que me deixou os guizos de presente grudados na resina de uma casca ferida. Eu me escondia ali, naquelas raízes, entre folhas velhas, penas, minhocas e o húmus quente.
Uma égua vinha se coçar naquelas raízes, me bafejava a cara trêmula, eu encantado com aquele corpo animal tão próximo e com medo de um coice ou de uma mijada. Muitas vezes me deitei junto a montes de estrume verde e quente, cheio de vida.
        Num outro poema escrevi que meu pai plantou uma árvore, essa figueira, e como um personagem de Gabriel García Márquez ficou sessenta anos sentado numa pedra amarela vendo-a crescer.
Era verdade. Mas hoje meu pai está morto e a figueira continua lá, no Matão da minha infância. E a figueira continua a crescer dentro de mim, a crescer sem medida.
           O que eu sou como homem é do tamanho dessa figueira, as folhas verdes e as folhas de ouro, os galhos viajando para o infinito do sonho, e o tronco grande, grosso, nodoso, escorrendo a seiva forte da vida, e as raízes erguendo-se acima da terra, mais alto do que a minha altura de menino.
            Saí analfabeto da escolinha da minha infância, mas trouxe uma árvore, essa figueira, dentro de mim.
E por isso tenho o corpo como um tronco nodoso escorrendo seiva, e tenho um jeito animal na sensibilidade, e braços como galhos que perderam as folhas verdes e as folhas de ouro.
E pássaros se aninham na minha cabeça, como se fosse a copa que ainda sonha com a altura, o longe, a miragem.



4 comentários:

olara, um castelo de sonhos disse...

Como lhe entendo Poeta, como! Carregar nossas árvores, nossas raízes, troncos,é regar a alma de simplicidade e emoção fazendo nosso hoje a força que nos mantém.Aplausos! beijos no coração!

Bazófias e Discrepâncias de um certo diverso disse...

que coisa linda! abs brandão

Anônimo disse...

Olá Carlos, eu sou Ana Figueiredo Bomfim Matos, nasci em Salvador Bahia, no dia 04 de novembro de 1986. Eu Lí esse livro, Cem Anos de Solidão, me apaixonei por ele e me angustiei profundamente com a solidão. No Brasil nasce a saudade, de uma figueira que talvez tenha concordado em permanecer dilacerada, estéreo, mas que não aguenta mais segurar seus frutos, e morre de fecundidade parnasiana, esperando Paz!

Anônimo disse...

tenho um blog, se quiser me visitar: www.artesanamatos.blogspot.com
Infinitamente grata por sua crônica "A Figueira".